Crônicas de um tempo em ruína
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Crônicas de um tempo em ruína

Maria Fernanda Rodrigues

10 de junho de 2013 | 10h51

Publicada hoje no Caderno 2 em duas partes: Crônicas de um tempo em ruína e Romance reflete sobre a vida frágil e efêmera.

CRÔNICAS DE UM TEMPO EM RUÍNA

Adriana Lisboa lança a obra Hanói, sobre deslocamentos em vida e para a morte 

Maria Fernanda Rodrigues – O Estado de S.Paulo

Você tem 32 anos, vai ao médico e recebe a sentença de morte que deve ser cumprida em poucos meses: glioblastoma multiforme. O tratamento desse tumor no cérebro é paliativo e só vai servir para dar uma esticadinha na curta linha da vida. Você se revolta, nega e torce para que um novo exame mostre que o alarme foi falso. Pensa em suicídio. Ou entende, aceita, se prepara e caminha tranquilamente para a morte.

Esse é o mote de Hanói, romance que Adriana Lisboa (na foto abaixo, no Templo da Literatura em Hanói) lança nesta segunda-feira, às 18h30, na Livraria da Vila, em São Paulo – haverá um bate-papo com o escritor Luiz Ruffato –, e na quinta, no Rio.

Hanói dura exatamente esse tempo entre a tomada de consciência de um fim iminente e o fim. É David – americano filho de um brasileiro imigrante ilegal e de uma mexicana, que adoraria ter sido um trompetista mas que acabou levando uma vida normal, com um emprego normal e poucos amigos – o protagonista desta história sobre deslocamentos. Uma história com tudo para ser triste, mas que ganhou leveza na narrativa de Adriana Lisboa, que lembra, já nas primeiras páginas, o comportamento dos elefantes: quando sentem que chegou a hora de morrer, eles se isolam da manada.

É mais ou menos como David faz, com a diferença de que o rapaz, órfão de pai e mãe, não tem muito o que deixar para trás. Mesmo assim, ele tem o plano de se neutralizar. “Um plano em que ele fosse se afastando do centro, apagando as letras do seu nome, esfriando a temperatura corporal, respirando mais devagar, falando cada vez mais baixo, até que não estivesse mais ali e as pessoas nem mesmo notassem que em algum momento tinha estado”, escreve Adriana.

Mas existe sempre algo de imponderável na vida, e a certeza de que o caminho escolhido para viver a própria morte pode não ser assim tão certa.

Já sabedor de seu diagnóstico, David resolveu entrar pela primeira vez numa lojinha vietnamita perto de sua casa, em Chicago. Não é dele puxar conversa com estranhos, mas interage com Alex, a garota do caixa. Como David, ela também é americana, e como muitos americanos, filha de refugiados. Sua mãe é filha de uma mulher vietnamita que se envolveu com um soldado americano. É para Alex que David pergunta para onde ela iria se pudesse fazer uma longa viagem. “Hanói”, ela responde – e é para lá que ele decide ir.

 

ROMANCE REFLETE SOBRE A VIDA FRÁGIL E EFÊMERA

Adriana Lisboa narra encontro de dois jovens e as surpresas do destino

MARIA FERNANDA RODRIGUES – O Estado de S.Paulo

A carioca Adriana Lisboa se interessa há algum tempo pelo tema do deslocamento, presente em seus três últimos livros. De 2007, Rakushisha fala de viajantes brasileiros no Japão e de toda a questão da incomunicabilidade entre duas culturas. Já Azul Corvo, de 2010, foi concebido quando a autora já vivia nos Estados Unidos e a questão da imigração começou a fazer parte de seu universo. Hanói, seu sexto romance que será lançado hoje, aborda esse mesmo tema, mas investiga processos mais extremos: dos refugiados – no caso, vietnamitas que se mudaram para os Estados Unidos após a guerra – e do protagonista David rumo ao seu fim.

Em entrevista por telefone feita antes de embarcar para o Brasil, Adriana Lisboa contou que trabalhou durante um ano como voluntária num centro de recepção de refugiados. “Essa é a experiência mais radical possível em termos de imigração. São pessoas muitas vezes arrancadas violentamente de seu local de origem, que vivem em trânsito, às vezes por décadas, em campos de refugiados até saberem onde vão parar, e que por vezes também não se encaixam nesses lugares para onde acabam indo.”

Nesse tempo, pesquisou a história de filhos de mulheres vietnamitas com soldados americanos durante a guerra e foi daí que criou alguns dos personagens. “Mas a questão do não pertencimento, do desenraizamento, ultrapassa a questão meramente local. Não se trata apenas da nossa existência num lugar físico, mas também da relação com a própria vida. E embora todos nós saibamos que vamos morrer, isso nunca é uma preocupação consciente até que a gente fique doente ou até que alguém morra perto da gente. A surpresa de saber que a morte está tão próxima cria essa espécie deslocamento dele dentro da sua própria vida”, explica.

David opta por uma atitude prática, e até fria, diante da sentença de morte. Não quer dar trabalho para ninguém – mesmo porque não tem ninguém – e começa a se desfazer de suas coisas. Enquanto pensava em seu personagem, a autora viu a foto de uma pessoa que decidiu fazer uma longa viagem e abriu mão de tudo que tinha. Restou uma mochila. Aquilo a impressionou e David faz o mesmo.

Começa pelo emprego, depois os peixes, o sofá, o computador. Só não abre mão de suas músicas, e de um ou outro objeto que o faz lembrar de sua diminuta família: o pai, que deixou Governador Valadares para fazer a vida na América, e a mãe, que partiu por motivos nunca esclarecidos. Uma morte simbolizada; a outra, não.

A autora conta que seu principal desafio foi abordar o tema de forma não pesada. “David fica o tempo todo lutando contra a dramatização da própria morte. A morte, não no sentido melodramático, é um dos temas mais importantes da nossa vida e deveríamos tê-la como norte.”

O plano do protagonista de sair sem deixar rastro, porém, vai aos poucos dando errado quando ele entra na vida da família de Alex. É nesse encontro com o outro, com estranhos, que ele descobre também um sentido para sua vida. E é Alex quem o ajuda a escolher seu destino final: Hanói, a capital do Vietnã. Em meados de 2012, Adriana foi para lá. “A loucura da cidade foi muito importante para que não houvesse no livro uma ideia do Vietnã quase como uma Pasárgada, um paraíso distante no passado dos personagens e talvez no futuro do David”, explica.

A autora não quis, porém, se aprofundar nem no tema da morte e nem no da imigração. “O fundamental era uma reflexão sobre a noção de transitoriedade, de impermanência, de como as coisas são frágeis e passageiras.”

Hanói é a estreia de Adriana Lisboa na Alfaguara, seu 11.º livro e um divisor de águas em sua carreira e vida. “Pela primeira vez, termino um livro e não tenho outro na cabeça. Porém, estou trabalhando nos poemas que escrevi nos dois últimos anos para ver se crio coragem e os publico”, revela. Mas Hanói está na primeira ou segunda fase? “Talvez ele seja a dobradiça. Um pouco como o David, estou tentando me livrar de uma série de coisas na minha vida, inclusive no meu estilo literário. Acho que tenho tentado uma literatura mais simples, sem supérfluos”, finaliza.

HANÓI – Autora: Adriana Lisboa. Editora: Alfaguara (240 págs., R$ 39)

Lançamento: Livraria da Vila (R. Fradique Coutinho, 915). Nesta segunda-feira, 18h30.

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