Clássicos literários adaptados para HQ ganham espaço no mercado editorial
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Clássicos literários adaptados para HQ ganham espaço no mercado editorial

Renata Farhat Borges, pesquisadora de quadrinhos e diretora editorial da Peirópolis, fala sobre a evolução do mercado e a coleção que já publicou 14 adaptações para quadrinhos

Maria Fernanda Rodrigues

10 de novembro de 2014 | 15h53

O lançamento de Cânone Gráfico – Clássicos da Literatura Universal em Quadrinhos, livro do americano Russ Kick que inaugura o Barricada, selo de HQ da Boitempo, foi assunto da matéria de capa do Caderno 2 do domingo, dia 9, assinada por Ubiratan Brasil.

Como esse tipo de adaptação tem sido frequente no mercado editorial brasileiro – especialmente pela possibilidade de venda para escolas -, conversei com alguns editores sobre o tema e a matéria também foi publicada no domingo.

Publico a seguir a entrevista que fiz com Renata Farhat Borges, pesquisadora de quadrinhos e diretora editorial da Peirópolis, cuja coleção de clássicos adaptados já conta com 14 volumes. Parte dela foi usada no texto orginal.

Caeto adaptou 'A Morte de Ivan Ilitch', de Tolstoi

Caeto adaptou ‘A Morte de Ivan Ilitch’, de Tolstoi

Por que adaptar uma obra literária para quadrinhos?
Para conquistar outros leitores para esta obra, para abrir seu sentido para a contemporaneidade, para oferecer leituras renovadas sobre mitos, personagens ou enredos que se tornaram clássicos e sobre os quais as atuais gerações jamais se debruçaram – porque não conhecem, porque nunca foram estimuladas a isso, porque não encontraram o caminho mais aprazível. Esse tipo de publicação nasceu nos Estados Unidos na década de 40 e até o final da década de 60 era tão popular ali quanto a boneca Barbie ou os cards. A coleção original era seriada e se chamava Classics Illustrated. Foi traduzida para mais de 26 idiomas em 36 países. O Brasil importou esta coleção por Adolfo Aizen, da Ebal – Editora Brasil América, que publicou por aqui mais de 200 títulos, sendo que muitos deles eram criações originais, quadrinizações de obras brasileiras, especialmente do Romantismo, especialmente José de Alencar, mas também autores como Bernardo Guimarães, Manuel Antônio de Almeida, Camilo castelo Branco, Dinah Silveira, entre outros. Mas as motivações foram um pouco diferentes no século 20 e no século 21. No século 20, além das razões que continuam atuais, como popularizar obras clássicos, oferecer aperitivos de leitura, a literatura em quadrinhos buscava emprestar algum prestígio para a linguagem dos quadrinhos, jovem e na época vítima de muitas críticas por parte de pais e educadores em todo o mundo.

Como é o interesse do leitor brasileiro por esse tipo de livro?
A coleção brasileira no século 20 foi muito popular no Brasil entre as décadas de 40 e 60. O ressurgimento que atestamos hoje se iniciou a partir de 2006, quando os editais de compra de governo, por diferentes motivos, dentre os mais importantes a ampliação do conceito de letramento iniciada com a LDB e os PCNs, passaram a nomear as quadrinizações nas demandas das bibliotecas. Ainda restrito nas vendas no varejo, este tipo de publicação tem tido neste século mais penetração em escolas e universidades. No entanto, as redes de livrarias já dedicam espaço às adaptações literárias na área de quadrinhos, como você pode verificar na imagem anexa, provavelmente para atender demandas que se iniciam no ambiente da escola. Esse cenário é bem diferente do que ocorria no século XX, quando as quadrinizações eram vendidas em bancas de jornais e compradas espontaneamente pelo leitor jovem.

E do Governo? Por que acha que esse tipo de livro entra nos programas de compra?
O Governo em suas diferentes instâncias entende as adaptações literárias como instrumentos interessantes de formação do leitor literário e porta de entrada para a leitura de grandes obras da literatura universal. Além disso, vem cada vez mais valorizando esse tipo de publicação por seu resultado estético final – ou seja, valoriza a adaptação de Caco Galhardo para Dom Quixote porque, além de oferecer ao leitor uma aproximação do jovem leitor com o universo do clássico de Cervantes, é muito bom como história em quadrinhos também.

