“Talvez o Zagalo dissesse ‘Tiveram que me engolir’”, brinca Ana Maria Machado em Passo Fundo
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“Talvez o Zagalo dissesse ‘Tiveram que me engolir’”, brinca Ana Maria Machado em Passo Fundo

Maria Fernanda Rodrigues

28 de agosto de 2013 | 13h36

Claudio Tavares/Divulgação

Ana Maria Machado já ganhou importantes prêmios, como o Hans Christian Andersen, o mais importante do mundo para a literatura infantil, e o Machado de Assis, pelo conjunto da obra. Mas nenhuma vitória repercutiu tanto quando a derrota que sofreu no Jabuti no ano passado. Era a favorita de dois dos três jurados, mas sua obra perdeu por causa desse terceiro, o famoso jurado C, que deu zero ao livro.

O título em questão era Infâmia (Alfaguara), e a hora dele chegou. Ontem, durante a abertura da Jornada de Literatura de Passo Fundo (RS), ele foi anunciado como o romance vencedor do 8.º Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura, no valor de R$ 150 mil – um dos mais altos do País. Concorreram obras escritas em português e publicadas no Brasil nos últimos anos. Ao lado dela na lista de finalistas, nomes como João Gilberto Noll e Luiz Ruffato.

“Quando soube desse prêmio, a sensação de reparação de uma injustiça entrou forte na alegria”, comentou hoje, em Passo Fundo. “Na vida, as coisas tendem a seguir um equilíbrio. Talvez a linguagem popular dissesse ‘O que é do homem o bicho não come’. Talvez o Zagalo dissesse ‘Tiveram que me engolir’”, brincou a imortal e presidente da Academia Brasileira de Letras nascida em 1941.

Baseado em fatos reais, Infâmia discute o limite entre o verdadeiro e o falso. São dois os personagens principais: um embaixador que recebe um envelope com documentos sobre sua filha morta e um funcionário público falsamente acusado de corrupto.

Ana Maria Machado terminou há pouco um infantil, que está descansando “na nuvem”. Entre outubro e novembro lança, pela Objetiva, a novela juvenil Enquanto o Dia Não Chega – uma história que se passa no século 17 e se alterna entre uma aldeia africana, uma aldeia portuguesa e um colégio de jesuítas.

Seus leitores adultos, porém, deverão esperar um pouco mais por outro romance. “Estava com um livro na cabeça, mas aí veio alguém e publicou outro livro sobre o tema. Desisti do projeto.” Isso, há cerca de dois anos. “Mas o tema continuou me assombrando. Com esse prêmio, vou poder parar um tempo e financiar um silêncio para mim, me dedicar a isso e ver como vou dar rumo, ou não, a esse tema que me assombra”, conta.

Ela não revela o assunto porque tem medo de perdê-lo. “O momento de escrever é muito próximo do inconsciente. Por em palavras, dizer ‘é isso’, é dar uma forma verbal a certas sensações que são ainda muito difusas e a certas percepções que são inconscientes. Na hora de botar no papel, ela perde a espontaneidade”, conclui.

Contos
. Ana Maria Machado não foi a única premiada na noite de terça-feira. O gaúcho Olavo Amaral venceu o Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães. Ele ganhou R$ 5 mil e um estágio de 10 dias na Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha. Mariana Salomão Carrara ficou em segundo lugar e ganhou R$ 3 mil.

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