Livros em Revista: Seminário fez a rara discussão da crítica literária não acadêmica no Brasil
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Livros em Revista: Seminário fez a rara discussão da crítica literária não acadêmica no Brasil

Evento em São Paulo reuniu críticos, editores e leitores para diagnosticar o estado das publicações literárias no País e debater os caminhos da discussão sobre livros nos jornais

Guilherme Sobota

01 Dezembro 2017 | 12h22

A discussão sobre a crítica literária não acadêmica — e as publicações que a abrigam — quase sempre fica de fora dos eventos de literatura no Brasil. Isso ficou evidente nos dois últimos dias quando o seminário Livros em Revista, da Quatro Cinco Um e do Sesc, colocou o debate em primeiro plano.

O evento reuniu críticos e editores de veículos de Brasil, Argentina, Portugal e França, justamente para discutir os aspectos que circundam a produção crítica sobre livros no mundo contemporâneo.

Na abertura do evento, na quarta-feira, 29, a editora Barbara Bulhosa (Tinta da China) anunciou oficialmente o lançamento da Granta Portugal Brasil, em maio de 2018.

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É importante ressaltar que o caráter “não acadêmico” do seminário passa longe de querer dizer anti-intelectual ou avesso aos estudos acadêmicos. Pelo contrário.

Alejandro Chacoff, Pedro Mexia, Paulo Werneck e Sébastien Lapaque. Foto: Loiro Cunha/451

Vamos às mesas.

O escritor e crítico português Pedro Mexia, que participou do debate que encerrou o evento, na noite de quinta-feira, 30, avaliou que a crítica tem uma influência de nicho em algumas áreas, “e assim pode-se ter algum papel”, e que um dos principais indicadores disso é muito simples: editoras mandam, aos montes e todos os dias, livros para as redações de jornais, revistas e suplementos.

“Mesmo que os jornais queiram acabar com ela (a crítica cultural), ainda não deram esse passo”, cutucou – ele mesmo escreve atualmente para o Expresso.

Seu tom, porém, foi o de modéstia. “A crítica é absolutamente irrelevante para o romance”, disse.

Ele dividiu a mesa com o crítico francês Sébastien Lapaque, escritor e crítico literário francês (Le Figaro) — na condição de não falante de francês, tenho que dizer que a tradução simultânea (tarefa dificílima, diga-se de passagem) ficou devendo dessa vez. Mas mesmo assim foi possível captar as ideias gerais do escritor, e sentir uma ponta de inveja do desprendimento com que ele falou sobre a liberdade intelectual no seu país.

Lapaque foi colaborador do Estadão por um tempo, escrevendo no Paladar, olha só.

Ele reconheceu que a tarefa do crítico literário passa muito mais por situar uma obra e um autor em perspectiva com a sua geração (ou com as anteriores), do que, por exemplo, dar estrelas ou notas para livros. “É estúpido”, disse sobre a prática.

Também participou da mesa o crítico brasileiro Alejandro Chacoff, da piauí. Ele destacou a fragilidade da decisão de ler um livro — etapa fundamental para qualquer jornalista ou crítico que escreva sobre isso. “É um processo precário e caótico”: atesto e dou fé.

“Um texto programático tende a ser um fracasso”, disse sobre seu processo de trabalho. “Tendo a começar com certo instinto que se molda às questões políticas e atuais.”

Ele também abordou a questão sempre presente de as publicações priorizarem muito os lançamentos do mercado editorial. “É difícil falar sobre livros. Existe uma ansiedade de articular coisas que te impactaram. Um dos grandes problemas com os lançamentos é que esse ímpeto não vem.”

Mexia, o português autor de Queria Mais É Que Chovesse (lançado aqui pela ótima Tinta da China), também lembrou que é falsa a “ideia de que sempre temos (os críticos) razões manifestas para expôr”. Mas concedeu: “se cavar um bocadinho do nosso juízo, podemos chegar lá”.

Ele se disse também aliviado por viver em uma época em que a crítica já não “acaba” com a carreira de um autor, como poderia acontecer no passado (ele cita o teatro como maior exemplo). “Quem lê as críticas literárias? Certamente os editores da obra e, claro, os autores”, riu.

Cada um, ao final da mesa, indicou um livro ou autor. Lapaque falou sobre Kamel Daoud, escritor argelino que escreveu o excelente O Caso Mersault (Biblioteca Azul), em que narra a perspectiva árabe de O Estrangeiro de Camus; Mexia elogiou com entusiasmo o trabalho de Agustina Bessa-Luís, que começou a ser publicada este ano por aqui; e Chacoff falou sobre a romancista Rachel Cusk (um livro aqui pela Companhia das Letras, de 2011) e o escritor argentino Pablo Katchadjian, ainda sem edições por aqui.

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Mais cedo, o escritor e crítico argentino Damián Tabarovsky, que escreve no suplemento cultural do jornal Perfil, também atacou a questão da relação entre crítica literária e mercado editorial. “Parece a resenha a última etapa da divulgação de um livro”, disse o autor do ensaio Literatura de Esquerda, publicado aqui este ano pela Relicário.

Para ele, é um fenômeno global que os suplementos culturais que abrigam a crítica não tenham uma linha editorial característica. “Não existe nenhuma linha que não seja a do mercado”, lamentou — ele propôs ser possível construir linhas editoriais e novas tradições — por que não?

