Uma conversa com Jürgen Boos, presidente da Feira do Livro de Frankfurt
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Uma conversa com Jürgen Boos, presidente da Feira do Livro de Frankfurt

Maria Fernanda Rodrigues

04 de julho de 2013 | 09h31

Brasileiros e alemães se reúnem daqui a pouco para mostrar como será a presença do Brasil na Feira do Livro de Frankfurt, em outubro. Como país convidado, teremos um pavilhão para exposição, além dos tradicionais estandes – algumas editoras participam com estandes individuais e outras estarão no espaço coletivo do Brasil.

Na terça-feira à noite, na véspera da abertura da Flip, Jürgen Boos (na foto de Felipe Rau/Estadão), presidente da Feira de Frankfurt conversou com o Estado em Paraty.

A apresentação que será feita na quinta-feira foi feita na Alemanha na semana passada. Como foi e qual era a expectativa?
Falamos para jornalistas que já cobriram outros convidados de honra e eles sempre chegam para a apresentação tendo em mente o convidado de honra do ano anterior. A Nova Zelândia fez uma apresentação muito emocional. É um país muito pequeno, que fica do outro lado do mundo, que tem uma língua que não é escrita mas é falada. Quando apresentamos a programação do Brasil na semana passada, eles viram que será algo muito diferente. As pessoas sempre esperam o Rio de Janeiro, o carnaval, Amazonas e todos esses estereótipos que são, em sua maioria, estereótipos turísticos. Mas o que Daniela Thomas apresentou foi algo muito intelectual.

Como será o pavilhão?
Há algumas instalações e no meio delas uma com bicicletas, que produzem eletricidade para uma instalação em vídeo. A exposição será feita em armários, há remanescentes do papel antigo e ao mesmo tempo há toda essa tecnologia nas instalações. Ela está brincando com as expectativas do público e gosto dessa ideia de não se apoiar em estereótipos, mas mostrar esse jovem e reflexivo Brasil. Nada do que será exposto em Frankfurt – seja na feira ou nos museus que receberão trabalhos de brasileiros – virá da imagem antiga do que é o Brasil.

E mesmo assim é possível identificar que é o Brasil que está ali?
Você sabe. Demorei um tempo para entender o conceito de Antropofagia e agora entendi: você recebe as influências de vários lugares, come, mastiga, coloca tudo em seu estômago e então há algo novo, o que é muito o Brasil. Já podíamos sentir isso na literatura, e agora vamos ver nas apresentações.

Quais eram a sua expectativa? Houve alguma surpresa ou frustração?
Foi uma espécie de surpresa para mim, sim. Você pode entender essa antropofagia na literatura, mas trazer o conceito para uma exposição é mais difícil. E Daniela conseguiu mostrar isso.

Quando convidou o Brasil para ser o país homenageado, o que você esperava dessa participação? Mais ou menos do que foi feito?
O Brasil foi o país homenageado em 1994 e foi muito difícil naquele tempo, mas era a década da América do Sul. Muitos autores apareceram naquele momento, mas parece que vieram todos da mesma escola. Eles estavam muito focados em serem escritores brasileiros narrando temas brasileiros, a política e a sociedade. Quando comecei a ler livros sobre o Brasil agora, percebi que há agora uma perspectiva muito diferente. São brasileiros que não precisam viver no Brasil, que não precisam escrever sobre temas locais e ainda assim são brasileiros. Você sente isso, e é especial.

O que senhor tem lido daqui?
Na semana passada li o Ladrões de Cadáveres, da Patrícia Melo. O livro era taxado como um thriller e eu esperava uma história de crime, mas era um livro mais reflexivo e uma mistura de tudo. O que quero dizer é que não se trata mais de um indivíduo vivendo numa sociedade política, mas de um indivíduo vivendo no mundo de hoje. Comecei lendo a Granta Melhores Jovens Autores Brasileiros, e agora tenho uma pilha de livros para ler.

Mas o senhor acha que esta foi uma mudança ocorrida aqui ou tem mais a ver com o que o editor alemão procura? Não pode ser que antes eles estivessem mais interessados em obras que refletissem a cultura e agora procurem títulos mais universais?
Os editores não tinham nenhuma expectativa. Está cada vez mais difícil conseguir ser traduzido para outras línguas porque o mercado editorial se tornou um negócio difícil. Há tantos fenômenos de autopublicação e tantos livros para ler… E é difícil identificar autores que funcionariam em outros mercados. Você tem que saber a língua, ler samples de tradução, encontrar bons tradutores literários. Portanto, é difícil. O que é importante nesse programa do convidado de honra é que alguém, neste caso o governo, está financiando essas traduções. O que quero dizer é que não há expectativa por parte dos editores porque eles não pensam em traduções. Quando pensam em editar algo, pensam logo no próximo grande sucesso. O que estamos fazendo com o Brasil é dar, aos editores, acesso a autores que podem ser traduzidos.

