Um Livro Por Semana #11: Verdades familiares (‘Apátridas’)
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Um Livro Por Semana #11: Verdades familiares (‘Apátridas’)

'Apátridas', de Alejandro Chacoff, foi publicado pela Companhia das Letras em 2020; e mais na Babel: Lezama Lima ganha antologia poética e Carolina Vigna estreia coluna de crônicas na Pessoa

Maria Fernanda Rodrigues

30 de maio de 2020 | 03h00

Há uma passagem em Apátridas, romance de estreia de Alejandro Chacoff, em que o narrador descreve a sensação da nata tocando seus dentes e língua, e o reflexo do vômito, na primeira vez em que tomou o leite fervido da avó. Associa essa experiência à vida “viscosa, densa, empelotada” que se seguiu à volta da família dos Estados Unidos, após a separação dos pais. A mãe e as duas crianças passaram a viver num quarto da casa do avô materno, no Centro-Oeste, e a compartilhar o “drama rococó” diário daquela casa de agregados, com gritaria, piadas fora de hora e visita de parentes falidos. E o que ele mais queria era “rejeitar essa vida, cuspi-la fora”. Mas como rejeitar um modo de vida que vinha de gerações?, questiona. E segue: “As pelotas insalubres tinham que ser engolidas de uma só vez, com a esperança de que em algum momento mais magnânimo fosse possível apreciar o todo. E é possível apreciar o todo? Não sinto que eu esteja sendo justo ao descrever aqueles anos. Mas ninguém escreve para ser justo”, lemos no livro do escritor que nasceu em Cuiabá, passou a infância nos Estados Unidos, viveu no Chile, Inglaterra, Argentina e Rio.

Obra toca em questões como família, deslocamento, desterro e dinheiro (Foto: Beto Barata/Estadão)

Apátridas nos leva ao Brasil do início dos anos 1990 pelo olhar desse garoto que assiste a tudo sem se sentir parte daquilo, ou de nada. Que é exposto muito cedo às fragilidades dos pais, e de um país desigual, ganancioso e corrupto. Que ouve na extensão as ligações do pai ausente para o sogro, sempre pedindo mais dinheiro e chorando. E vê esse avô distribuindo envelopinhos de dinheiro para parentes, e algum afeto. Um garoto imerso numa narrativa familiar desconexa e nem sempre confiável e que busca um lugar e esse pai do qual guarda lembranças quase sempre frustrantes. Um pai que não deu certo, mas que em algum momento colocou Brahms para os filhos ouvirem na barriga da mãe e leu para eles Onde Vivem os Monstros.

 

APÁTRIDAS
Autor: Alejandro Chacoff
Editora: Companhia das Letras
(192 págs.; R$ 49,90; R$ 34,90 o e-book)

+ BABEL

Poesia de Lezama Lima
Mariana Ianelli e Adriana Lisboa entram na reta final da seleção e tradução de pomas do cubano Lezama Lima (1910-1976) para uma antologia – a primeira no Brasil – prevista pela Demônio Negro ainda para este ano. A obra poética do autor de ‘Paradiso’ soma mais de mil páginas, com muitos poemas longuíssimos. O volume terá 40 deles, entre os mais representativos de sua poesia e alguns dedicados a amigos, intelectuais e familiares.

Novas crônicas
Durante um ano, Elvira Vigna (1947-2017) assinou uma coluna de crônicas na Revista Pessoa, seu último projeto literário regular. Agora em junho, quem chega à publicação é sua filha Carolina. O ponto de partida de suas crônicas, mensais, são os embates de uma mulher de meia idade com a maternidade solitária e tudo o que a atravessa num país em derrocada.

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