Wilco em dois livros: ‘Cabeça de Adulto’ e ‘Learning How to Die’
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Wilco em dois livros: ‘Cabeça de Adulto’ e ‘Learning How to Die’

Guilherme Sobota

07 Outubro 2016 | 19h02

ARQUIVO 21/09/2016 CADERNO2 / CADERNO 2 / C2 - Banda norte-americana Wilco lança o disco Schmilco e volta ao Brasil depois de 10 anos. CREDITO Zoran Orlic / Divulgação

Wilco Versão 2016 (da esquerda, Pat Samsone, Neels Cline, Mikael Jorgensen, John Stirrat, Jeff Tweedy e Glenn Kotche – a mesma formação desde 2004). Foto: Zoran Orlic / Divulgação

Jeff Tweedy – o líder, fundador, compositor e vocalista do Wilco – começou a aprofundar seus interesses literários no fim do século 20, durante as horas solitárias da extensa turnê de Being There (1996), segundo disco da banda. Esse interesse literário, bastante notável nas letras desde Summerteeth, de 1999, se transformou em um livro de poemas, sua única publicação até hoje, em 2004.

A Banquinho Publicações traz agora pela primeira vez ao Brasil uma edição caprichada de Cabeça de Adulto (Adult Head), com tradução de Fernando Koproski (poeta que também já verteu ao português obras de Charles Bukowski e Leonard Cohen).

A edição é bilíngue, encadernada artesanalmente com capa dura revestida em tecido e com arte em serigrafia do designer Dado Queiroz e sai por R$ 49,90. E os poemas são bons? Bem, não deixa de ser interessante para o fã de Wilco buscar ecos e ressonâncias entre os poemas e as letras, embora as comparações certamente favoreçam o impulso musical de Tweedy.

Um dos mais óbvios é o poema Unlikely Japan (cuja música “espelho”, Impossible Germany, seria lançada no disco Sky Blue Sky, três anos depois, em 2007), que também acaba sendo um dos melhores do livro. Um trecho:

she knows what she wants

that she wantas what she knows

she wants this to mean nothing and that sounds fair to me

a made-by-hand halo and new fashioned wings

 

she is blind to be an angel that’s rare to be

she’s not so well rounded

she has points you don’t see

she does whatever she wants

(and I swear)

she wanted me

CABEÇA DE ADULTO

Autor: Jeff Tweedy

Tradutor: Fernando Koproski

Editora: Banquinho (108 págs., R$ 49,90)

Capa da edição brasileira de 'Cabeça de Adulto'

Capa da edição brasileira de ‘Cabeça de Adulto’

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Outro livro do mesmo ano (2004) sobre o Wilco é Learning How to Die, do jornalista de Chicago Greg Kot (este sem edição brasileira).

O livro é uma grande e envolvente reportagem sobre os anos de Jeff Tweedy pré-Wilco – sua amizade com o talentoso Jay Farrar, a formação e dissolução do Uncle Tupelo – até o conhecido episódio envolvendo o disco Yankee Hotel Foxtrot, de 2002 (também retratado no excelente documentário I Am Trying to Break Your Heart, de Sam Jones).

O livro tem um tipo de plot reincidente, que é: Jeff Tweedy praticando rompimentos (às vezes por vontade própria, às vezes não). Especialmente profissionais, porque o livro fala pouco de seus relacionamentos amorosos (mesmo com a esposa de longa data, Sue Miller).

Um episódio agridoce é quando Farrar confronta Tweedy após dizer que o Uncle Tupelo havia acabado. Em quase 10 anos de carreira eles tinham lançado quatro discos e estabelecido as pedras fundamentais do que se convencionou chamar alt-country, mas o relacionamento entre os dois aos poucos se deteriorava.

Farrar ligou para o empresário Tony Margherita (que depois seguiu com o Wilco) e disse que a banda já era. No dia seguinte, no apartamento que dividia com Farrar, Tweedy perguntou:

‘Me diga na minha cara… Por que você me odeia?’

Farrar esquadrinhou a pessoa com quem ele tinha tocado em bandas por doze anos. ‘Você não sabe o que é ficar no palco todas as noites ao lado de alguém que se ama tanto quanto você’.

Tweedy ficou surpreso. ‘Você está certo, eu não faço nem ideia’.

O outro Jay que entrou na vida de Tweedy era também um talento extraordinário – e talvez uma pessoa ainda mais difícil de se relacionar. Jay Bennet ajudou o Wilco a sair da zona de conforto em todos os álbuns entre Being There (1996) e Yankee Hotel Foxtrot (2002), formando com Tweedy uma parceria musical que rendeu as viagens sonoras de Misunderstood e Sunken Treasure, as várias camadas das canções maravilhosas de Summerteeth, e boa parte das composições de YHF. O rompimento, porém, veio com uma frase de Tweedy após o lançamento desse álbum: “um círculo só pode ter um centro”.

Bennet morreu em 2009 com uma overdose acidental de analgésicos.

Kot entrevistou todas as pessoas próximas ao centro do círculo – inclusive o próprio Tweedy – e oferece informações interessantes sobre o processo criativo da banda. Vale a pena esperar pela entrega em alguma loja online por aí.

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