Professora potiguar faz sua estreia na literatura com fábulas de inclusão
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Professora potiguar faz sua estreia na literatura com fábulas de inclusão

Maria Fernanda Rodrigues

19 de agosto de 2013 | 16h17

A autora, que é também professora e atriz (Maria Fernanda Rodrigues/Estadão)

Publicada originalmente no sábado, dia 17 de agosto. Versão online aqui.

Maria Fernanda Rodrigues – Enviada especial a Natal – O Estado de S. Paulo

Nas fábulas criadas por Débora Araújo Seabra de Moura, que resultaram em sua estreia na literatura com o infantil Débora Conta Histórias (Alfaguara), vivem um passarinho de asa quebrada, uma galinha surda, um sapo que não sabia nadar, um gato e um coelho preto, um cachorro e um papagaio que não se davam e um pato gay. Algumas dessas histórias remetem a cenas concretas que a autora presenciou na infância e adolescência. Outras foram inventadas. Juntas, ajudam a contar a história da própria Débora e do ambiente em que cresceu – ainda que, ela diz, não tenha sido essa a sua intenção.

“Usei animais para mostrar como eles se sentem na própria pele”, explica a autora. Para ela, as histórias mostram exatamente o que ali está escrito. Em Passarinho de Asa Quebrada Também Voa, por exemplo, ela fala sobre um pássaro que depois de quebrar a asa não consegue acompanhar o bando, que questiona se o amigo não estaria mais seguro se ficasse numa gaiola. A garota que mora na fazenda onde Débora situa suas fábulas entra em ação e pede aos passarinhos que aceitem o jeito dele, já que ele é capaz de chegar no mesmo lugar, mas um pouco depois. Resultado: eles ficam envergonhados pela proposta que fizeram e alguns passam a voar mais atrás, fazendo companhia para o amigo de uma asa só. “Quis mostrar que tem que incluir”, comenta.

Nos seus 32 anos, Débora passou, firme, por poucas e boas e sabe o valor de uma boa amizade e de ser aceita num grupo. Ela nasceu com síndrome de Down numa época em que seus portadores eram conhecidos pejorativamente como mongoloides. Foi rejeitada, e depois amada. Fez parte da primeira geração estimulada precocemente. Estudou em escola regular. Em alguns momentos, foi discriminada e excluída, mas nunca abaixou a cabeça. Conquistou o respeito, bons amigos e seu espaço na sociedade. Sua determinação a levou ao curso de magistério, e ela se tornou a primeira brasileira com a síndrome a se formar na profissão. Tudo em seu ritmo, com suas próprias pernas, o empurrão da família, o olhar sempre adiante e disposição para realizar novos sonhos.

Na ficção ou na vida real, o que Débora nos conta é uma história de aceitação e de inclusão. Seu livro não traz simples fábulas com uma moral no final. É diferente. Bonito e gracioso. É a expressão do que ela sente na própria pele, para usar suas palavras, e mesmo que ela não consiga simbolizar isso é a expressão de sua postura diante da vida.

Débora Conta Histórias, com ilustrações de Bruna Assis Brasil, tem tudo para ser adotado em escolas e os convites para que a autora participe de feiras e eventos literários já estão chegando. É o começo de uma nova carreira, que ela terá de conciliar com sua rotina profissional. Há nove anos, é professora auxiliar na Escola Doméstica, em Natal. “É uma experiência riquíssima para mim”, diz, sobre seu trabalho. Hoje, acompanha crianças entre seis e sete anos – são seus alunos mais velhos –, mas já teve turmas de diversas faixas etárias. “Gostei mais de trabalhar com crianças de três e quatro anos, mas não faço diferença.” Não faz mesmo, de nada. É firme em seus princípios e não tolera injustiça e discriminação.

Quando soube que dois amigos de sua mãe eram um casal, disse a eles que ficava feliz, mas que tinham de estar preparados porque poderiam sofrer preconceito. A homenagem ao casal está no livro, em O Pato Que Não Queria Namorar Com a Pata.

A obra foi escrita despretensiosamente, às escondidas. Foi um presente de Natal de Débora aos pais. A versão em sulfite e espiral circulou pela festa da família até chegar às mãos de um amigo, que se ofereceu em levar o volume para a Saraiva, que editava suas obras de Direito. Dias depois veio a resposta negativa. Foi feita uma nova edição caseira mais profissional que a apostila, mas a advogada Margarida já estava convencida de que valia a pena lutar por mais essa causa da filha.

