Após polêmica, curador do Prêmio Jabuti 2018 renuncia; leia a carta
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Após polêmica, curador do Prêmio Jabuti 2018 renuncia; leia a carta

Após discussões com Volnei Canônica, Luiz Armando Bagolin, que é ex-diretor da Biblioteca Mário de Andrade, pede demissão do cargo de curador do Prêmio Jabuti, o mais tradicional do mercado editorial que, nesta sua 60.ª edição, mudou sua estrutura e afetou, sobretudo, as categorias Infantil e Juvenil

Maria Fernanda Rodrigues

15 Junho 2018 | 15h10

Desde que anunciou sua reformulação, em maio, quando excluiu categorias e uniu outras tradicionais, como Infantil e Juvenil, o Prêmio Jabuti vem sendo alvo de debate – acirrado nesta semana com a publicação de um artigo do produtor cultural Volnei Canônica no site PublishNews, respondido, na próprio texto, por Luiz Armando Bagolin, curador do Jabuti, de forma considerada homofóbica.

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Luiz Armando Bagolin, curador do Jabuti, renuncia ao cargo (Foto: Camila Del Nero)

Nesta sexta-feira, 15, a Câmara Brasileira do Livro recebeu uma carta do curador pedindo o afastamento, em caráter irrevogável, de suas funções. Em nota, a CBL diz que “Bagolin renunciou ao cargo de curador com o intuito de evitar prejuízo ao Prêmio e à CBL, depois que um debate na internet sobre críticas à premiação tomou direção de natureza pessoal”.

+++ Prêmio Jabuti promove mudanças para tentar se manter relevante

Antes disso, importantes autores de livros para crianças e adolescentes e ilustradores já haviam se pronunciado contra o Jabuti, dizendo que não não iriam concorrer nesta 60.ª edição da mais tradicional premiação do mercado editorial.

A Câmara Brasileira do Livro não dá mais informações sobre o que acontece agora com a curadoria e as críticas referentes às mudanças feitas no regulamento este ano.

Confira a carta Luiz Armando Bagolin:

Toda mudança gera desconforto, e todo desconforto gera medo!

As mudanças que propusemos para o Prêmio Jabuti este ano têm gerado muita insatisfação dentro de grupos de autores e editores que antes eram acolhidos em nichos específicos para as suas respectivas áreas de atuação e para as suas produções. O Prêmio Jabuti, ao longo de 6 décadas foi ofertado pelo mercado editorial brasileiro para os profissionais do mercado editorial brasileiro. Alguns desses profissionais se acostumaram a estabelecer e a ditar as regras do jogo a fim de atender os seus próprios interesses. Acho isto um erro! O principal foco das mudanças propostas, neste ano, foi apresentar um novo formato de prêmio, mais enxuto, mais racional, sem atender as especificidades de cada setor, de cada gênero e subgênero, porque nenhum prêmio do mundo consegue sobreviver e ter relevância desse modo, por mais justo que seja lutar pelo específico e pelo amiúde naquilo que se faz cotidianamente em cada área do universo editorial. O foco, doravante seria o leitor! Aquele que é considerado o Nobel da literatura infantil, o Prêmio Hans Christian Andersen, que existe desde 1956, tem duas categorias apenas: “Melhor autor em literatura infantil e juvenil” (reparem, as duas juntas) e “ilustração infantil”. Não há que eu saiba atualmente nenhum manifesto ou mobilização de nossos autores, ilustradores e editores para que haja uma mudança no Hans Christian Andersen. Ao contrário deste prêmio, contudo, o Jabuti não é voltado exclusivamente seja à literatura infantil, seja à juvenil, seja à ilustração infantil. O novo prêmio Jabuti passou por diversas comissões internas da CBL, nas quais têm assento algumas das principais editoras de nosso país, além de entidades congêneres como a FNLIJ, braço do IBBY no Brasil (a organização que oferece o Hans Christian Andersen). NADA foi construído sozinho ou sem o consenso da maioria em todas essas comissões. Uma das manifestações contra o novo formato do prêmio foi publicada na forma de um artigo no último dia 11 de junho.Discordo das posições ali apresentadas, pois embora revele ter conhecimento das especificidades de cada gênero, do que é literatura infantil, do que é a juvenil (como se na CBL já não soubéssemos dessas diferenças) demonstra a mais completa ignorância de como é feito um Prêmio Jabuti, além de outras informações históricas incorretas. Não posso, como professor, deixar de corrigir alguém que afirma a existência do ‘Livro dos Mortos’, como exemplo de um “livro ilustrado”, “um dos mais antigos da humanidade”, ou qualquer coisa neste sentido. O ‘Livro dos Mortos’, egípcio, é uma invenção de um arqueólogo alemão do século 19. O conceito ‘ilustração’ também data deste século. Num mundo de muitas redes sociais, mas de pouca leitura, as pessoas compram facilmente o que corre nas redes por falsos especialistas. Mas o que realmente importa em minha divergência é alertar para o fato de que há indivíduos que estão agindo contra o novo projeto apenas para defender interesses pessoais e comerciais e não pela possibilidade de prestar uma colaboração desinteressada ao Prêmio Jabuti. Não tive condão de ofender! Penso, entretanto, que as discussões tomaram uma direção de natureza muito pessoal, infelizmente e injustamente, por ambas as partes, e o livre debate de opiniões ficou distorcido e prejudicado! Tenho sido insultado nas redes sociais por muitas pessoas que, ingenuamente, estão sendo manipuladas por poucos indivíduos. Não admitem ofensa, mas são rápidas e eficientes em multiplicar a infâmia. São “politicamente corretas” aos se defender, mas se esquecem de toda cordialidade e gentileza, com a qual desejam ser tratadas quando querem atacar! Não é possível debater nestas condições. Portanto,para que não haja nenhum dano ao Jabuti ou à Câmara Brasileira do Livro, apresento aqui, e em caráter irrevogável, a minha renúncia à curadoria do Prêmio Jabuti de 2018. Não é possível prosseguir, sem liberdade de pensamento e sem autonomia de condução dos princípios que foram desenhados para sustentar o novo projeto. Quero agradecer a confiança e o apoio que me foram dados pela Diretoria da CBL, pelo Conselho e pela Organização do Prêmio Jabuti, durante todo este período, e desejo toda sorte e sucesso para o Jabuti. Como disse Guimarães Rosa, “A vida é assim, esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

Com gratidão,

Luiz Armando Bagolin