‘As mulheres devem chorar… ou se unir contra a guerra’ inaugura coleção de textos feministas
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‘As mulheres devem chorar… ou se unir contra a guerra’ inaugura coleção de textos feministas

Antologia inédita de Virginia Wollf, 'As Mulheres Devem Chorar... Ou se Unir Contra a Guerra' é o primeiro lançamento da coleção éFe, da editora Autêntica; veja outros livros com textos escritos pela autora inglesa sobre a mulher

Maria Fernanda Rodrigues

08 de março de 2019 | 10h00

Virginia Woolf foi a escritora escolhida para inaugurar a éFe, a coleção de textos feministas da Autêntica. As Mulheres Devem Chorar… Ou se Unir Contra a Guerra – Patriarcado e Militarismo é o título da coletânea inédita da autora inglesa que chega às livrarias brasileiras para o Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março.

livro feminista

A escritora Virginia Woolf (Foto: National Portrait Gallery)

Com organização, tradução e notas de Tomaz Tadeu, tradutor de outras obras de Virginia Woolf (1882-1941) para a Autêntica, As Mulheres Devem Chorar… Ou se Unir Contra a Guerra – Patriarcado e Militarismo traz sete textos, entre contos, cartas, ensaios e palestras – alguns deles já publicados.

São eles: Uma sociedade, Profissões para mulheres, O poder criativo das mulheres, Carta introdutória a Margaret Llewelyn Davies, As Mulheres devem chorar… Ou se unir contra a guerra, Pensamentos sobre a paz durante um ataque aéreo e A vida da felicidade natural.

Profissões para mulheres, por exemplo, teve origem em uma palestra dada por Virginia Woolf em 21 de janeiro de 1931 para as integrantes do Junior Council (Conselho Juvenil) da London and National Society for Women’s Service (L&NSWS), criada para promover a causa do emprego das mulheres profissionais.

Um pouco desconfortável porque lhe foi pedido que comentasse sua experiência profissional (“É verdade que sou mulher; é verdade que tenho emprego; mas que experiências profissionais tive eu? É difícil dizer”), ela vai revelando sua visão sobre sobre seu ofício (“Escrever era uma ocupação respeitável e inofensiva. A paz da família não era perturbada pelo arranhar de uma pena. Não exigia nada das economias da família”) para expor suas ideias – sempre avançadas – que ela narra a partir de sua iniciativa de matar seu ‘Anjo da Casa’, que se colocava entre ela e a folha de papel (“Ela era intensamente compreensiva. Ela era imensamente encantadora. Ela era absolutamente altruísta. Ela se destacava nas difíceis artes da vida em família. Ela se sacrificava diariamente. Se havia uma galinha, ela ficava com o pé; se havia uma corrente de ar, sentava-se no local por onde ela passava – em suma, ela era constituída de tal forma que nunca tinha uma opinião ou vontade própria, sempre preferindo estar de acordo com a opinião ou a vontade dos outros. Sobretudo – não preciso dizê-lo – ela era pura”).

Matar o Anjo da Casa fazia parte do ofício de uma mulher escritora”

No final de sua fala, depois de contar até que comprou um gato com seu primeiro salário (“Para lhes mostrar o quão pouco mereço ser chamada de uma mulher profissional, o quão pouco sei das lutas e dificuldades dessa vida, devo admitir que, em vez de gastar aquela soma com pão e manteiga, aluguel, sapatos e meias, ou contas do açougue, saí e comprei um gato – um gato lindo, um gato persa”), ela diz:

“Mesmo quando o caminho está, em tese, aberto – quando não há nada a impedir que uma mulher se torne médica, advogada, funcionária pública – há muitos fantasmas e obstáculos, acredito, avultando em seu caminho. Discuti-los e defini-los é, creio, de grande valor e importância; pois apenas assim pode o esforço ser partilhado e as dificuldades, resolvidas. Mas, além disso, é preciso também discutir os fins e os objetivos pelos quais lutamos, pelos quais fazemos frente a esses terríveis obstáculos. Esses objetivos não podem ser dados como estabelecidos; eles devem ser perpetuamente questionados e examinados.”

Alguns dos textos publicados nesta coletânea têm relação com Três Guinéus, livro de 1938 em que Virginia Woolf desenvolve o argumento de que existe conexão entre masculinismo e militarismo, entre patriarcado e regimes ditatoriais. A obra também será lançada pela Autêntica, que desde que Virginia Woolf entrou em domínio público, em 2012, tem publicado, em edições caprichas, seus livros.

A coleção éFe é coordenada por Rafaela Lamas, Cecília Martins e a Guacira Lopes Louro.

As Mulheres Devem Chorar… Ou se Unir Contra a Guerra – Patriarcado e Militarismo
Autora: Virginia Woolf
(Autêntica; 160 págs.; R$ 49,90; Trad.: Tomaz Tadeu)

Outros livros de Virginia Woolf

Profissões para Mulheres e Outros Artigos Feministas (2012)
(L&PM, 112 págs.; R$ 14,90; trad.: Denise Bottmann)
Obra reúne sete ensaios de Virginia Woolf nos quais ela questiona a visão tradicional da mulher como “anjo do lar” e expõe as dificuldades da inserção feminina no mundo profissional e intelectual da época.

Um Teto Todo Seu (2014)
(Tordesilhas, 192 págs.; R$ 34,90; Trad.: Bia Nunes de Souza)
Baseado em palestras proferidas por Virginia Woolf nas faculdades de Newham e Girton em 1928, o ensaio Um Teto Todo Seu é uma reflexão acerca das condições sociais da mulher e a sua influência na produção literária feminina.

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