Waly Salomão em SP: Lançamento de ‘Poesia Total’ terá Bruna Beber, Marcelino Freire e outros
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Waly Salomão em SP: Lançamento de ‘Poesia Total’ terá Bruna Beber, Marcelino Freire e outros

Maria Fernanda Rodrigues

29 de maio de 2014 | 16h32

Poesia Total, volume que reúne todos os livros de Waly Salomão e algumas de suas canções, será lançado em São Paulo no sábado, dia 31. Estão programadas leituras de poemas e foram convidados Bruna Beber, Marcelino Freire, Fabiana Cozza e Elias Andreatto, entre outros. Será às 17h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2.073).

Fiz uma matéria para o Caderno 2 de sábado passado (leia aqui) – o livro foi lançado no Rio na segunda-feira. Conversei com Omar, filho de Waly e poeta como o pai, com Antonio Cicero, amigo de longa data, e com dois poetas na nova geração que foram influenciados pelo, como disse a Mariana Ianelli na resenha que ela escreveu para o Estadão, happening-ambulante: Ramon Mello e Bruna Beber.

Uma amostra do que tem no livro:

POESIA

Barroco
Mundo e ego: palcos geminados.
Quero crer que creio
E finjo que creio
Que o mundo e ego
Ambos
São teatros
Díspares
E antípodas.
Absolutos que se refratam/difratam…
Espelhos estilhaçados que não se colam.
Entanto são
Ecos de ecos que se interpenetram
Partículas de ecos ocos, partículas, partículas de ecos plenos que se conectam
Aí cosmos são cagados, cuspidos e escarrados pelo opíparo caos
E o uso do adjetivo está correto
Pois que o caos é um banquete.
Fantasmas de óperas.
Ratos de coxias.
Atos truncados.
Há uma lasca de palco
em cada gota de sangue
em cada punhado de terra
de todo e qualquer poema.

Sargaços
(para Maria Bethânia)
Criar é não se adequar à vida como ela é,
Nem tampouco se grudar às lembranças pretéritas
Que não sobrenadam mais.
Nem ancorar à beira-cais estagnado,
Nem malhar a batida bigorna à beira-mágoa.

Nascer não é antes, não é ficar a ver navios,
Nascer é depois, é nadar após se afundar e se afogar.
Braçadas e mais braçadas até perder o fôlego
(Sargaços ofegam o peito opresso),
Bombear gás do tanque de reserva localizado em algum ponto
Do corpo
E não parar de nadar,
Nem que se morra na praia antes de alcançar o mar.

Plasmar
bancos de areias, recifes de corais, ilhas, arquipélagos, baías,
espumas e salitres,
ondas e maresias.

Mar de sargaços

Nadar, nadar, nadar e inventar a viagem, o mapa,
o astrolábio de sete faces,
O zumbido dos ventos em redemoinho, o leme, as velas, as cordas,
Os ferros, o júbilo e o luto.
Encasquetar-se na captura da canção que inventa Orfeu
Ou daquela outra que conduz ao mar absoluto.

Só e outros poemas
Soledades
Solitude, récif, étoile.

Através dos anéis escancarados pelos velhos horizontes
Parir,
desvelar,
desocultar novos horizontes.
Mamar o leite primevo, o colostro, da Via Láctea.
E, mormente,
remar contra a maré numa canoa furada
Somente
para martelar um padrão estóico-tresloucado
De desaceitar o naufrágio.
Criar é se desacostumar do fado fixo
E ser arbitrário.

Sendo os remos imateriais

(Remos figurados no ar pelos
círculos das palavras.)

Música

De Volta Para o Futuro
Em matéria de previsão eu deixo furo
Futuro, eu juro, é dimensão
Não consigo ver
Nem sequer rever
Isto porque, no lusco-fusco
Ora pitomba,
Minha bola de cristal fica fosca
Mando bola no escuro
Acerto o tiro na boca da mosca
Ouras tantas giro a Terra toda às tontas
Dobro o cabo das tormentas, rebatizo Boa Esperança
E vou pegando pelo rabo a lebre de vidro,
Do acaso por acaso
Em matéria de previsão só deixo furo
Futuro, eu juro, é dimensão
Vejo bem no claro
E tão mal no escuro
Minha vida afinal navega tal e qual
Caravela de Cabral
Um marinheiro mete a cara na janela e grita
Sinal de terra, terra à vista
Tanto faz, Brasil ou Índia Ocidental, Oriental
Ó sina, começa sempre a dança
Recomeça, sempre recomeça a dança da sinuca
Sempre recomeça a dança a mesma dança da sinuca vital

Assaltaram a Gramática
Assaltaram a gramática
Assassinaram a lógica
meteram poesia
na bagunça do dia a dia
Sequestraram a fonética
Violentaram a métrica
Meteram poesia
onde devia e não devia
Lá vem o poeta
com sua coroa de louro,
Agrião, pimentão, boldo
O poeta é a pimenta do planeta
(Malagueta!)

Vapor barato
Oh, sim, eu estou tão cansado
Mas não pra dizer
Que eu não acredito mais em você
Com minhas calças vermelhas
Meu casaco de general
Cheio de anéis
Vou descendo por todas as ruas
E vou tomar aquele velho navio
Eu não preciso de muito dinheiro
Graças a Deus
E não me importa, honey

Minha honey baby
Baby, honey baby
Oh, minha honey baby
Baby, honey baby

Oh, sim, eu estou tão cansado
Mas não pra dizer
Que eu tô indo embora
Talvez eu volte
Um dia eu volto
Mas eu quero esquecê-la, eu preciso
Oh, minha grande
Ah, minha pequena
Oh, minha grande obsessão

Oh, minha honey baby
Baby, honey baby
Oh, minha honey baby
Honey baby, honey baby

A música na voz de Jards Macalé, parceiro de Waly:

Mel
Ó abelha rainha faz de mim
Um instrumento de teu prazer
Sim, e de tua glória
Pois se é noite de completa escuridão
Provo do favo de teu mel
Cavo a direita claridade do céu
E agarro o sol com a mão
É meio-dia, é meia-noite, é toda hora
Lambe olhos, torce cabelos, feiticeira vamo-nos embora
É meio-dia, é meia-noite, faz zumzum na testa
Na janela, na fresta da telha
Pela escada, pela porta, pela estrada toda a fora
Anima de vida o seio da floresta
O amor empresta a praia deserta zumbe na orelha, concha do mar
Ó abelha, boca de mel, carmin, carnuda, vermelha
Ó abelha rainha faz de mim um instrumento do seu prazer

Ouça Caetano Veloso cantando Mel:

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