Luto e melancolia: Flávio Izhaki lança ‘Amanhã Não Tem Ninguém’
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Luto e melancolia: Flávio Izhaki lança ‘Amanhã Não Tem Ninguém’

Maria Fernanda Rodrigues

12 Setembro 2013 | 13h01

Matéria publicada hoje no Caderno 2:

Luto e melancolia
Flávio Izhaki dá voz a uma família que lida com suas angústias, perdas e despedidas

Maria Fernanda Rodrigues – O Estado de S.Paulo

Fábio Motta/Estadão

Em Amanhã Não Tem Ninguém, segundo romance do carioca Flávio Izhaki, de 34 anos, que será lançado hoje, às 19 h, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, no Rio de Janeiro, seis pessoas de uma mesma família se alternam para contar uma delicada e silenciosa história da passagem do tempo, da solidão de cada um, mesmo quando inserido num grupo, e do esfacelamento dessa família em questão.

Quando Izhaki começou a escrever o livro, em 2008, não sabia, porém, o que ele viraria. Nem que criaria seis vozes e que essas seis vozes fariam parte do mesmo núcleo familiar. Não tinha ideia do que queria contar, mas sabia bem por que queria escrever. “Há sentimentos que quero alcançar e busco começar a cercá-los em forma de literatura. São sentimentos da solidão, do tempo, das limitações físicas – como o envelhecer, algo que estava muito presente na minha vida enquanto escrevia. Era isso o que eu queria investigar”, explica o autor, que terminou seu projeto em 2011.

A demora em publicá-lo tem uma razão: Izhaki, anunciado em 2006 como uma revelação – ainda não editada – da literatura brasileira, publicou seu primeiro romance, De Cabeça Baixa, pela extinta Guarda-Chuva, em 2008, e queria que o segundo saísse por uma casa maior. Entrou, então, na fila de espera da Rocco. Demorou, mas o lançamento vem num bom momento. Flávio Izhaki está na coletânea alemã Lettrétage, a ser lançada, com a presença do autor em Frankfurt e Berlim, no mês que vem.

*

Patrick pouco conviveu com o bisavô Natan, mas aos 13 anos foi o escolhido para ir ao lado de seu caixão na Kombi que os levaria ao cemitério. O motorista pergunta sobre tradições e costumes de seu povo, e o garoto não sabe responder. Esta foi a cena escolhida por Flávio Izhaki para abrir o romance Amanhã Não Tem Ninguém, narrado em primeira pessoa pelo garoto, pela mãe dele, o pai, o tio, a avó e o bisavô.

Breve romance sobre o fim – da vida, das relações -, o livro traz recortes de períodos específicos dessa família de origem judaica. “É interessante pensar se certos momentos-chave das pessoas podem explicar toda uma vida”, comenta o autor. Alguns dos personagens narram os fatos quando eles estão acontecendo, outros voltam anos na história e recorrem a uma memória titubeante.

Marlene, avó de Patrick, mãe de Nicolas e de Marquinhos e filha de Natan, foi quem primeiro apareceu para o autor. De início, ela era uma mulher que acompanhava, à beira da cama, a morte do pai. Não era triste por causa da perda iminente, mas porque, quando ele finalmente morresse, ela teria de retomar uma vida que nunca teve. Depois Izhaki criou um homem que herdou do pai o ofício de consertar relógios e se lembra, a distância, da relação com a mulher já morta, uma judia que no fim da vida se converteu ao catolicismo. Foi natural que ele virasse pai de Marlene, adotada depois de sucessivos abortos.

O terceiro personagem foi Nicolas, o filho mais velho de Marlene, que sonhava em ser cardiologista até o pai morrer de enfarte. Mas não foi ele quem presenciou o ataque fulminante, foi Marquinhos, o caçula, que depois testemunharia o suicídio, no metrô, de um rapaz que minutos antes havia desejado e que, aos 17, sairia de casa para integrar o exército israelense.

Essas e outras histórias são contadas por seus protagonistas e, às vezes, por outro membro da família também. O desencontro de informações e sentimentos é prova de uma comunicação precária entre os familiares.

Há semelhança entre algumas das vozes, e isso foi proposital. “Com variações, é uma família que se repete, se repele e se estranha”, diz o autor. E completa: “Tentei fazer sempre cenas de personagens diferentes, mas parecidos. São repetições com o objetivo de repetição mesmo, de amalgamar a família como se aquilo fosse uma repetição alterada.” Como ocorre nas melhores famílias. Nesse processo, o leitor acompanha como a história é narrada, recebida e lembrada, e como essa lembrança afeta o entendimento de mundo da pessoa.

