Meus 35 discos preferidos de 2017
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Meus 35 discos preferidos de 2017

Uma lista pessoal com álbuns lançados dentro e fora do Brasil neste ano

Guilherme Sobota

20 Dezembro 2017 | 17h39

O Estadão ainda deve lançar uma lista oficial até o fim do ano, mas vou aqui listar os meus discos preferidos de 2017. Foram os que mais ouvi, e os que acho que tem alguma relevância, seja lá o que isso queira dizer quando o assunto é música popular (e no ano em que Anitta reinou). Separados entre nacionais e internacionais, em ordem crescente, do 10 ao 1 entre os nacionais, do 25 ao 1 nos internacionais.

NACIONAIS

10 — Kafé – Kafé / Do Caos ao Nirvana – Cynthia Luz

Vou dividir essa posição entre dois discos nacionais puxados para o R&B porque Do Caos Ao Nirvana saiu na semana passada (é pouco tempo para realmente classificar). Mas nesse tempo não saiu dos fones de ouvido e tem elementos sólidos de diva pop. Bela estreia. Kafé também é o primeiro do artista baiano. É irresistível. Não ouvi nada parecido nadando em águas brasileiras este ano.

9 — Heresia – Djonga

Tem gente que reclama do flow do rapper mineiro, mas para mim é isso que brilha nesse disco: gritos urgentes que pagam tributo para muitos dos grandes da música brasileira. “Bala nos inimigo, bala nos invejoso / Dinheiro pros amigos e muito ouro, muito ouro / Hoje somos riso, amanhã seremos choro”. Preferidas: Corre das Notas, Esquimó, Fantasma.

8 — Todas as Bandeiras – Maglore

O Maglore passeia com muita facilidade pelo ambiente indie e pela sonoridade mainstream, com um disco que parece militante para o ouvinte desavisado, mas revela uma história de amor e desilusão, que no fim é o que sobra para todo mundo. Preferidas: Aquela Força, Clonazepam 2mg, Hoje Eu Vou Sair.

7 — Galanga Livre – Rincon Sapiência

Já com uma estrada de muito respeito, Rincon lançou o que diz ser seu primeiro disco em 2017 e colocou para tocar algumas das músicas que mais sobreviveram a 2017, tratando de temas sempre importantes no ambiente urbano brasileiro: racismo, afirmação da negritude, violência e amor. Preferidas: Crime Bárbaro, A Volta para Casa, Moça Namoradeira, A Noite É Nossa, Ostentação à Pobreza, Ponta de Lança.

6 — Cortes Curtos – Kiko Dinucci

O guitarrista do Metá Metá fez o disco de rock mais brasileiro de 2017: quando passamos pela narrativa punk e pelos efeitos densos da guitarra, é possível ouvir lá no fundo ecos do samba paulistano mais tradicional, do qual Dinucci é grande conhecedor. Belo disco. Preferidas: No Escuro, Uma Hora da Manhã, No Vazio da Morte, A Gente se Fode Bem Pra Caramba.

5 — Pé no Chão – Rodrigo Ogi

Rodrigo Ogi é um dos melhores flows em atividade no Brasil, e esse EP de 7 canções é inteiro bom, do começo ao fim, e nele vemos o rapper desenvolver sua imagem urbana há tempos estabelecida e passar a tratar do amor paterno que amolece mesmo os mais durões. A produção de Nave é sofisticada e não deve em nada para os padrões internacionais mais altos. Preferidas: Anjo Caído, Redenção, Insomnia Pt. 2.

4 — Roteiro Pra Aïnouz, Vol. 3 – Don L

Don L se mostra um mestre de rima, punchlines e criatividade. O disco é um pontada afiadíssima no status quo da música nacional, mas também impressiona pela produção que passeia do orquestral ao minimalista com facilidade. “Posando com seu skank em snaps / Porque maconha é muito gangsta, né?”. Pow! Preferidas: Eu Não te Amo, Fazia Sentido, Mexe pra Cam.

