Babel 28.12.2013
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Babel 28.12.2013

Maria Fernanda Rodrigues

27 de dezembro de 2013 | 23h52

A coluna Babel de sábado, dia 28 de dezembro

CLÁSSICO
As histórias dos irmãos Grimm agora para adolescentes

A Edições SM convidou 18 escritores e 18 ilustradores a voltarem às histórias dos irmãos Grimm para recontá-las – desta vez não mais para crianças, como boa parte das adaptações, mas para adolescentes. Grimm Releituras está previsto para o começo do ano. Entre os artistas, Juliana Bollini, que desenhou a Cinderela acima. Entre os autores, Andréa Del Fuego, André de Leones, Paloma Vidal, Luisa Geisler e Veronica Stigger (leia trecho no final da coluna). Os editores não pediram que modernizassem as histórias ou fossem fiéis ao original. Houve, no entanto, muitas alusões a problemas contemporâneos, como o narcotráfico em Animaizinhos, de Leones, e maus tratos à infância, em Pele de Bicho, de Vidal. Interessante que escritores e ilustradores se basearam no texto original. Portanto, são releituras independentes.

Chapeuzinho Vermelho, por Lese Pierre

Branca de neve, por Weberson Santiago

Branca de neve, por Weberson Santiago 

FANTÁSTICO – 1
Zumbi tupiniquim
A Faro aposta na obra de Rodrigo de Oliveira, engenheiro de TI fã de ficção científica, e lança a série As Crônicas dos Mortos – o primeiro volume, O Vale dos Mortos, foi publicado de forma independente. A história se passa no Brasil, em 2018. O primeiro dos cinco livros sai no fim de fevereiro e o segundo, para a Bienal, em agosto.

FANTÁSTICO – 2
‘Bang!’ grátis, em março
Quadrimestral e gratuita, a revista portuguesa Bang!, dedicada ao gênero fantástico, começa a ser distribuída em março na Saraiva pela Saída de Emergência, editora recém-chegada ao País. Serão 10 mil exemplares.

SOCIOLOGIA
Um futuro mais social
Entre os lançamentos da Casa da Palavra para janeiro está O Futuro Chegou – Modelos de Vida Para Uma Sociedade Desorientada, do sociólogo italiano Domenico De Masi.
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Trata-se de um ensaio sobre como a qualidade de vida e a felicidade das populações influenciam o futuro de um país. Sua ideia é construir um modelo de vida global em que haja espaço para “o ócio criativo, o lazer, a contemplação da beleza e a convivialidade”.
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Para tal, ele estudou os modelos socioeconômicos e religiosos que já se provaram eficazes e os que foram experimentados, mas deixados para trás.

LEITURA
O hábito do brasileiro
Em meados de dezembro, o Instituto Ecofuturo lançou o guia A Leitura em Números, uma plataforma virtual que reúne todas os levantamentos disponíveis no Brasil e no exterior sobre o hábito de leitura do brasileiro. O material pode ser acessado em www.bibliotecavirtualecofuturo.org.br.
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Agora, para 2014, ele espera estrear site e blog novos. Quer, ainda, fazer um outro site para a campanha Eu Quero a Minha Biblioteca, que vem orientando sociedade civil e poder público sobre como zerar o déficit de bibliotecas escolares no País, o que deve ser cumprido até 2020 segundo a lei 12.244/10.

CONTO
Quiroga para adultos

A Iluminuras prepara para 2014 mais dois livros do uruguaio Horacio Quiroga (foto) – ela já tinha lançado dois infantis. São eles: Contos de Amor de Loucura e de Morte, de 1917, e Os Desterrados, de 1926, traduzidos por Wilson Alves-Bezerra, professor da UFSCar, colaborador do Estado e autor de Reverberações da Fronteira em Horacio Quiroga.
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O tradutor comenta brevemente as obras:

Contos de Amor de Loucura e de Morte (sem vírgula mesmo) foi lançado em 1917 e nele se nota a influência de Poe, principalmente. São relatos breves, retirados de magazines entre 1907 e 1917. Estão, neste livro, clássicos como Travesseiro de Pena, À Deriva e A Galinha Degolada.

Os desterrados é uma obra da maturidade de Quiroga e reúne contos ambientados na selva de Misiones, na tríplice fonteira, entre Argentina, Brasil e Paraguai. Nele, estão personagens singularíssimos, muitos deles inspirados em europeus que vieram para a Argentina na época da Primeira Guerra. Há também índios e brasileiros entre os tipos que compõe o ambiente.

Trecho do conto O anão, de Veronica Stigger, a partir de Rumpelstiltskin

O anão estava na mesa da janela, ao lado da porta do restaurante, sentado numa cadeira alta, normalmente reservada às crianças. Com as perninhas balançando no ar e o bracinho curto e troncudo apoiado no parapeito, observava, distraído, o movimento da rua. Tinha o rosto redondo, de traços infantis. Não fosse o bigodinho fino e comprido, que ele fazia questão de enrolar nas pontas, dando um ar antiquado à sua aparência, poderia passar por um garoto – mas um garoto que quisesse parecer mais velho. Usava o cabelo escuro penteado para trás, com auxílio de gomalina, e se vestia como um fidalgo: calça, camisa e colete de cetim. Nos pés, pequenos e delicados, exibia sapatos de verniz vermelhos, nos quais não se percebia um único vestígio de sujeira, nem mesmo pó ou grão de areia. No pescoço, um colar de ouro com pingente de coração (por demais feminino) se sobrepunha ao colete, indo até o umbigo. Um anel com uma imensa esmeralda enfeitava o dedo médio da mão esquerda, a mesma que, naquele exato momento, se achava para o lado de fora da janela.
Ela, por sua vez, vinha pela rua movimentada trazendo uma mala enorme, xadrez, com rodinhas. Usava um véu todo trabalhado com fios de ouro, que lhe cobria o rosto e boa parte do vestido longo verde-água. Por conta disso, o anão não a reconheceu. Levou um susto quando aquela figura alta, de rosto coberto, se aproximou e lhe falou ao ouvido:
? Você se incomodaria de nos sentarmos numa mesa mais ao fundo?
Mas seu perfume (de jasmim) e sua voz (de locutora de rádio) eram inconfundíveis. O anão pulou da cadeira alta, inclinou o tronco ligeiramente para frente e fez uma mesura com a mão direita. Ela revirou os olhos, estalou a língua no céu da boca em sinal de impaciência e se dirigiu para a mesa mais afastada da janela, num canto escuro do restaurante.

 

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