A assombrosa ficção científica de Ted Chiang, o homem que imaginou ‘A Chegada’
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A assombrosa ficção científica de Ted Chiang, o homem que imaginou ‘A Chegada’

Guilherme Sobota

16 Março 2017 | 16h11

Os primeiros parágrafos de História da Sua Vida, noveleta de Ted Chiang, 49 anos, falam de duas chegadas: a de uma bebê (“eu me lembro que você, aos doze anos, vai insinuar certa hipótese sobre sua origem”) e a de naves e artefatos (“o governo não disse quase nada sobre eles, enquanto os tabloides disseram quase todas as coisas possíveis”).

As naves carregam os heptápodes, que chegam sem aviso e sem hostilidades – Louise, a narradora, linguista, é chamada para decifrar o que eles falam, e, depois, escrevem. Esse é um eixo da narrativa. O outro é o que ela conversa (ou imagina que conversa) com a filha, carregado de frases numa sintaxe muito louca que mistura memória, o tempo todo, e pretérito, presente e futuro: (1) ” lembro-me de uma vez que iremos de carro…” (2) “eu me lembro de quando você tiver quinze anos…” e especialmente (3) “Eu me lembro de como vai ser ver você…”.

Se você já viu A Chegada, o filme de Denis Villeneuve com Amy Adams, você sabe por que isso acontece: mas eu ainda me lembro de como seria ler esse conto sem saber, e em constatar que sua construção, a construção literária do escritor norte-americano filho de refugiados da China comunista, é mais sofisticada do que a do cineasta.

Porque em História da Sua Vida e Outros Contos, que Intrínseca lançou por aqui no fim do ano passado, Chiang extrapola as definições básicas de ficção científica ao explorar artifícios para tratar de temas fundamentais, como memória, amor, espiritualidade e estética, mas principalmente ética.

Ted Chiang. Foto: Penguin Random House

Ted Chiang. Foto: Penguin Random House

Ele brinca com: história judaica, teoria da matemática, reposição neural, superinteligências, linguística, golem, teologia e uma práxis da estética. Eu não vou contar o enredo dos outros contos porque uma parte da graça – aliada ao estilo conciso e direto, deliciosamente em contraste com a complexidade das premissas -, é justamente descobrir como cada mundo funciona dentro dos contos.

Chiang é formado em ciência da computação, e escreve profissionalmente redação técnica de informática. Sua dedicação equilibrada e “lenta” à literatura de ficção já lhe rendeu vários dos principais prêmios de ficção científica do mundo. O que salta aos olhos é a pulsão humanista que vibra das páginas de seus escritos.

Entrevistado relutante, por conta do filme indicado ao Oscar ele recebeu assédio da imprensa global, foi tema de escritos em todo lugar, e conversou algumas vezes com a The New Yorker.

“Eu realmente quero que exista um fundo de sentimento humano no meu trabalho, mas esse não é meu objetivo principal como escritor”, Chiang disse à revista. “Meu objetivo primário tem a ver com se envolver em questões filosóficas e experimentos pensados, tentando esgotar as consequências de certas ideias.” O que também faz todo sentido.

Ele seguiu arriscando teorias sobre o próprio trabalho, provocado pelo repórter da New Yorker: as histórias seriam uma tentativa de resistir “à identificação do materialismo com o niilismo”.

Sobre História da Sua Vida – a obra-prima no meio de textos excelentes – ele comenta que sempre foi fascinado por princípios variacionais da física, e no caso quis relacioná-los à possível reação de uma pessoa ao inevitável – diz, numa seção de notas no fim do livro. E empresta palavras de Kurt Vonnegut, de 1994, para resumir seu tema central nessa história:

“Stephen Hawking […] achou curioso que nós não conseguíssemos nos lembrar do futuro. Mas lembrar o futuro é agora, para mim, brincadeira de criança. Sei o que vai acontecer com meus bebês indefesos e ingênuos porque eles agora estão crescidos. Sei como vai ser o fim de meus amigos mais próximos porque muitos deles, agora, estão aposentados ou mortos… Para Stephen Hawking e todos os outros mais jovens que eu, digo: ‘Sejam pacientes. Seu futuro vai chegar e se deitar aos seus pés como um cachorro que o conhece e o ama, independentemente de quem seja você.'”