Fnac fecha as portas na Avenida Paulista; só resta uma loja no Brasil
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Fnac fecha as portas na Avenida Paulista; só resta uma loja no Brasil

A Fnac Pinheiros fechou em junho; nos últimos dias, a Livraria Cultura, que comprou, há pouco mais de um ano, as operações da rede francesa no Brasil, fechou, também, as lojas do Shopping Morumbi, de Campinas, Curitiba e Brasília

Maria Fernanda Rodrigues

17 Setembro 2018 | 15h31

Há 14 meses, a Livraria Cultura anunciou que havia adquirido as operações da rede francesa de livrarias Fnac no Brasil – um movimento que causou estranheza, num primeiro momento, para o mercado editorial, já que a própria Cultura vinha enfrentando uma séria crise financeira – uma crise que está longe de ter fim. Se devia dinheiro para seus fornecedores, como poderia fazer um negócio como esse, questionavam profissionais do setor.

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Fnac da Avenida Paulista é a penúltima a fechar as portas no Brasil (Foto: Amanda Perobelli/Estadão)

À época, a Fnac tinha 12 lojas em 7 estados.

Na realidade, a Cultura comprou a operação da Fnac, mas acabou recebendo dinheiro da empresa francesa para renegociar passivos – e retomar a rentabilidade das lojas ou então acabar de vez com a presença da empresa no País. A segunda alternativa foi ficando evidente com o fechamento em cadeia das lojas da Fnac iniciado há alguns meses – a Fnac Pinheiros, sua primeira no Brasil, fechou em junho – e intensificado nos últimos dias com o encerramento das unidades do Shopping Morumbi, Campinas, Curitiba e Brasília.

No domingo, 16, quem passou pelo número 901 da Avenida Paulista viu as portas da loja fechadas e o aviso de que a livraria continuava atendendo pelo seu site.

Com essa notícia, a Fnac está a um passo de sair de vez do Brasil. Agora só resta a loja do Shopping Flamboyant, em Goiânia – e não se sabe até quando.

Procurada para comentar o fechamento da loja da Paulista, o futuro da de Goiânia e seu próprio futuro, a Cultura respondeu, por meio de sua assessoria de imprensa, que “não comentará nem divulgará dados das suas operações”. Disse ainda: “A Livraria Cultura segue o seu planejamento estratégico para os próximos anos: manter unidades com boa performance, procurando sempre melhorar a experiência do cliente em loja, e reforçar a presença em e-commerce”.

A Fnac não começou do zero quando chegou ao Brasil em 1998. Um ano antes, surgia, na Praça dos Omaguás, em Pinheiros, o projeto megalomaníaco, e caro (R$ 25 milhões), do Ática Shopping Cultural – com 8 mil m2 e cinco andares, ele se tornou a maior livraria de livros e CDs da América Latina. Não deu tão certo quanto se imaginou, e sua venda, no ano seguinte à inauguração, viabilizou a chegada da rede francesa ao País.

Ela logo tentou corrigir alguns exageros cometidos pela Ática, e incluiu outros produtos, sobretudo eletrônicos, em seu portfólio. Com o tempo, e esse foi o primeiro erro da empresa, de acordo com o mercado, os livros foram perdendo seu espaço na loja – e, portanto, a livraria foi perdendo importância para as editoras. Quatro anos atrás, ela era responsável por cerca de 2% do faturamento das editoras. Recentemente, muitas delas já nem negociavam mais com Fnac. A Cultura, comenta-se, responde por cerca de 8%, e a Saraiva, por 30%. Por ora, já que nenhuma das duas está, porém, em situação melhor que estava a Fnac.

Os planos de expansão também atrapalharam o desempenho da empresa, recorda Gerson Ramos, ex-funcionário da Ática e depois da Fnac, onde ficou por dois anos, e hoje diretor comercial da editora Planeta. “Seu modelo dependia de grande volume para se sustentar. Ela queria 20 lojas em cinco anos, mas só conseguiu abrir 11 em 15 anos”, comenta.

Quando a Livraria Cultura anunciou, 14 meses atrás, que estava comprando a operação da Fnac no Brasil, o mercado já imaginou que o cenário seria esse mesmo: o fim da rede no País. A Cultura estava, então, ganhando dinheiro para, como se repete pelo mercado, “fazer o trabalho sujo”: demitir, romper contratos.

Devendo para fornecedores, demitindo funcionários e fechando lojas, a Cultura já vinha enfrentando sua própria crise. “A Fnac acrescentou um problema à vida da Cultura. Ela mais atrapalhou do que ajudou. Consumiu o tempo e a energia de que ela precisava para ter foco para resolver seus próprios problemas”, comenta uma fonte do mercado. Até o ano passado, a rede de Pedro Herz tentava fazer alguns acertos pontuais com editoras que considerava importante. Hoje, diz outra fonte, nem isso.

“É lamentável, mas a questão da Fnac era anunciada. Nunca vi uma coisa tão complexa quanto à situação que as grandes redes estão vivendo. Estamos falando de 40% do mercado. Não consigo imaginar solução de curto prazo”, comenta Luiz Antonio Torelli, presidente da Câmara Brasileira do Livro.

O editor e livreiro Alexandre Martins Fontes também diz que nunca viveu uma crise como esta. “Estou muito preocupado com o futuro das livrarias físicas no Brasil e a Fnac é mais uma vítima. Mas essa crise, sem precedentes, tem várias origens. É macroeconômica, é política, mas é também de responsabilidade do próprio mercado, que tomou decisões erradas, como, por exemplo, priorizar outros produtos em detrimento do livro”, diz Alexandre que há tempos não via mais a Fnac da Paulista, distante alguns poucos metros de sua Martins Fontes, como concorrente.

(Atualizada em 18/9)