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Biógrafos de Chico Buarque comentam a postura do músico diante da questão das biografias

Maria Fernanda Rodrigues

16 de novembro de 2013 | 17h51

“Faltou aquele amigo. Ao menos ele não teria cometido tantos erros factuais. Houve uma falta de manha dele ali”, disse o escritor e jornalista Humberto Werneck neste sábado, durante encontro com Regina Zappa no 1º Festival Internacional de Biografias, em Fortaleza. Os dois já escreveram livros sobre o músico que recentemente se juntou ao grupo Procure Saber na batalha pela restrição às biografias e publicou artigo no jornal O Globo sobre a questão. Ela fez quatro obras e ele, uma reportagem biográfica para o livro Tantas Palavras, que traz as letras das canções compostas pelo artista.

A postura de Chico foi um dos temas de destaque da mesa No Compasso da História: Vidas de Artistas, que teve mediação de Lucas Figueiredo, também jornalista e biógrafo. “A questão da intimidade já existia antes do grupo. Acho que tudo tem a ver com a queda da venda de disco. Tenho a impressão de que os músicos hoje fazem mais shows. Roberto Carlos não pode ver um navio que ele entra”, disse Werneck sobre a organização do grupo. Djavan, que também se manifestou contrário à liberação das biografias, chegou a sugerir que os direitos autorias fossem divididos entre biógrafos e biografados – na sexta-feira, no festival, Ruy Castro sugeriu a troca dos direitos autorais de todos os seus livros pelos direitos de uma única música de Djavan.

No debate, Werneck lembrou de um comentário feito por Chico Buarque durante as entrevistas que fez com ele. Chico Buarque disse a ele que nunca conseguiu ter uma roupa de artista, como os outros. “Quando Caetano Veloso aparece perante o público, quem está ali não é ele é o artista. Chico Buarque, quando está ali, está como pessoa física. Ele é muito desprotegido.”

Regina Zappa contou que mandou um e-mail para Chico Buarque após o artigo. “Ele estava na França. Eu disse que não concordava com a proibição e que a maioria dos nossos biógrafos era séria, que ele não podia fazer o justo pagar pelo predador, que vai ter sempre alguém que vai sair falando loucuras sobre alguém, ou vai entrar na intimidade de alguém de uma forma sórdida. Ele concordou: ‘É, seu texto está perfeito’.” Esse foi o único contato. “Acho que ele deve estar muito constrangido.”

Veto. Regina Zappa e Humberto Werneck contaram que tiveram a colaboração de Chico Buarque durante todo o processo dos livros. E os dois respeitaram a vontade do músico quando ele pediu para retirar três trechos das obras. Para Werneck, ele pediu que não não incluísse alguns versos que fez para Sabiá, parceria dele com Tom Jobim. “Ele disse que ia ficar ruim para o Tom.” A outra passagem: “Quando veio o golpe militar, um ex-colega do colégio Santa Cruz disse: ‘Agora vamos na casa do teu pai e vamos queimar aquela livralhada socialista. Ele deu o nome do cara, eu botei e depois ele pediu para tirar o nome.” A plateia pediu para ele contar quem era. “Miguel Reale Junior”, respondeu. Para Zappa, ele pediu que não contasse que pagou as contas do hospital de João do Vale até sua morte. “Acho que foi por modéstia”, comentou.

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