Preparando o futuro
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Preparando o futuro

Maria Fernanda Rodrigues

29 de abril de 2013 | 07h32

Abu Dabi, a capital dos Emirados Árabes, está se preparando para alguma coisa muito grande. Talvez para continuar importante quando o petróleo acabar.

Embora a tradição religiosa ainda seja uma marca forte, é a mais cosmopolita e aberta entre todas as cidades, países ou emirados do Oriente Médio. E isso atrai gente do mundo todo (ok, o dinheiro do petróleo também).

Há guindastes por toda a parte e o esforço dos ministérios, ou autoridades, como chamam, é para colocá-la no mapa mundial da economia, das competições esportivas (só por curiosidade, 150 famílias de lutadores brasileiros de Jiu-jitsu vivem na região), dos museus, das feiras de livro.

Mas vamos nos concentrar no desenvolvimento (criação talvez seja uma palavra melhor) da área cultural.

Quem vier em 2015 encontrará a Ilha Saadiyat prontinha. Lá estão sendo construídos o Louvre, o Guggenheim e o Zayed National Museum (além de casas, hotéis, restaurantes, etc.). Hoje, já é possível ter uma ideia de como o Louvre (na foto, em primeiro plano; ao fundo, o Zayed) será pelas maquetes (tem até uma marina) e pela exposição O Nascimento de Um Museu, aberta no dia 22, e que mostra parte do acervo já adquirido. Há telas de Paul Klee, Magritte, Manet, Mondrian, Paul Gauguin, entre outros, além de objetos e um móbile de Alexander Calder.

 

A Feira do Livro, que já está em sua 23ª edição, também quer ser grande. Há outros eventos do gênero mais importantes do que ela no mundo árabe (Feira do Cairo) e outras na região (Festival de Literatura de Sharjah, outro emirado aqui pertinho). Os dois eventos são voltados para o público, e a de Abu Dabi tenta ir na contramão.

Há alguns anos contratou a consultoria da Feira do Livro de Frankfurt para ajudá-la a se tornar uma feira de mercado. E foram repetidos aqui alguns dos modelos tradicionais do evento alemão, como a área para negociação de direitos autorais (quem fechar negócio aqui ganha US$ 1 mil para ajudar na edição), palestras de profissionais de editoras, distribuidoras, etc., especialmente da Europa e dos Estados Unidos, e ainda um espaço para que os ilustradores exponham seu trabalho.

Ali, conheci o trabalho de Nairooz El Tanbouli (abaixo). Suas ilustrações ainda não viraram livro, mas participar da feira pode ter sido o primeiro passo para ela encontrar uma editora.

Entre os expositores, há alguns de países como a Inglaterra, Estados Unidos, Itália, Suíça. Mas são poucos. O Brasil estava representado pela única editora que, ano a ano, seja na Alemanha, em Bolonha ou em Tóquio, tenta ganhar o mundo: a Callis. A alemã Claudia Stein, sua mais nova agente, trouxe os livros da editora da Miriam Gabbai para Abu Dabi pela primeira vez. Ela contou que os títulos que mais chamaram a atenção foram os educativos, como a série Planeta Sustentável, e que as casas libanesas são as mais profissionais. “Vim para investigar o mercado árabe, que é muito interessante mas extremamente diferente. Tenho a impressão de que se fecharmos com algum país será com o Líbano ou o Egito”, diz, em perfeito português.

O editor sírio Samer Al Kadri, da Bright Fingers, lamenta a desorganização do mercado. “No mundo árabe, não há estratégia para nada e os livros são feitos só porque há pessoas engajadas, que editam, distribuem, vendem.” Um aspecto interessante aqui é que a língua é o território. Se ele fizer um bom livro educativo e o governo libanês quiser comprar, tudo bem. As edições não ficam restritas ao país onde foram produzidas. Esse editor veio para a Feira de Abu Dabi no ano passado e desde então não voltou mais a Damasco. A história é bem interessante e eu contei na matéria que saiu hoje no Caderno 2.

 

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