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Paulo Lins nega racismo em lista, defende Ruffato e manda um “saravá” aos professores cariocas no encerramento da Feira de Frankfurt

Maria Fernanda Rodrigues

13 de outubro de 2013 | 13h50

Maria Fernanda Rodrigues
Enviada especial / Frankfurt

Escolhido para participar da cerimônia de encerramento da Feira do Livro de Frankfurt, quando o país homenageado se despede e passa o bastão para o convidado de honra do ano seguinte, no caso a Finlândia, o escritor Paulo Lins quebrou o protocolo.

Ao invés de responder à primeira pergunta do escritor Thomas Böhn, que estava mediando o debate entre o brasileiro e a escritora finlandesa Rosa Likson, ele leu um texto em que, entre outras coisas, agradecia a acolhida da Alemanha e aos organizadores brasileiros, mandava um “saravá” aos professores do Rio de Janeiro e comentava sobre o abaixo-assinado em prol da escola pública e em repúdio à violência policial, que circulou entre os escritores na feira e foi assinado por mais de 40 pessoas.

Falou também sobre o fato de só ter um negro e um indígena na comitiva oficial. “Sabemos que o Brasil é um país racista, como são todos os países da Europa. Mas não houve racismo na lista de escritores convidados. Ela foi feita com base no mercado editorial brasileiro e internacional. Não é uma lista com o melhor da produção literária brasileira. Tudo aqui é mercado. ”

Autor de Cidade de Deus e de Desde que o Samba é Samba, Lins aproveitou para falar sobre o polêmico discurso de abertura, dirigindo-se ao seu autor: “Meu querido Luiz Ruffato, faço minhas as palavras de seu discurso. Com certeza, foi uma declaração de amor ao Brasil. Uma fala de esperança. A verdade tem que ser dita e encarada para alcançarmos mudanças substanciais na sociedade brasileira tão sofrida, tão marcada pela violência e pelas injustiças sociais. Por isso, deixo sem comentários a palavra do nosso vice-presidente e avisar que a poesia é uma coisa séria. Ela não se dá com qualquer um.”

Após o debate, Paulo leu uma poesia que escreveu aos 20 anos, que diz, logo no início: “Fui feto feio feito no ventre do Brasil /estou pronto para matar / já que sempre estive para morrer” (leia o poema completo abaixo).

O presidente da Feira de Frankfurt comentou a participação do Brasil e destacou o debate que foi levantado logo no primeiro dia do evento. “Vimos um Brasil que se angustia consigo mesmo, e que vai para a frente com sua criatividade”, disse.

Renato Lessa, presidente da Fundação Biblioteca Nacional, um pouco antes de passar o bastão para a Finlândia, comentou: “Esse bastão representa a alegria imensa de ter estado aqui com essa programação que buscou mostrar a variedade e o grau de liberdade que o povo brasileiro atingiu expressa através de seus artistas e de seus criadores, e isso é muito importante para a Biblioteca Nacional e para a minha geração, que arriscou sua vida para que essa liberdade fosse usufruída em lugares como esse.”

Ao final da cerimônia, o músico finlandês Jimi Tenor se apresentou.
Poema lido por Paulo Lins:

Fui feto feio feito no ventre do Brasil
estou pronto para matar
já que sempre estive para morrer
Sou eu o bicho iluminado apenas
pela fraca luz das ruas
que rouba para matar o que sou
e mato para roubar o que quero
Já que nasci feio, sou temido
Já que nasci pobre, quero ser rico
e assim meu corpo oculta outros
que ao me verem se despiram da voz
Voz solta virando grito
Grito louco ao som do tiro
Sou eu o dono da rua
O rei da rua sepultado vivo no baralho
desse jogo
O rei que não se revela
nem em paus
nem em ouro
Se revela em nada quando estou livre
renada quando sou pego
pós nada quando sou solto
Sou eu assim herói do nada
De vez em quando revelo o vazio
De ser irmão de tudo e todos contra mim
Sou eu a bomba humana que cresceu
entre uma voz e outra
entre becos e vielas
onde sempre uma loucura está para acontecer
Sou seu inimigo
Coração de bandido é batido na sola do pé
Enquanto eu estiver vivo
todos estão para morrer
Sou eu que posso roubar o teu amanhecer
por um cordão
por um tostão
por um não
Me meço e me arremeço (sic) na vida
lançando-me em posição mortal
Prefiro morrer na flor da mocidade
do que no caroço da velhice
Sem saber de nada me torno anacoluto insistente
Indigente nas metáforas de tua língua vulgar 126
Que não se comprometeu
Pois a minha palavra
( a bela palavra )
Inaugurada na boca do homem, a dama maior do
artifício social
perdeu a voz
Voz sem ouvido é mero sopro sem fonemas
É voz morta enterrada na garganta
E a pá lavra vida muda no mundo legal
me faz teu marginal

 

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