Marcelo Godoy e Maria Valéria Rezende vencem o Prêmio Jabuti 2015
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Marcelo Godoy e Maria Valéria Rezende vencem o Prêmio Jabuti 2015

O anúncio foi feito na quinta-feira, 3, no Auditório do Ibirapuera

Maria Fernanda Rodrigues

03 de dezembro de 2015 | 23h22

A 57.ª edição do Jabuti, mais tradicional prêmio literário do País, teve um fim simbólico. Na noite de quinta, 3, depois de serem premiados os melhores livros em 27 categorias, o público conheceu os vencedores do Livro do Ano de Ficção e Não Ficção – escolhidos pelo júri e pelo mercado editorial.

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Marcelo Godoy e a editora Joana Monteleone (Foto: Alex Silva/Estadão)

Primeiro, quem subiu ao palco foi Marcelo Godoy, repórter do Estado premiado por A Casa da Vovó – Uma Biografia do DOI-Codi (1969-1991), O Centro de Sequestro, Tortura e Morte da Ditadura Militar (Alameda), resultado de um trabalho de 10 anos e premiado ainda pela Biblioteca Nacional.

Depois, foi a vez da freira Maria Valéria Rezende. Seu romance Quarenta Dias (Alfaguara), o melhor livro de ficção de 2014, não tem ligação com o regime militar – ele fala sobre uma mulher de classe média que surta diante da ideia de ter sua vida anulada e passa alguns dias na rua –, mas a história da autora, sim. Ela ajudou a esconder militantes, arrumou trabalho para alguns deles e passaportes para outros. Foi interrogada, exilada. Viu de perto o que Godoy narra.

Leia entrevista de Maria Valéria Rezende no lançamento de ‘Quarenta Dias’

Só uma coincidência? Ela acha que não. “Isso significa que a doideira do retrocesso pela ignorância não é tão grande quanto parece. Algumas pessoas ignoram a história gritando pela volta de coisas absurdas e isso faz muito barulho, dando a impressão de que é todo mundo que grita – mas não é.” Ela completa: “Quem vota no Livro do Ano são todos os associados das entidades do livro. Isso significa uma tendência entre quem produz livro. E quem produz livro é quem orienta a cultura””, diz.

Marcelo Godoy conta que a ideia de seu livro surgiu como uma tentativa de entender por que um grupo de militares fez o que fez. “Existia uma doutrina, de guerra, responsável por eles traçarem uma estratégia e, dentro dessa estratégia, eles escolheram táticas para combater os grupos de oposição ao regime militar.” De sua extensa pesquisa, que reúne cerca de 60 casos de sequestros, assassinatos e desaparecimentos políticos, surgiu, e sobrou, muito material, que pode virar outras obras.

A literatura feita hoje acerca desse período é, ele acredita, justamente nesse sentido de compreender – o que não significa aceitar ou justificar. Antes, era uma literatura de denúncia “importantíssima”. “Este é um tema que não terminou. Ainda precisamos ser senhores dessa memória e desse esquecimento”, diz.

Ficções sobre a ditadura também têm aparecido, e esse será um dos temas de Outros Cantos, romance que Maria Valéria lança em janeiro pela Alfaguara. A protagonista é uma mulher de 70 anos, que dedicou a vida à educação de base e que refaz, pelo sertão, uma viagem feita 40 anos antes, enquanto revê suas utopias, ilusões e esperanças. “Ela era uma militante, um tipo de personagem de resistência à ditadura do qual quase nunca se fala. Com a Comissão da Verdade, lembramos os nossos mortos, torturados, exilados, censurados, expulsos, mas não as milhares de pessoas que, como dizia o Livro Vermelho de Mao Tsé-tung, achavam que para serem revolucionários ‘tinham de desaparecer e mergulhar no seio da massa como um peixe dentro d’água’.

Valéria tem, também, um livro de contos no prelo. Confira.

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Maria Valéria Rezende e o editor Otávio Marques da Costa

O Jabuti bateu recorde de inscrição este ano – 2.573 obras disputaram o troféu em 27 categorias, incluindo capa, projeto gráfico, tradução e conteúdo nos mais variados gêneros e áreas de conhecimento. O primeiro colocado de categoria ganhou R$ 3.500. Maria Valéria Rezende e Marcelo Godoy ganharam, ainda, R$ 35 mil.

Cerimônia. Na abertura, Luiz Antonio Torelli, presidente da Câmara Brasileira do Livro, anunciou que em 2016 a entidade terá um concurso literário voltado a estudantes. Ele aproveitou o discurso para dizer que o setor entende que cortes são necessários, mas criticou cancelamentos e atrasos no pagamento, por parte dos governos, tornando ainda mais difícil o ano do mercado editorial.

A curadora Marisa Lajolo, também na abertura, destacou a renovação pela qual o Jabuti passou em 2015, e disse que a homenagem feita nesta noite a Mauricio de Sousa é um exemplo disso, uma vez que quadrinho já foi considerado um gênero menor. Emocionado, nervoso e ofegante, o desenhista disse: “Fico muito feliz por saber que meus personagens abrem as portas desse mundo da literatura para as crianças”. E completou: “Eu acredito em personagens e também que desenhos e letras são capazes de mudar o País e o mundo”. Monica, Cebolinha, Chico Bento e Zé Lelé também participaram da festa no Auditório Ibirapuera.

Por falar em quadrinhos, uma das novidades deste ano foi a criação da categoria adaptação, e Eloar Guazzelli ficou com o primeiro e o segundo lugar. A segunda novidade foi a inclusão da categoria livro digital infantil.

O Jabuti premia o autor e o editor da obra com um troféu para cada um. Flavio Cafieiro, segundo lugar na categoria contos com Dez Centímetros Acima do Chão, subiu só e saiu com dois Jabutis. Ninguém da Cosac Naify, que acaba de anunciar que está encerrando as atividades, participou da cerimônia. O mesmo aconteceu pouco depois com João Anzanello Carrascoza, cujo Caderno de Um Ausente foi vice em romance.

O Jabuti é a penúltima premiação do ano a anunciar seus vencedores. No dia 8, serão conhecidos os livros escolhidos do Prêmio Oceanos, ex-Portugal Telecom. Estão na disputa: A Calma do Dia (Rodrigo Naves), A Desumanização (Valter Hugo Mãe), A Primeira História Do Mundo (Alberto Mussa), Dez Centímetros Acima Do Chão (Flavio Cafieiro), Mil Rosas Roubadas (Silviano Santiago), O Homem-mulher (Sérgio Sant’Anna), Ondas Curtas (Alcides Villaça), O Irmão Alemão (Chico Buarque), Por Escrito (Elvira Vigna), Querer Falar (Luci Collin), Sacola de Feira (Glauco Mattoso), Tempo De Espalhar Pedras (Estevão Azevedo), Totem (André Valias) e Um Teste de Resistores (Marilia Garcia).

Veja a lista de vencedores do Jabuti 2015
E ainda: Estevão Azevedo desbanca Chico Buarque e vence Prêmio São Paulo de Literatura

(atualizado às 2h e às 20h40 de 4/12)

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