Tabarovsky também é editor de livros (sua editora é a Mardulce), e ocupou o cargo de editor do suplemento onde agora é colunista. “O editor (jornalístico) costuma pensar que o leitor é um idiota. Isso não é verdade, deveríamos pensar que o leitor é uma pessoa cultura e interessante”, disse.

Ele mencionou também sua tática de Cavalo de Troia: usar o sistema estabelecido (de mercado, dentro dos jornais) para plantar ideias e reflexões diferentes.

Damián Tabarovsky e a jornalista Francesca Angiolillo (e). Foto: Loiro Cunha/451

Sobre o mercado editorial em si, ele lembrou que na Argentina atualmente existe uma concentração gigante de dois grupos (Random House e Planeta), que, segundo Tabarovsky, detêm 50% do mercado.  “Talvez possamos (editoras menores) inovar na distribuição, circulação e divulgação tanto quanto fizemos isso nos nossos catálogos”, sugeriu.

O argentino dividiu a mesa com Paulo Roberto Pires, escritor e editor da serrote. “O marasmo continua sendo o problema do não debate da crítica brasileira”, lamentou. Para ele, de tempos em tempos é preciso “sacudir o balaio”, e agora isso pode ser feito em vários lugares, já que os “jornais já não têm importância absoluta sobre outros meios”.

Citando Elizabeth Hardwick, ele disse que no Brasil se perdeu o “drama da opinião”. Para ele, o caminho não está nem no sensacionalismo, nem nos ataques pessoais, nem na gentileza contínua. “Sim, vamos gastar espaço para falar mal”, propôs.

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A abertura do seminário, na quarta-feira, 29, reuniu editores de várias publicações culturais de diferentes estilos e plataformas (entre essas, pelo menos, consigo ver linhas editoriais mais bem definidas). Houve uma unanimidade absoluta: a distribuição no Brasil é terrivelmente precária.

Bem.

Schneider Carpeggiani falou sobre o Suplemento Pernambuco, que especialmente nos últimos três anos virou protagonista nos debates e discussões sobre literatura no Brasil. Bancado pelo governo do estado, o jornal tem a especificidade de não depender exclusivamente de anunciantes ou assinantes, e mesmo assim guarda “total liberdade editorial”, segundo o jornalista.

“Quando penso no Suplemento, penso em fazer jornalismo, ou seja: uma investigação constante do presente”, disse. “Quais são as escolhas ou por que colocamos certos autores, são sempre escolhas políticas”, e a verdade é que não tem como fugir muito disso.

Ele disse considerar o momento atual interessante por conta da “iniciação de discussões”. “Isso é muito bom e a literatura tem papel fundamental na batalha”, disse, sobre, por exemplo, encontrar vozes literárias interessantes entre minorias ou entre pessoas em situação vulnerável.

“Levamos porrada da direita e da esquerda”, vaticinou, numa verdade sobre qualquer veículo de imprensa atualmente.

Barbara Bulhosa, Daisy Bregantini, Rogério Pereira, Schneider Carpeggiani, Mirna Queiroz e Rita Palmeira. Foto: Carol Quintanilha/451

Rogério Pereira, editor do Rascunho (que ano que vem completa a maioridade), rejeitou os títulos de “heróico e resistente”, mas reconheceu que o esforço de manter um jornal literário no Brasil pode passar por uma ideia de generosidade. “Eu miro no menino que entra na Biblioteca, pega o jornal e leva para a sua casa onde não tem nenhum livro”, disse.

Segundo o jornalista, que também é diretor da Biblioteca Pública do Paraná, o Rascunho tem entre 30 e 40 mil leitores por mês, e se mantém a partir de um tripé (publicidade, “que é pouca”; projetos; e 3 mil assinantes).

“São os colaboradores que mantêm o projeto”, reconheceu ainda — o jornal, que abriga todo mês cerca de 50 pensadores de todo o Brasil, “de Affonso Romano de Sant’Anna ao estudante de jornalismo da USP”, não paga pelos textos. Porque a conta não fecharia.

Pereira mencionou a pretensão de traçar um panorama da literatura brasileira, e assim buscar autores novos, e ressaltou que tenta também encontrar a pluralidade de representações, embora se sinta “anacrônico” em não demonstrar no jornal preocupações com questões políticas ou de gênero, por exemplo.

Daisy Bregantini, que mantém a revista Cult no azul há 20 anos, ressaltou a necessidade de encarar o jornalismo cultural como uma atividade profissional como qualquer outra. “Não devemos simplesmente aceitar o fato de que somos todos precários”, disse.

“Vivo da venda em bancas, os anunciantes pagam muito pouco”, explicou. Ela comemorou o fato de ter conseguido renovar os leitores, e sugeriu que isso ocorreu pelo fato de a revista tratar de questões muito contemporâneas, como por exemplo a filosofia feminista.

Mirna Queiroz, da revista Pessoa, disse que criou a publicação em 2010 por sentir falta de um diálogo maior com autores de língua portuguesa fora do Brasil. Agora em versão digital, a revista cumpre esse papel com elegância, além de ter introduzido no País o sistema de micro pagamentos, no qual o leitor pode pagar por artigos individuais no site, a R$0,99.

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A história da crítica literária nos jornais e o debate da questão impressionista x crítica acadêmica estão no livro Critica Literaria – Em Busca Do Tempo Perdido?, de João Cezar de Castro Rocha (Argos). Recomendo com entusiasmo.

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