3 — Eletrocardiograma – Flora Matos

O disco de amor do rap nacional, Flora Matos domina o storytelling, as rimas e a produção dessa maravilha que mistura trap, muito soul e ritmos brasileiros para dar um recado muito claro: “E seja na favela ou nos prédio eu tô em casa / Faço rap bem feito que é pra não me faltar nada / Eu vou ficar milionária, milionária / Sem nunca depender de um homem pra ter minhas parada”. As preferidas: Perdendo o Juízo, Parando as Horas, Bora Dançar, Preta de Quebrada.

2 — Regina – Nill

Nill é o herói do rap paulista em 2017: produziu sozinho a maior parte do disco e compôs as faixas desse álbum que, nas palavras dele mesmo, é um convite para chegar na sua casa e se sentir à vontade. Empatia, o sentimento que mais falta no mundo em qualquer lugar em qualquer tempo, é a palavra que define Regina. Ainda vem muita coisa boa da Soundfood Gang. As preferidas: Wifi, Minha Mulher Acha Que Eu Sou o Brad Pitt, Jovens Telas Trincadas, Loopers, Atari Level 2.

1 — Esú – Baco Exu do Blues

“Baco, cadê o ano lírico?” Tá aqui! 21 anos foi o que precisou Diogo Moncorvo, baiano de Salvador, para entregar o disco do ano no Brasil. Não tem uma linha aqui que caia no lugar comum fácil, a produção viaja pela música brasileira (o que são esses samples, Nansy Silvvs) ao passar por um trap genuinamente nacional, coisa super rara. As preferidas: Abre Caminho, En Tu Mira, Esú, Te Amo Disgraça, Imortais e Fatais.

Meu top 9 nacional. Veja abaixo os internacionais

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INTERNACIONAIS

25 — Swear I’m Good at This – Diet Cig

O duo guitarra/bateria que funcionou em 2018: rockinho inofensivo, mas acelerado, criativo e engraçado. Coisa de jovem, mas aposto que um show desses dois deve ser bem legal. Ouça: Sixteen, Maid of the Mist.

24 — On Hold – The xx

Já faz quase um ano inteiro que esse disco saiu e quem ouviu e gostou (como eu) ainda lembra de várias músicas: rock eletrônico feito por um dos grandes produtores do nosso tempo e entrega vocal vigorosa de Romy Croft. Showzaço também. Ouça: Performance, On Hold.

23 — TLC – TLC

Um dos maiores grupos de R&B da música pop volta em 2017 com um álbum financiado coletivamente. A produção extravagante tem um gostinho de passado, o que no caso não é negativo. Para dançar. Ouça: It’s Sunny, Joy Ride.

22 — Antisocialites – Alvvays

Indie pop para dançar, também. Porque originalidade nem sempre é o fator crucial de um disco. Ouça: Dream Tonite, Lollipop (Ode to Jim).

21 — MASSEDUCTION – St. Vincent

O aguardado próximo passo da carreira da cantora e compositora americana tem altos e baixos, mas deixa uma impressão no ouvinte, que em mim permanece esfumaçada, mas ainda forte, certamente. Ouça: Los Ageless.

20 — Iceberg – Oddisee

Não sou o maior fã do dance hip hop, mas para mim esse é o disco do ano no subgênero (o do Vince Staples não cresceu em mim). Com influências claras de soul e gospel, ele começou como produtor e hoje também é um rapper respeitado nos EUA. Ouça: Like Really, Digging Deep.

19 — City Music – Kevin Morby

O jovem cantor e compositor do Texas havia estabelecido um padrão alto com Still Life (2014) e Singing Saw (2016), e em 2017 ele continua sua carreira com os sons mais urbanos de City Music. Indie folk em alto nível. Ouça: City Music, Come To Me Now.

18 — Know Unknowns – billy woods

Isso aqui é a coisa mais estranha que eu ouvi em 2017 quando o assunto é hip hop (isso pode sim se referir ao fato de que eu não entendo de música, mas isso é outro assunto). São 18 faixas, 55 minutos e bem, boa sorte quando tentar descobrir DO QUE o rapper de NYC está falando. Art pop em pleno século 21. Ouça: Strawman, Gazpacho.

17 — A Crow Looked at Me – Mount Eerie

Esse disco não é bem um disco, mas sim um conjunto de faixas estranhas feitas e cantadas por um homem que muito claramente está passando por um momento muito difícil na vida, a morte da mulher. Ouvir o disco é uma experiência dolorosa, mas muito marcante. Ouça: Real Death.

