O que representa para o mercado editorial brasileiro a união de Andrew Wylie e Carmen Balcells
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O que representa para o mercado editorial brasileiro a união de Andrew Wylie e Carmen Balcells

Maria Fernanda Rodrigues

30 de maio de 2014 | 11h30

(Atualizado às 19h50)

De quando em quando o agente literário americano Andrew Wylie, 67 anos, lança uma nova polêmica no ar. Anda dizendo que o Kindle dá câncer, acha que os direitos autorais de um escritor deveriam ser para sempre de seus herdeiros.

Em 2010, resolveu abrir uma editora digital para lançar a obra de seus cerca de mil clientes em e-book – recusando-se a vender os direitos digitais dessas obras para as editoras que já tinham as tinham publicado em papel – e foi bombardeado por editores.

Em seu catálogo, há nomes como Philip Roth, Orhan Pamuk, Salman Rushdie, Roberto Bolaño e tantos outros gigantes da literatura mundial. Ausências sentidas na lista: Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e Julio Cortázar, por exemplo. Os três representados por Carmen Balcells, outra poderosa agente literária.

Em entrevista recente ao La Nación, ele disse que sua agência poderia se expandir indefinidamente. “Quero que ela seja como uma biblioteca borgeana”, disse. E o crescimento veio rápido.

Nesta semana, ele e a espanhola Carmen Balcells, 83 anos, anunciaram a criação da mega agência Balcells & Wylie. É, basicamente, a junção dos dois catálogos. E isso é grande. E é também a garantia de longevidade à empresa de Balcells e de diversidade ao catálogo de Wylie.

Editores e agentes literários brasileiros comentam a mais recente novidade do mercado editorial e avaliam os possíveis impactos que essa decisão pode ter na indústria do livro no Brasil.

Luciana Villas-Boas, da Villas-Boas & Moss Agência e Consultoria Literária
“Eis aí um movimento interessante, muito inteligente, como é de se esperar, da parte do Andrew Wylie, que sempre se destacou por representar espólios de grandes obras literárias. O que notabiliza a agência de Carmen Balcells ainda são os autores do boom latinoamericano, como Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes, Mario Vargas Llosa, Julio Cortazar e alguns nomes mais jovens, como Isabel Allende. No Brasil, talvez alguns editores estejam preocupados. Balcells sempre teve a política de deixar cada autor forte com uma editora diferente. Wylie não se preocupa tanto com isso. Fica a ver se a distribuição editorial dos clássicos latino-americanos há de mudar no Brasil como consequência dessa fusão.”

Lucia Riff, da Agência Riff
“Esta notícia não tem força para impactar o mercado editorial brasileiro. Vejo como uma opção para a Carmen garantir a continuidade e relevância da sua agência pelos próximos anos.”

Marianna Teixeira Soares, da MTS Agência
“Essa fusão reforça a importância do papel do agente literário e também evidencia a força da literatura latinoamericana no mundo. Não creio que os editores tenham motivo para temer. É uma mega agência que junta dois dos players mais importantes do mercado, mas os editores em geral já tem uma relação de longa data estabelecida com ambas as agências. Imagino que continue valendo o de sempre, a boa reputação dos editores no mercado em que atuam.”

Sergio Machado, presidente do Grupo Editorial Record
“São duas agências poderosas que vão ficar ainda mais poderosas. A união faz a força, não? Não é uma boa notícia, mas não chega a ser uma notícia má. Aumentar a força de um agente literário é tudo o que o editor não quer. Eles são às vezes muito gananciosos, querem valores irreais. Essas duas agências já eram assim.
Andrew é meio radical. As negociações com ele são sempre difíceis. Bom senso não é exatamente o forte de lá, mas paciência. O que eu acho é que os editores deveriam se unir para reduzir esse tipo de fraqueza. Eles só conseguem prosperar porque tem muita gente dividida do lado de cá. O que a Penguin fez com a Random House é um exemplo. Criaram um grupo tão forte que fica mais difícil combater. Mas isso é do jogo.”

Roberto Feith, diretor do grupo Objetiva
“Ainda não está claro se o que foi anunciado é uma fusão das duas empresas, incluindo as atividades da Wylie em Londres e Nova Iorque, ou a criação de uma nova empresa sediada na Espanha, fundamentada no catálogo da Balcells, mas com participação da Wylie. Seja como for, penso que a notícia demonstra o quanto a literatura de língua espanhola e, especialmente, a latinoamericana, o ponto forte da Balcells, se tornou um fenômeno de alcance e valor verdadeiramente mundial. Quanto ao impacto aqui, a Objetiva tem muitos autores com as duas agências. A relação com uma e outra sempre tem sido de alto nível profissional. Não vejo motivo para que isto mude nesta nova etapa.”

Luiz Schwarcz, publisher da Companhia das Letras
“Andrew Wylie e Carmen Balcells são agentes diferenciados, que ainda se importam com a literatura de alta qualidade. Neste sentido, acho que esta agência fortalecida é boa para quem gosta de bons livros.”

Bernardo Ajzenberg , diretor-executivo da Cosac Naify
“O impacto será certamente notado por aqui. Pode ser negativo ou positivo. Depende de como a nova agência, que será poderosíssima, decidir se comportar. Vejo dois caminhos: a) ela pode usar seu megapoder para auferir ainda mais ganhos, tornando ainda mais caros os direitos e mais difíceis as condições de negociação – o que obviamente reforçaria o potencial sentido negativo dessa megafusão, beneficiando os grupos editoriais economicamente mais fortes. Mas b) pode também usar desse poder amplificado para, com base em uma situação empresarial sólida, pensar mais ampla e culturalmente – não só nos seus próprios ganhos ou nos ganhos dos autores mas também na sobrevivência do setor editorial como um todo – e criar novas formas de negociação menos monopolizadoras do que na primeira hipótese. A lógica do mundo dos negócios aponta para a primeira alternativa, é claro. Mas será que devemos descartar totalmente a possibilidade de que essa nova superagência venha a pensar um pouco numa missão mais abrangente e socialmente mais produtiva do que apenas nos seus próprios ganhos e de seus autores?”

Karine Pansa, presidente da Câmara Brasileira do Livro
“Ambas agências são altamente respeitadas no mercado e provavelmente formarão o maior catálogo de vendas de direitos. A CBL entende que foi uma maneira das empresas se adaptarem às novas realidades de mercado em um cenário cada vez mais competitivo.”

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