Arquitetura Ritual

Estadão

20 de setembro de 2010 | 00h19

Jotabê Medeiros

A Bienal de São Paulo lança um olhar interessante, e dinâmico, sobre a arquitetura. Ao incluir três projetos relevantes na mostra, afirma a capacidade inventiva de a arquitetura criar soluções baseadas em princípios de conveniência e disponibilidade. Mais do que isso: mostra que não há sentido em dissociar a arquitetura da produção artística como um todo.

“A estética arquitetônica tem uma política subjacente, elementos relacionados à criação de poder, à socialização”, disse em 2003 ao Estado o arquiteto Peter Cook, um dos visionários que criaram, nos anos 1960, em Londres, o coletivo Archigram, estrela da Bienal (os outros arquitetos do time eram Warren Chalk, Dennis Crompton, David Greene, Ron Herron e Michael Webb).

Em 2003, o Archigram (medalha de ouro do Royal Institute of British Architectures, já tinha frequentado a Bienal de Arquitetura). Agora, a Bienal de artes organizou ampla exposição com artigos, fotos e desenhos acerca de seus projetos psicodélicos (cidades em bolhas desmontáveis, movendo-se em barcos motorizados; máquinas para ampliar prazeres e ócio do banho; uma universidade-dormitório, com salas de aula conectadas a ambientes domésticos). Suas visões buscaram um “balanço de forças” entre a tecnologia e o humano.

Na confluência entre a ideia de artefato arquitetônico e finalidade social, entra outro conceito, o de “terreiro” (espaços de celebração). O curador Agnaldo Farias disse que o insight para essa série veio da canção de Assis Valente, Brasil Pandeiro, popularizada pelos Novos Baianos (“Brasil, esquentai vossos pandeiros, iluminai os terreiros/ que nós queremos sambar”).

Entre os seis “terreiros” da Bienal, destacam-se aqueles que tratam do espaço. Dito, Não Dito, Interdito, terreiro do arquiteto Roberto Loeb e do artista Kboco, parte da obra do escritor Guimarães Rosa. Próximo à entrada da Bienal, o terreiro funciona como auditório ou praça ao ar livre. Tem arquibancada, piso e palco “à disposição para invenção e reunião”. Segundo a curadoria, “o terreiro apresenta o convite da Bienal à organização do público, a associações, reivindicações, manifestações”.

“O espaço representa ainda o gesto de abertura que carrega o conceito de terreiro, ao expandir a membrana que separa a Bienal, o edifício mesmo que a abriga, de seu entorno, o parque, a cidade, e os usos e relações que nela se desenvolvem.”

Também no coração dos terreiros, Ben van Berkel, do escritório UN Studio (que já balançou o circuito americano com peças instaladas no Millenium Park de Chicago), é uma das estrelas a topar o desafio. O tema de Berkel é Eu Sou a Rua, tomado das crônicas do jornalista João do Rio (1881- 1921). Terá palestras, mesas-redondas, entrevistas. “O desenho do escritório, que remete ao branco e às curvas características da arquitetura de Oscar Niemeyer, privilegia a proximidade e mesmo a confusão entre falantes e ouvintes. O desenho se origina do movimento de rotação de suas três extremidades, que faz elevar uma arena para cerca de 40 pessoas, para que o público possa, em diferentes momentos, descansar, falar, ouvir, debater.”

O terceiro “terreiro” é assinado pelo arquiteto mineiro Carlos Teixeira, do escritório Vazio S/A, e foi batizado de O Outro, o Mesmo, título de obra do argentino Jorge Luís Borges. É um espaço labiríntico construído de estruturas de papelão prensado, apoiadas sobre rodas, busca evidenciar “a fragilidade dos mecanismos de representação, ameaçados sempre de se diluírem no fluxo dos eventos à sua volta”.

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