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“Vocês não escolheram Ruffato para fazer o discurso por acaso”, diz presidente da Feira de Frankfurt

Maria Fernanda Rodrigues

12 de outubro de 2013 | 09h25

Maria Fernanda Rodrigues
Enviada Especial – Frankfurt

O presidente da Feira do Livro de Frankfurt, Juergen Boos, contou hoje pela manha que já tinha lido livros de Luiz Ruffato antes de ouvi-lo na abertura da feira. “Vocês não escolheram Ruffato para fazer o discurso por acaso. Ele descreve muito bem a sociedade em seus livros e, no discurso, ele falou da sociedade enquanto falava sobre ele e sobre como se tornou um escritor. E esta é uma história de sucesso. Acho que foi uma ótima escolha. Esse lugar nao é para festa.

Renato Lessa, presidente da Fundacao Biblioteca Nacional, estava ao lado de Boos e de Karine Pansa, presidente da Câmara Brasileira de Letras, na coletiva de balanço desta 65ª edição da feira, que termina amanhã e que teve o Brasil como país convidado. “É uma versão do Brasil. Acho que a literatura representa, antes de tudo, a literatura. Ela nao representa a realidade porque ninguém sabe o que é realidade. Temos versões de realidade e o discurso de Ruffato é prova dessas várias formas de ver o Brasil. A literatura nao reflete a realidade, ela afeta a realidade”, disse

Além disso, comentou que o escritor destacou a resiliência brasileira no que concerne à desigualdade e violência, apesar dos recentes esforcos de minimizar esses problemas. Falou também sobre os outros dois discursos. “Ana Maria Machado nos convidou a entender o Brasil por meio da diversidade de nossa literatura e Michel Temer mencionou a importância da Constituição de 1988.” Ao fim de seu discurso, que incluiu menção a seus feitos literários e críticas a Luiz Ruffato, o vice-presidente foi vaiado por parte dos presentes

Lessa assumiu a coordenação da presença brasileira em Frankfurt em maio deste ano, quando chegou à Biblioteca Nacional. Durante os preparativos da feira, o Brasil trocou, também, três vezes de ministro da Cultura. Essas mudanças foram apontadas por Boos como um dos problemas da organização. A língua e as diferenças culturais também atrapalharam um pouco. “Mas isso acontece todos os anos e aconteceria se o país convidado fosse a Suíça.

Para vir a Frankfurt, o País deve gastar um pouco menos do que os R$ 18,9 mi calculados no início. A previsão atual está em R$ 18,46 mi, divididos entre a pavilhão brasileiro (4,9 mi), programação literária (4,4 mi), programação cultural dentro e fora da feira (R$ 5,5 mi) e o estande coletivo do Brasil (R$ 3.5 mi). Foram realizados 651 eventos relacionados ao País em Frankfurt – 226 deles organizados pelo Brasil. Nao há controle na entrada do pavilhão, mas a organização brasileira estima que passem por lá, até o fim da feira, 60 mil pessoas.

Karine Pansa, presidente da Camara Brasileira de Livros, comentou a mudança de perfil do mercado editorial brasileiro, que passou de comprador a vendedor de direitos autorais. As vendas saltaram de US$ 495 mil em 2010 para US$ 1,2 mi em 2012, um valor 143% maior, mas ainda assim pouco significativo

Renato Lessa, destacou que organizar um evento como esse nao é uma tarefa corriqueira de uma biblioteca. Mesmo assim, disse que continuará sendo o curador de outros eventos – o próximo será a Feira do Livro Infantil de Bolonha – e que continuará investindo no programa de apoio à tradução

Segundo Fábio Lima, do Centro Internacional do Livro, desde que o programa foi criado, em 1991, foram dadas 583 bolsas de tradução – a maioria delas (72%) entre 2010, quando o programa foi remodelado, e julho de 2013.
Nesse periodo mais intenso, foram traduzidos mais livros para o alemão (65), como era esperado por causa da homenagem da Feira de Frankfurt, Espanha (46), França (41), Itália (37), Argentina (33) e Romênia (25), entre outros

Outra cara. “Trouxemos um exemplo de nossa diversidade e de nossa imaginação, e um senso vívido da nossa cena contemporânea”, disse o presidente da Fundacao Biblioteca Nacional

“O Brasil destruiu a imagem que muitos tinham do País, e isso foi bom. Acho que 90% dos alemães tinham a imagem de um país colorido, com comidas maravilhosas, música, carnaval, de um lugar onde as pessoas nao trabalham porque estao fazendo festa a toda hora”, comentou Jurgen Boos, que por causa da homenagem fez inúmeras viagens ao País.

Coelho.
Claro, um jornalista alemão perguntou sobre a ausência de Paulo Coelho. “De forma alguma sua ausência é uma coisa boa. Ele é o escritor de maior sucesso no Brasil e esse seria um excelente motivo para que ele estivesse aqui. Lamento a ausência dele”, disse Renato Lessa.

“Do ponto de vista da publicidade, foi uma boa ideia não vir. Tivemos maior cobertura de imprensa e grandes discussões”, brincou Juergen Boos. “Sou amigo dele e entendo sua posição. Conversamos sobre isso nas últimas semanas. Está tudo bem. Ele estará na feira no ano que vem e vai representar a literatura brasileira, o que é perfeito.”. O mago se fez presente para além dos debates sobre os motivos de sua desistência. Na feira, há micro-ônibus que levam os visitantes de um pavilhão ao outro, e todos eles estão adesivados com a foto do escritor e capa de livros.

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