Você já teve algum título selecionado? Se sim, quando foi isso e quantos exemplares foram vendidos?
Já tivemos três títulos selecionados: Dom Quixote em Quadrinhos, de Caco Galhardo, Os Lusíadas em Quadrinhos, de Fido Nesti, e Frankenstein em Quadrinhos, de Taisa Borges. Foram vendidos para governos, em média, tiragens de 20 mil, 30 mil.

Há demanda escolar?
Além das demandas dos editais de compra de governo em suas instâncias federal e estadual, muitas escolas particulares adotam quadrinizações de obras clássicas com sucesso. A coleção Clássicos em HQ, que hoje tem 14 títulos, tem vendido muito bem as quadrinizações de Os Lusíadas, por Fido Nesti, e Dom Quixote, volumes 1 e 2, por Caco Galhardo, além de Auto da Barca do Inferno, por Laudo Ferreira, Conto de Escola, por Laerte Silvino, dentre outros.

Por que não há muitas obras brasileiras adaptadas para HQ?
Das cerca de 400 quadrinizações literárias já publicadas no Brasil, mais da metade delas foi no século 20, quando a Ebal traduziu muitas quadrinizações feitas pela Classics Illustrated – obras anglo-saxônicas, em sua maioria. Já naquela época, escolhiam-se muitas obras do século 19 porque o editor Albert Kanter tinha especial apreço pela literatura daquela época e porque as obras já estavam em domínio público. A partir de 2006, os editores brasileiros estão arriscando, e há coleções, como a da Peirópolis, que tem como premissa que as quadrinizações sejam feitas por artistas brasileiros, mas não restringe a obras brasileiras, e coleções especialmente dedicadas a obras brasileiras, como a da Ática. Das 14 quadrinizações da Coleção Clássicos em HQ, metade delas são de obras em língua portuguesa, de Portugal, como Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, ou Os Lusíadas, e do Brasil, como Conto de Escola e A Mão e a Luva, de Machado de Assis, I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias, ou Demônios, de Aluísio Azevedo.

'A Mão e a Luva', de Machado de Assis, por Alex Genaro e Alex Mir

‘A Mão e a Luva’, de Machado de Assis, por Alex Genaro e Alex Mir

E por que há mais títulos clássicos do que contemporâneos adaptados?
Por várias razões: a primeira, na minha opinião, é que a motivação, o desejo de reabrir o sentido, reinterpretar uma obra ou oferecer uma nova leitura sobre um enredo passa por uma questão de distanciamento no tempo. A obra clássica normalmente não é clássica no seu tempo, mas torna-se clássica a partir do olhar das gerações posteriores e do consenso das forças que atuam no campo literário. A outra, também importante na história editorial das quadrinizações, é que essas obras estão em domínio público e portanto não é necessário negociar direitos autorais com autor vivo ou seus herdeiros, e muito menos negociar os sentidos da releitura proposta pelos quadrinhos. Eu mesma já tentei quadrinizar obras de autores brasileiros que não estão em domínio público e quebrei a cara. Porque os herdeiros não compreendem e acatam a autoria do quadrinista na adaptação.

Entre os títulos da coleção, quais foram os mais vendidos? E quantos exemplares foram comercializados?
Os títulos mais vendidos da coleção são Dom Quixote em Quadrinhos, Os Lusíadas em Quadrinhos, Frankenstein em Quadrinhos e, recentemente, Divina Comédia em Quadrinhos, Conto de Escola em Quadrinhos, A Morte de Ivan Ilitch em Quadrinhos. Ao todo, a coleção já vendeu cerca de 200 mil exemplares.

Quais serão os próximos lançamentos da editora nessa linha?
Fausto em Quadrinhos e Os Sofrimento do Jovem Werther em Quadrinhos. O primeiro, por Leonardo Santana e Rom Freire, e o segundo, por Daniel Gisé. Ambas quadrinizações são de clássicos da literatura germânica, de Goethe, e demonstram a variabilidade do gênero dos quadrinhos e as infinitas possibilidades e recursos da linguagem para lidar com roteiros clássicos.

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