Este não foi o primeiro livro escrito por Débora. Margarida comenta que todos os portadores de síndrome de Down, quando chegam a uma maturidade, querem contar sua história. “Débora fez isso e seu relato ficou restrito à nossa família. Mas este é diferente.” Depois de muito relutar, perguntou se um amigo escritor não daria uma olhada e, se gostasse, se não mandaria para sua editora. O livro chegou então até Roberto Feith, presidente do grupo Objetiva, que topou a edição no mesmo dia. “O que me chamou atenção foi o encanto da história contada por Débora e o exemplo de valor que ela personifica na forma de viver”, diz Feith, agora que os 3.500 exemplares da primeira tiragem estão nas livrarias. Uma grande festa de lançamento está marcada para o dia 5 de setembro, em Natal, e Débora, farrista como se apresenta, está animadíssima com os preparativos.

O amigo que deu o pontapé inicial na edição prefere ficar no anonimato. E o primeiro livro publicado de Débora vem com o endosso de João Ubaldo Ribeiro, prêmio Camões e cronista do Caderno 2. “Raramente me emocionei tanto quanto ao ler pela primeira vez as histórias criadas por Débora”, escreve.

Ela já trabalha num novo livro, que tratará de sua experiência profissional. No entanto, não tem grandes aspirações literárias. Prefere ler histórias para seus alunos do que inventá-las na hora. Mas tem aspirações artísticas. Em casa, sempre teve contato com literatura, música erudita e outras formas de arte. Mas foi com o teatro que encontrou a melhor forma de se expressar. Para voltar aos palcos, depende da reabertura do Centro Experimental de Formação e Pesquisa Teatral. É sua nova bandeira.

Na rotina de Débora Moura, as aulas, o livro e a luta para voltar aos palcos

Débora com seus alunos na Escola Doméstica, em Natal (Maria Fernanda Rodrigues/Estadão)

Débora Araújo Seabra de Moura, que lança agora Débora Conta Histórias, diz que não é muito de ler, mas passou a infância ouvindo as histórias da mãe. E tinha a preferida, que Margarida, promotora de justiça aposentada e hoje advogada, ia contando aos poucos: a de sua vida. Quando ela estava com nove anos, foi hora de conhecer o capítulo mais doloroso.

Durante sete anos e meio, Margarida tentou engravidar. Já perto dos 40, sabia dos riscos que corria. Frederico veio primeiro. Débora, quase dois anos depois. “Meu mundo desabou. Desejei que ela morresse. Depois comecei a acreditar que por uma mágica a doença desapareceria”, conta. E foi isso que Débora ouviu aos nove anos, antes de dormir. Ela chorou, a mãe se assustou, mas isso as aproximou ainda mais. Aos 13, num rompante, disse que a síndrome não a incomodava mais.

Para chegar a esse ponto da história, foram anos de provações e experimentações, de idas e vindas a São Paulo. Numa dessas viagens, período em que a família se hospedava na casa do compadre Henfil, Margarida ouviu da fisioterapeuta do cartunista que Débora, então com quatro meses, não precisava de um médico, mas sim de uma equipe multidisciplinar. Abriu-se, com isso, não uma possibilidade de cura, que todos sabiam ser impossível, mas de minimizar os sintomas. Sem mudar a rotina, um dos conselhos de uma terapeuta ocupacional, Margarida e o marido Robério, psiquiatra, fizeram o que puderam pelo tratamento da menina. E incluíam no dia a dia uma boa dose de cultura.

Desenho de Henfil para Débora poucos dias depois do nascimento dela

Débora acompanha a mãe em óperas e concertos – e também na tacinha de champanhe do intervalo. Viu Carmen, na Opera, em Paris. Emocionou-se com a Filarmônica de Berlim. Mas em seu repertório tem espaço para todos os gêneros, sem preconceito. A reportagem pergunta do que mais ela gosta. Débora sorri, marota, e responde com o dedo em riste: “Sertanejo”. A mãe se agita e brinca. “Aí dá uma desmunhecada geral. Não pudemos fazer nada.” Para minimizar o desgosto dos pais, diz que também ouve Beatles e Elis Regina.

