Gráfica RR Donnelley culpa mercado editorial por falência, e mercado sofre ‘mais um duro golpe’
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Gráfica RR Donnelley culpa mercado editorial por falência, e mercado sofre ‘mais um duro golpe’

O mercado editorial, que vive sua prior crise, sofre outro baque nesta segunda-feira, 1º, com o pedido de falência da gráfica RR Donnelley. Para Marcos da Veiga Pereira, presidente do Snel, há 'alguma coisa a mais nessa história', já que empresa não tentou outros mecanismos para resolver seu problema

Maria Fernanda Rodrigues

01 de abril de 2019 | 17h06

Dos males, o menor. Na semana passada, a Intrínseca comprou 70 toneladas de papel para imprimir uma de suas apostas para este ano: o novo livro de Mark Manson, autor do best-seller A Sutil Arte de Ligar o F*da-se (o livro mais vendido no Brasil em 2018). De acordo com Marcos da Veiga Pereira, sócio de Jorge Oakim na Intrínseca e dono da Sextante, os caminhões com papel suficiente para imprimir 200 mil exemplares, chegaram na RR Donnelley na manhã desta segunda-feira, 1°, e encontraram a empresa fechada. Uma das principais gráficas do Brasil, a RR Donnelley anunciou na manhã desta segunda que entrou com pedido de autofalência 25 anos depois de chegar ao País.

falência RR Donnelley

RR Donnelley em Osasco (Foto: RR Donnelley)

“Fiquei muito surpreso com o pedido de autofalência. A empresa não tentou nenhum outro mecanismo antes de tomar essa decisão mais radical e isso me dá a suspeita de que tem alguma coisa a mais nessa história, como um processo trabalhista grande ou algum problema fiscal”, comenta Marcos da Veiga Pereira, que é, ainda, presidente do Sindicato Nacional de Editores de Livros (Snel).

Em comunicado, a RR Donnelley disse que “entre os fatores que levaram o grupo a tomar esta medida estão as atuais condições de mercado na indústria gráfica e editorial tradicional, que estão difíceis em toda parte, mas especialmente no Brasil”.

Pereira concorda que a situação é grave. “Mas colocar essa conta na crise do mercado editorial é precipitado. Claro que ela tem impacto enorme, mas optar por uma solução tão radical de cara sugere que ela tenha algum problema muito maior mesmo”, diz.

Para a Sextante, a RR Donnelley estava entre as três principais fornecedoras, responsável por cerca de 20% de seus livros, e o prejuízo não será tão grande já que, de acordo com o editor, ela tinha apenas algumas reimpressões contratadas (e neste caso as tiragens são menores), o pagamento costuma ser a prazo e as 70 toneladas de papel não foram entregues na semana passada. Mesmo assim, conta Pereira, ele deve ter algo como R$ 200 mil em papel dentro da empresa, e vai tentar reaver quando a poeira baixar.

Questionada sobre esses trabalhos em andamento, a gráfica disse, por meio de sua assessoria de imprensa, que não comentaria.

“A falência da Donnelley representa a perda de um fornecedor importante. Por outro lado, o mercado está ocioso e outras empresas vão conseguir atender às editoras”, comenta. Ele afirma ainda que o prejuízo maior pelo fechamento da gráfica é a curto prazo – para editoras que tinham urgência em reimpressões e tinham contratado o serviço da empresa, por exemplo. “Mas foi mais o susto.”

Vitor Tavares, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), disse que a entidade recebeu com preocupação a notícia da falência da gráfica RR Donnelley. “Isso é sem dúvida mais um duro golpe na indústria gráfica e editorial do Brasil. A crise pela qual passamos somada ao atraso nas definições sobre os programas de aquisição de livros do Governo Federal complica ainda mais esse cenário”. Tavares alerta, ainda, para a hiperconcentração do mercado. “Com a diminuição de empreendedores e investidores no mercado editorial a concentração se torna ainda maior. Perde o mercado, perde o leitor, perde o Brasil.”

Com a crise das livrarias Saraiva e Cultura, que estão em recuperação judicial, e com a diminuição, e depois cancelamento, dos editais governamentais de compras de livros para escolas, o mercado editorial brasileiro vive seu pior momento.  A RR Donnelley foi fundada nos Estados Unidos em 1964 e operava no Brasil há 25 anos. No momento, ela era responsável pela impressão das provas do ENEM. Estima-se que a empresa tenha 600 funcionários.

Leia o comunicado da RR Donnelley

A RR Donnelley Editora e Gráfica Ltda decidiu, após considerar todas as opções, encerrar sua operação no Brasil. Entre os fatores que levaram o grupo a tomar esta medida estão as atuais condições de mercado na indústria gráfica e editorial tradicional, que estão difíceis em toda parte, mas especialmente no Brasil. Recentemente, a RR Donnelley perdeu um de seus principais clientes e registrou uma drástica redução no volume de trabalho contratado.

O grupo operou no Brasil por mais de 25 anos. Mas, uma análise meticulosa das finanças da empresa motivou nossa decisão. O requerimento de autofalência da RRD será processado e decidido pelo foro da comarca de Osasco/SP.

Para minimizar o impacto da falência, a empresa entrará em contato com o sindicato e avaliará a possibilidade de rescindir todos os contratos de trabalho já nos próximos dias. Isso permitirá o pronto levantamento dos valores depositados nas contas vinculadas do FGTS e habilitará os funcionários a solicitarem o seguro-desemprego, na forma da lei.

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