Tania Rösing é afastada da coordenação da Jornada de Literatura de Passo Fundo
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Tania Rösing é afastada da coordenação da Jornada de Literatura de Passo Fundo

A edição deste ano foi cancelada por falta de patrocínio

Maria Fernanda Rodrigues

01 de junho de 2015 | 00h58

(Atualizado segunda, às 12h)

Idealizadora e coordenadora da Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, Tania Rösing foi afastada, pela Universidade de Passo Fundo, do projeto que criou em 1981 e que tanto ajudou na formação de milhares de leitores desde então. Ela, que continua como professora na instituição – está lá há 44 anos -, falou sobre sua saída neste domingo, 31, em carta enviada a escritores, amigos, parceiros e imprensa (leia abaixo), e ao Estado na segunda-feira.

Foto UPF

Foto UPF

Rösing anunciou há poucos dias o cancelamento do evento por falta de patrocínio em respeito, ela disse, aos escritores e pesquisadores que tinham se comprometido em participar. Como não havia mais tempo de tentar captar recursos, era melhor que todos soubessem o quanto antes.

Esse anúncio, antecipado pelo Estado no dia 20 de maio, não foi bem visto pela reitoria da Universidade de Passo Fundo, que, em coletiva de imprensa naquele mesmo dia, disse que não tinha planos de anunciar o cancelamento do evento naquele momento e que tentariam por mais um tempo conseguir o dinheiro para realizá-lo. Foi dito ainda que como a coordenadora havia se antecipado no cancelamento, que então a Jornada estava cancelada. Esse cancelamento, no entanto, já estava decido. “Nada do que fiz foi sem pensar. Dei a entrevista porque alguém tinha que dar. Sempre fui muito séria e objetiva e não ia deixar parceiros, editoras, autores e pesquisadores sem saber que não ia acontecer a Jornada”, disse.

Na quinta passada, ao voltar de viagem, ela se reuniu com a reitoria da universidade, que promove o evento, e ouviu que ela não era mais a “referência” do projeto. A nota oficial, enviada à imprensa no final da manhã, é discreta: “A Universidade de Passo Fundo (UPF) reitera, conforme anunciado no dia 20 de maio, em coletiva à imprensa, o cancelamento da 16ª  edição da Jornada Nacional de Literatura no ano de 2015. Reafirma, também, que está desenvolvendo um plano estratégico para a próxima edição do evento. Diante desse contexto, e da conjuntura atual, ficou evidenciada a necessidade de reestruturação de seu formato, o que, por conseguinte, demandou a promoção de alterações inclusive na coordenação geral dos trabalhos”.

Tania pode continuar no grupo que vai organizar a próxima edição. “Sou uma pessoa autêntica e não me furto a participar de bons projetos. Se eu for chamada a contribuir de alguma forma, vou contribuir”, comentou. Para ela, no entanto, esta futura edição é um ponto de interrogação. “O que eu penso sobre a Jornada foi revelado até o formato de 2013, quando atingimos essa dimensão democrática, de movimentação cultural. E foi tudo feito com sustenção teórica. Tivemos a coragem de fazer alguma coisa diferente numa cidade longe, e isso tudo ficou grandioso demais. Agora, vão seguir outro caminho, mais enxuto, e é preciso ter força para não perder as conquistas de três décadas.”

Nas últimas semanas, escritores se mobilizaram em apoio à Jornada criando uma petição online e um financiamento coletivo para tentar viabilizar a edição deste ano. O nível de reconhecimento externo atingido pelo projeto, no entanto, infelizmente, não é o mesmo que ele conquistou internamente.

A professora vai além em sua análise: “Vejo que a questão de falta de leitores justifica muitas das questões enviesadas pelas quais o País passa hoje”.

Confira a carta da idealizadora da Jornada de Passo Fundo

“A Jornada continua…

Tania Rösing

Minhas palavras são de agradecimento aos escritores, aos artistas, aos pesquisadores, às lideranças de associações, a acadêmicos literários, às editoras, às organizações de defesa do livro e da leitura, aos empresários, às lideranças políticas, aos leitores, e, em especial, aos representantes dos diferentes órgãos de imprensa, a todos que manifestaram apoio à continuidade das Jornadas Literárias após o anúncio do cancelamento da 16ª edição. Certamente cada manifestação não apenas se constituiu como defesa do grande projeto, mas como reconhecimento ao trabalho das diferentes equipes que ao longo de mais de três décadas pensaram e realizaram as diferentes ações sob minha liderança e têm se comprometido com a continuidade de seus desdobramentos. A luta pela formação de leitores num país como o Brasil não é fácil, mas necessária e desafiadora.

As Jornadas Literárias constituíram-se, nesses 34 anos, numa movimentação cultural permanente, proposta por mim, com apoio do inesquecível escritor Josué Guimarães, a dirigentes, professores e alunos da Universidade de Passo Fundo, espaço apropriado para discutir o embasamento teórico de ações realizadas na dimensão do ensino-pesquisa-extensão sintonizados. E ainda, para desafiar a realização de práticas leitoras interdisciplinares e multimidiais, aproximando educação-cultura-tecnologia. Fundamentadas nesses princípios e com apoio da Lei de Incentivo à Cultura/RS e da Lei Rouanet pela participação de empresas de diferentes segmentos, as Jornadas Literárias de Passo Fundo assumiram um perfil mais do que democrático, celebrando escritores consagrados, escritores em processo de consolidação de suas obras, vozes de diferentes comunidades. Ao mesmo tempo, oportunizou a leitores experientes, a leitores em processo de formação, a não-leitores encontros de envolvimento com o livro, encontros de discussão presencial com seus autores. Ampliou, desse modo, o conceito de leitura ao desenvolver ações com o objetivo de formar distintos públicos para que possam apreciar e valorizar manifestações artístico- culturais de diferentes naturezas. Nessa trajetória, sem dúvida, merece destaque o apoio significativo da Prefeitura Municipal.

Cancelada por falta de apoio financeiro de diferentes segmentos no âmbito de um país cuja conjuntura econômica apresenta um quadro de instabilidade, é preciso salientar que não participei diretamente do processo de captação de recursos para a sua viabilização, ficando essa tarefa a cargo de outros profissionais da UPF. Com o sentimento de que tudo precisa ser revisto, avaliado, recriado, ou mesmo reinventado, participei não apenas do processo de seleção da empresa que recentemente concluiu seus estudos sobre o desempenho das Jornadas, como dos encontros que apontaram questões a serem observadas na criação de um novo formato.

Com o objetivo de não criar dificuldades para a continuidade das Jornadas, meu afastamento da coordenação não implicará deixar de contribuir com o grupo que estará à frente das discussões relativas ao seu futuro. Destaco que a autoria desse projeto não pertence apenas a mim, mas a todos que contribuíram com sugestões para o seu aprimoramento na perspectiva da grandiosidade que o tema leitura e formação do leitor exigem. As Jornadas cresceram, aprimoraram-se, tornaram-se grandiosas pelo zelo com que as diferentes equipes sob minha coordenação trataram sua continuidade, por seus desdobramentos como movimentação cultural, sendo reconhecida pela diferença que concedeu ao processo de formação de leitores e à celebração dos escritores e dos artistas. Reitero, pois, meu agradecimento, lembrando que a história das Jornadas e de suas conquistas encontram-se registradas na mídia, nos anais da Jornada, em publicações de natureza científica, estando disponíveis aos interessados em aprofundar suas reflexões sobre a complexidade dessa movimentação cultural.”