Então não há expectativa? Voltando aos clichês e estereótipos: eles não querem, por exemplo, publicar histórias que se passam na favela ou que reflitam uma realidade mais dura?
Esses livros também estão sendo traduzidos. Há pequenas editoras que escolhem esse tipo de livro porque há leitores para eles, gente interessada em países em desenvolvimento, em população indígenas, etc. Mas as tiragens são muito pequenas, algo em torno de 1.500 exemplares. O que queremos ver é como vocês estão se vendo.

Quantos livros brasileiros estão em tradução neste momento?
Entre outubro de 2012 e outubro de 2013, terão sido publicadas 258 traduções de livros brasileiros para o mercado alemão (novas edições ou novas traduções de obras já lançadas lá). Desses, 60 são de ficção, o que é um número impressionante e muito maior do que esperávamos porque não se trata apenas da tradução financiada. Temos que encontrar alguém para comprar os direitos do livro, alguém que acha que o livro terá espaço no mercado e que ainda vai colocar dinheiro na campanha de marketing. Se compararmos a quantidade de traduções de agora com a quantidade dos últimos 10 anos, por exemplo, vamos ver uma explosão da literatura brasileira na Alemanha. E há muito mais por vir, já que há obras mais complicadas de serem traduzidas em tradução e poucos tradutores em atividade.

E se compararmos com os livros traduzidos de outros países que foram convidados de honra da Feira de Frankfurt?
Da Argentina, por exemplo, foram cerca de 200, mas é difícil comparar assim.

O que deve acontecer com a literatura brasileira na Alemanha quando o Brasil já não estiver mais no foco da feira e, portanto, das editoras? O que está acontecendo agora deve continuar se desdobrando em outras ações?
Sim, este é o principal objetivo de ter um país como convidado de honra. Um dos objetivos é ter uma apresentação cultural do país – sua arte, arquitetura, música, dança, etc. Mas isso é para o grande público da Alemanha e já começou em abril e vai até outubro. O outro objetivo tem a ver com o mercado editorial e em estabelecer uma rede de contatos entre os editores brasileiros, os alemães e os de outras nacionalidades. Na Alemanha, mais de 40% dos nossos títulos são traduções. Se o livro é publicado na Alemanha e faz sucesso lá, ele deve chamar a atenção de editores de outras línguas e aí vai indo. O que está sendo feito agora deve continuar tendo reflexos nos próximos três ou cinco anos. Se investirem mais, vai durar mais. E para isso os programas de apoio à tradução são muito importantes porque é difícil encontrar dinheiro para traduções. Por outro lado, se tivermos esse networking, se editores e agentes vierem para o Rio ou para Paraty, se os daqui forem para Frankfurt, será uma iniciativa sustentável.

O programa de apoio à tradução da Fundação Biblioteca Nacional é um bom modelo?
Sim, é um bom modelo. Ele está muito melhor do que era antes, quando tudo devia estar em português.

O Brasil já tinha um estande coletivo do Hall 5.1, da feira, e poucas editoras participavam com estande individual. Aumentou a procura do parte das editoras brasileiras?
Sim. O estande coletivo costumava levar entre 50 e 60 editoras para a feira. Agora serão cerca de 100. Outras editoras terão estandes, entre as quais a Reflexiva, a Record, Companhia das Letras e Edusp. Haverá uma exposição de livros de arte em outro pavilhão, que está sendo organizada pela Apex.

Para a Feira de Frankfurt, algo mudou com a troca de comando da Fundação Biblioteca Nacional, quando saiu Galeno Amorim e entrou Renato Lessa?
Fiquei muito surpreso quando soube que Galeno estava saindo. Depois houve uma espécie de quebra, de silêncio. Aí conheci o Lessa na semana passada e de repente tudo está correndo em velocidade altíssima. Parou, quebrou e agora corre. Mas as coisas já estavam acontecendo antes: as traduções, as viagens dos autores à Alemanha, os contratos com os museus e as instituições culturais. Tudo estava em seu lugar.

Além disso tudo, a Feira de Frankfurt tem outros planos para o Brasil – especialmente com a Contec, a conferência que mescla educação, mercado editorial e tecnologia, não?
Tivemos uma reunião na segunda-feira. Fizemos a Contec no ano passado, vamos realizar uma edição em Frankfurt, durante a feira, e estamos planejando fazer uma grande conferência no Brasil no início do ano que vem. Será no Rio ou em São Paulo, ainda não decidimos. Estamos de olho nas outras iniciativas que já são desenvolvidas no Brasil, procuramos parceiros. Temos que conseguir o financiamento e o lugar, um lugar onde podemos fazer o evento e que não seja tão caro como muitos lugares do Brasil. Será uma grande conferência com uma feira não só para editores, mas nossa meta é que as pessoas troquem ideias relacionadas a conteúdo e tecnologia. Queremos colocar as pessoas para falarem umas com as outras.

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