Um Livro Por Semana #23: Retrato do horror (‘Contos de Kolimá’, de Varlam Chalámov)
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Um Livro Por Semana #23: Retrato do horror (‘Contos de Kolimá’, de Varlam Chalámov)

'Contos de Kolimá' foi publicado pela 34; e mais na Babel: Oficina Raquel prepara coleção 'Mulheres de Todos os Tempos'

Maria Fernanda Rodrigues

29 de agosto de 2020 | 03h00

 

Campo de trabalho forçado na União Soviética, nos anos 1930

Varlam Chalámov (1907-1982) era um garoto russo de 21 anos, estudante de Direito, quando foi preso pela primeira vez e tachado de elemento socialmente perigoso. Ficou três anos em campo de trabalho forçado nos Montes Urais. O segundo encontro com o autoritarismo de Stalin foi aos 30, e ainda mais brutal: ele só saiu de Kolimá, região desolada da Sibéria, onde trabalhou em mina de ouro e de carvão e em hospital, 15 anos depois – vivo não se sabe como e marcado o suficiente para não conseguir se livrar do horror.

O resto de sua vida foi dedicado a escrever sobre esse assombroso universo. Foram seis volumes, cuidadosamente organizados por Chalámov, e Contos de Kolimá (Editora 34, 304 págs.; R$ 65), o primeiro, saiu aqui em 2015. Os outros também já estão nas livrarias e formam uma das mais importantes obras da literatura de testemunho. É conciso, contundente, impactante e forte como no trecho a seguir: “Mesmo sem termômetro, os prisioneiros antigos mediam o frio quase com exatidão: se há nevoeiro gelado, na rua faz 40 graus abaixo de zero; se o ar da respiração sai com ruído, mas ainda não é difícil respirar, então 45 graus; se a respiração fica barulhenta e visivelmente ofegante, 50 graus. Abaixo de 55 graus, o cuspe congela no ar. O cuspe congelava no ar há duas semanas”.

CONTOS DE KOLIMÁ
Autor: Varlam Chalámov
Trad.: Denise Sales e Elena Vasilevich
Editora: 34
(304 págs.; R$ 65)

 

+ BABEL

Resgate e homenagem

Florbela Espanca

Com um volume dedicado à poesia da portuguesa Florbela Espanca (1894-1930), a Oficina Raquel apresenta, em dezembro, a coleção ‘Mulheres de Todos os Tempos’. A proposta é homenagear, reconhecer e resgatar textos de escritoras importantes que lutaram por espaço na literatura. A coleção será formada por obras de autoras hoje consagradas e também por textos daquelas que permanecem à margem do cânone. Entre os nomes já definidos estão a brasileira Maria Firmina dos Reis (1822-1917) e a venezuelana Teresa de la Parra (1889-1936).

 

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