16 — Capacity – Big Thief

Indiezinho folk bonito que se destaca tanto pela voz de cortar o coração da vocalista Adrianne Lenker. Intimidade familiar e histórias que fazem lembrar a grande Joni Mitchell. Pretty Things é coisa linda demais. Ouça: Pretty Things, Objects.

15 — American Teen – Khalid

Tem vários artistas muito jovens nessa lista, e Khalid é um dos mais novos. Hit indie nos EUA, o disco mistura soul, rock e pop com letras criativas sobre esse fato maravilhoso da vida que é ser muito jovem. Ouça: American Teen, Location.

14 — Laila’s Wisdom – Rapsody

Segundo disco da rapper da Carolina do Norte traz jogos de palavras e flow impressionantes, que lembram o Jay-Z antigo, e lhe renderam uma indicação ao Grammy. Participações nada modestas e sempre muito boas também: Kendrick Lamar, Anderson Paak, Busta Rhymes e vários outros. Ouça: Power, Nobody.

13 — All-Amerikkkan Bada$$ – Joey Bada$$

O disco de rap que esperávamos em 2017: o que é ser americano, jovem, negro na América de Donald Trump? Joey Bada$$ parece ter ido mais longe para tentar responder essa questão. Ouça: LAND OF THE FREE, ROCKABYE BABY, LEGENDARY.

12 — Flower Boy – Tyler, The Creator

Eu preciso confessar que esse disco não me pegou como aparentemente pegou todo mundo, mas também não estou colocando ele aqui pelo hype. Tyler constrói como ninguém a wall of sound do rap contemporâneo (eu entendi melhor o álbum quando ouvi, num volume muito alto, Who Dat Boy numa festa). Ouça: I Ain’t Got Time, 911 / Mr. Lonely.

11 — Process – Sampha

2016 foi o ano do “neo-soul” (Frank Ocean, Childish Gambino, Michael Kiwanuka) e um dos primeiros álbuns lançados em 2017 foi justamente Process, do cantor e produtor inglês Sampha, que já havia trabalhado com Kanye West, Solange e Drake, e agora se aventura num belo projeto solo. Ouça: Blood on Me.

10 — 508-507-2209 – Joyner Lucas

Joyner Lucas começou a fazer mais barulho agora no fim do ano com I’m Not Racist e o remix de Gucci Gang, mas esse disco do primeiro semestre é, na minha opinião, a parada mais subestimada de 2017. Porrada atrás de porrada, flow incrível, rimas sensacionais, storytelling sólido, transições suaves, temas relevantes, urgentes e delicados. Ouça: FYM, Keep It 100, Lullaby.

9 — Goths – The Mountain Goats

Não vi esse disco em nenhuma lista de fim de ano na gringa, o que considero uma baita injustiça. Numa época de góticos suaves, John Darnielle escreve um álbum sobre bandas góticas, mas que no fim é sobre envelhecimento e morte. Insights engraçados e um humor particular, o disco não tem guitarras, embora seja o violão que sempre tenha marcado a trajetória da banda. Ouça: Andrew Eldritch Is Moving Back to Leeds, We Do It Different on the West Coast.

8 — 4:44 – Jay-Z

Esse disco é muito grande. É raro ver um rapper “velho” (e bilionário) conseguir entregar um produto artístico tão refinado e sofisticado. Rimas incríveis, produção minimalista, participações fundamentais, Jay-Z aqui é o homem por trás da máscara. Uma beleza. Ouça: Kill Jay-Z, The Story of OJ, 4.44, Bam, Moonlight.

7 — 4eva Is a Mighty Long Time – BIG K.R.I.T.

Em 2010, Krit era colocado no mesmo time de Kendrick, J. Cole e Drake, mas obviamente ainda não alcançou o mesmo sucesso. Em 2017, ele traz seu terceiro disco de estúdio cuspindo rimas sinceras na primeira parte e fazendo um soul puro século 21 na segunda. Não é fácil fazer um disco duplo, mas um disco duplo bom desse calibre? Ouça: Layup, Ride With Me1999, Miss Georgia Fornia, Mixed Messages.