Vai pouco ao cinema porque os filmes demoram a chegar em Natal – isso, quando chegam. Colegas, por exemplo, com portadores da síndrome de Down no elenco, não entrou em cartaz.

Mas é com o teatro, que frequenta desde antes de começar a andar, que Débora se realiza. Entre 2008 e 2010, fez aulas no Centro Experimental de Formação e Pesquisa Teatral. Lá, encenou a primeira versão nordestina de A Megera Domada, de Shakespeare, que levou o nome de O Moço Que Casou Com Mulher Braba, participou de alguns autos de Natal e integrou o elenco da peça As Casadas Solteiras. Mantido pela Fundação José Augusto, do governo do estado, o centro está fechado desde 2010. E Débora não se conforma.

Por duas vezes esteve cara a cara com a governadora Rosalba Ciarlini. Na primeira, elas estavam numa festa e Débora, depois de se apresentar como professora e atriz, perguntou como ficaria a cultura do Rio Grande do Norte. Pouco depois, se encontraram por acaso na fila do aeroporto e ela refez a questão. Até hoje ela espera a solução do problema, mas não espera sentada. Anda por Natal com um abaixo-assinado pedindo a reabertura do espaço, divulga a causa e protesta no Twitter e no Facebook. Esta semana, decidiu fazer uma petição online (leia no quadro abaixo). E não vai sossegar enquanto não encaminhar o documento à governadora – e, claro, ela reabrir a escola.

Débora tem essa inclinação artística, mas na hora de escolher a profissão, depois de alguns estágios em lojas e numa escola, optou pelo magistério. “Quando bati na escola, me apaixonei completamente”, diz, sorrindo. “Foi aí que comecei a tirar o chapéu para ela. Essa menina comeu brocha, como dizemos aqui. Da cabeça dela, chegou dizendo que tinha síndrome de Down, que estava lá para estudar e que não queria ser discriminada”, conta Margarida. Mesmo assim, foi. Ouviu da mãe que ela não precisava passar por toda aquela situação de desrespeito imposta por colegas de sala e não titubeou ao responder: “Eu não desisto dos meus sonhos”. Ultrapassou mais este obstáculo e está lá, diariamente, na sala de aula. Não porque preenche alguma cota ou porque é voluntária – no País, ainda não é permitido que um deficiente intelectual trabalhe e ganhe a pensão dos pais, no caso de morte deles, e por isso a família optou pela interdição de Débora. Está lá porque conquistou seu espaço. Se todos os sonhos foram realizados? “Não, agora quero ter a minha família”, responde.

Petição online pede reabertura de centro
Ser aluna do Centro Experimental de Formação e Pesquisa Teatral entre 2008 e 2010 foi muito importante para Débora Araújo Seabra de Moura. Lá, ela encenou duas peças, participou de alguns Autos de Natal e encontrou uma forma de expressão. O centro está fechado desde 2010, e Débora abriu esta semana uma petição on-line no site Avaaz chamada SOS Cultura RN para sensibilizar a governadora Rosalba Ciarlini para a importância do espaço.


DÉBORA CONTA HISTÓRIAS

Autora: Débora Araújo Seabra de Moura
Editora: Alfaguara (32 págs., R$ 34,90)

 

TRECHOS

Passarinho Com Asa Quebrada Também Voa

“Um dia desses, a menina Sandra foi passear pela fazenda e encontrou um passarinho perdido.

Ele estava com uma asa quebrada e gemia muito. Então, ela pegou o passarinho, levou-o com carinho para casa e fez um curativo em sua asa. Quando o passarinho se curou, ficou voando com uma asa só. A menina Sandra ficou triste quando ele foi embora, mas ela sabia que o passarinho tinha o direito de se libertar para fazer parte da natureza, cuidar da sua vida.

Só que o passarinho gostou da fazenda, da menina Sandra e dos seus amigos. Ele sentiu saudades e voltou.” (…)


O Pato Que Não Queria Namorar Com a Pata

“Um pato gostava de namorar outro pato. Ele gostava dele, por isso, ele era discriminado pelos outros animais, pois existe a lei dos patos na fazenda.

Os pais do pato reagiram e falaram:

– Meu filho, por que você está namorando um pato e não uma pata?

Aí ele falou:

– Eu decidi namorar outro pato.

Então, os pais dos patos decidiram fazer o seminário Novos Arranjos Familiares dos Patos.” (…)

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