Mônica, a mãe de Patrick que nunca foi aceita pela sogra porque não era judia, carrega com ela uma preocupação de seu criador acerca desse entendimento. “Ela tenta pensar se as escolhas podem ser julgadas depois que tudo aconteceu. Se é possível avaliar as decisões tomadas e a própria vida sabendo que resultado sairia daquilo.”

E pensar é a palavra certa, porque há muito mais pensamento do que ação na obra. “Ao narrar em primeira pessoa, quis analisar em que medida as coisas pensadas são colocadas em ação. Não sou muito afeito a diálogos, e sempre me interessou mais o que as pessoas pensam e o que, de fato, decorre disso.”

No caso dos personagens do livro, quase nada. Há pouca tentativa de se chegar ao outro e eles estão sempre rompendo com alguma coisa, desistindo de si e daquela família. Nesse sentido, Patrick acaba sendo uma consequência dessa ação, ou da falta de ação, de seus pais, tios e avós. Curioso é que dos narradores, todos solitários, ele é o único que usa a palavra solidão, e lamenta que se sinta assim. Mas isso ele não verbaliza.

É então Patrick, o garoto que vive fechado na sua rotina de abrir o e-mail e não encontrar nada, de sair para o recreio e não encontrar ninguém e de não conseguir passar a última fase do videogame, quem inicia e encerra a história. Pelo que o autor já andou ouvindo, há quem encontre no diálogo final, dele com a avó no cemitério, que remete ao jogo pelo qual é fissurado, uma ponta de esperança e a ideia de que a vida segue adiante.

“Não pensei nisso e essa é a beleza de o livro ganhar o mundo: o leitor pode dar o seu sentido”, diz Izhaki. “Ele é todo muito carregado, tem a história da limitação física, do fim meio inexorável, e tenho uma leitura de que o mundo continua e que a vida começa e termina milhões de vezes. Agora, esperança é uma palavra forte. É um recomeço, vamos dizer assim, coloca o escritor, pai de Anita, 1 ano e 9 meses.” Um recomeço solitário, sem redenção ou transformação. E aí residem a leveza, a delicadeza – e a tristeza – de Amanhã Não Tem Ninguém.

 

Crítica de João Cezar de Castro Rocha*:  Trama tecida de mentira, autoengano e desencontro

O único modo de avaliar a literatura contemporânea consiste em discutir concretamente escritores e seus textos. Pensemos em Flávio Izhaki. Seu primeiro livro, De Cabeça Baixa (2008), alcançou um equilíbrio raro entre virtuosismo narrativo e desenvolvimento da trama. Amanhã Não Tem Ninguém (2013) demonstra um amadurecimento extraordinário.

Seis vozes narrativas costuram as histórias de fracasso e de ocultamento de quatro gerações de uma família judia no Brasil. No texto, as pontas do labirinto se atam com maestria, num dos mais impactantes romances brasileiros deste ano, recordando a Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade, com seus desencontros e autoenganos.

O primeiro narrador é Patrick, no enterro de seu bisavô. E é com ele e sua avó que as narrativas convergem num final inesperado e perturbador. Nessa reunião de extremos, o fio da trama se anuncia. As vozes elaboram perdas, revelando, para o leitor atento, as mentiras que definiram suas vidas. Tudo começa com a impossibilidade de Natan, o patriarca da família, e Ana terem um filho. Depois da perda de “cinco filhos na barriga”, adotam Marlene. Ana, contudo, impõe uma condição: “Terá de ser em segredo”.

Marlene não se conforma com um nome “tão antijudaico”. O pai explica: durante a guerra, era conveniente disfarçar as origens; ademais, “Marlene vem de Madalena, que é um nome judaico”.

Falsa etimologia! Ora, os filhos de Marlene e Afonso talvez sejam góis? Pergunta que cria um enredo paralelo, articulando uma aguda reflexão sobre as consequências de “pequenas” mentiras na história pessoal e no destino de toda uma família. Marlene desejava ter uma filha. Por isso, trata o segundo filho, Marcos, como se fosse a Sara que não veio, numa involuntária réplica de sua história. Nicolas, o rebento preferido, futuro brilhante médico, comete um erro e o paciente morre. Ninguém sabe do fato, mas ele determina a mediocridade de sua carreira.

Detalhes que se tornam significativos: Ana converte-se ao catolicismo. O bisneto se chama Patrick, nome de santo católico irlandês. Não surpreende, pois, que Patrick apenas se realize nas redes virtuais e em jogos de videogame. Talvez ele tenha sido o único a intuir o drama da avó – a coisa oculta desde a fundação da família. Afinal, se mentiras estruturam uma vida, o mundo virtual bem pode ser a peça que falta para (des)armar o quebra-cabeça.

* Professor de literatura comparada na UERJ