6 — Pure Comedy – Father John Misty

Esse disco é tão zeitgeist (e talvez eu esteja usando essa palavra do jeito errado) que chega a ser irritante: como tudo na persona absolutamente intragável que Josh Tillman criou para si. Mas ele diz coisas de um jeito criativo e engraçado sobre um fundo musical muito bonito. O que mais podemos esperar de um disco, minha gente? Ouça: Pure Comedy, Total Entertainment Forever e, se tiver coragem, Leaving LA.

5 — DAMN. – Kendrick Lamar

To Pimp a Butterfly foi uma obra-prima de tão alto nível que a expectativa para a álbum seguinte de Kendrick Lamar seria insuportável para qualquer outro artista. Ele entregou um disco mais sombrio, com letras inspiradas, ainda mais consciente do seu próprio lugar — o maior rapper vivo. Ouça: DNA, LOVE, HUMBLE.

4 — Brick Body Kids Still Daydream – Open Mike Eagle

Estrela do hip hop underground, o rapper (que também é comediante) tem um senso de humor sempre presente, um tipo de ritmo descontraído e casual e um flow que parece muito fácil, o que claramente não é. O grande destaque do disco porém é a história: o disco se faz ao redor do projeto Robert Taylor Homes, moradia social em Chicago, que foi demolido. Isso aqui é arte num nível muito alto. Ouça: (How Could Anybody) Feel at Home, Brick Body Complex.

3 — La Síntesis O’Konor – Él Mató a un Policía Motorizado

O indie argentino brilha em Buenos Aires — Las Ligas Menores, Bestia Bebé e especialmente Él Mató vem lançando trabalhos muito bons nos últimos anos. Esse é o primeiro disco completo da banda desde 2012, eles seguem numa região parecida (letras lindas sobre relacionamentos em geral fracassados, mas agora um pouco mais concentradas em si mesmo) e expandem a sonoridade indie para um rock ainda mais cristalino. Ouça: tudo, é rápido e coerente.

2 — A Deeper Understanding – The War On Drugs

O disco é uma evolução de tudo que a banda fez até agora: misturar o indie derivado de Sonic Youth e companhia com o rock folk clássico de Bob Dylan e Bruce Springsteen. Aqui Adam Granduciel tem a voz mais pronunciada, com mais destaque do que nos outros discos, o que torna as músicas mais acessíveis. O War on Drugs carrega a tocha do dream indie cheio de reverb, mas ironicamente o que faz a banda tão diferente é justamente essa referência tão forte no passado. Ouça: Holding On, Pain, Up All Night, Thinking of a Place.

1 — BROCKHAMPTON

Os três Saturation (acumulados e considerados aqui parte do mesmo projeto, o que é altamente discutível). É a revelação do ano. Coletivo de rappers fazendo um hip hop diferente de tudo que apareceu nos últimos anos. Zeitgeist puro, produção criativa e sem exageros, letras que variam entre brilhantes e muito boas. A dinâmica de funcionamento do grupo, que vai além da música e invade o ambiente virtual, é apaixonante, bem como os diversos vídeos que eles lançaram ao longo do ano. 2017 vai ser lembrado como a “Saturation Era”. Por curiosidade, para mim é 1 > 3 > 2. Ouça: HEAT, GOLD, STAR, BUMP, SWAMP, ZIPPER, BLEACH, ALASKA, JOHNNY.

Meu top 9 internacional

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Lá no Spotify tem uma pasta com playlists com tudo isso, separados pelo mês em que eu ouvi.

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To no Twitter: @guilhermesobota.

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Aqui tem os podcasts que gravamos sobre os melhores deste 2017:

+ Refrão Estadão #23 — Melhores Discos de 2017: Rap Nacional

+ Refrão Estadão #22 — Melhores Discos de 2017: Rock e Pop Nacional

+ Refrão Estadão #21 — Melhores Discos de 2017: Hip Hop Internacional

+ Refrão Estadão #20 — Melhores Discos de 2017: Rock e Pop Internacional

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Aqui a lista de livros, da qual também participei.

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O blog volta em 2018. Até lá!

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