‘A memória que a sociedade brasileira tem da ditadura militar é difusa’, diz Bernardo Kucinski
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‘A memória que a sociedade brasileira tem da ditadura militar é difusa’, diz Bernardo Kucinski

Autor de 'K.' e de 'Você Vai Voltar Para Mim', jornalista fala sobre seu novo livro, 'Os Visitantes', o luto, a literatura e a situação do Brasil hoje

Maria Fernanda Rodrigues

14 Julho 2016 | 16h11

Bernardo Kucinski

(Foto: Daniel Teixeira/Estadão)

Em novembro de 2011, logo após a criação da Comissão da Verdade, o Sabático publicou uma grande matéria sobre livros que retratavam a ditadura militar no Brasil (leia aqui). Estava saindo pelo menos uma dezena de títulos sobre o período. Entre tantas não ficções, havia uma novela, que chamou a atenção porque um momento tão duro da história como foram os anos de chumbo era, raramente, tema de obras de ficção (depois disso foram lançados alguns romances).

Foi aí que entrevistei o jornalista Bernardo Kucinski pela primeira vez, autor da então recém-lançada novela K. Relato de Uma Busca, sobre o esforço de um pai em encontrar a filha, militante política, desaparecida durante a repressão. Uma ficção, sim, mas baseada na história da família do autor.

Conversamos outras vezes – uma delas entre tropeços nas pedras de Paraty, nos 50 anos do golpe militar, quando ele foi convidado a falar na Flip (leia aqui) e outra na Feira de Frankfurt (K. estava começando a ganhar o mundo; hoje, já foi traduzido para oito línguas e caminha para a nona).

Na segunda passada, 11, por causa do lançamento de Os Visitantes, obra que faz uma reflexão acerca das reações, boas e más, despertadas por K., conversamos longamente sobre diversos assuntos. Na hora de escrever, acabei focando – pela limitação do espaço e do tempo, e também porque foi assim que saiu, como disse o autor na entrevista e no livro, mais na relação dele com a irmã mais nova, vista pela última vez aos 32 anos.

A matéria saiu nesta quinta-feira, 14, no Caderno 2: Bernardo Kucinski reflete sobre ‘K.’, a ditadura, a culpa, o luto e sua irmã desaparecida

 

A seguir, um pouco mais da conversa:

 

Brasileiros, nas ruas, pedindo a volta dos militares
“Elas não sabem o que estão pedindo. A ditadura, no Brasil, afetou um segmento específico da população. A grande maioria viveu o milagre econômico. A memória que a sociedade brasileira tem da ditadura militar é difusa. Tenho pena de alguns e nojo de outros.”


O Brasil hoje

“Ouvi uma entrevista interessante do Fernando Haddad em que ele fala sobre o gigantesco retrocesso que estamos passando. E ele disse que o povo vai ser a principal vítima, que as pessoas ainda não se deram conta e que ele teme que não se darão conta a tempo. Achei interessante. Mas sinto o mesmo estupor que o resto do povo com a dimensão que a corrupção alcançou e como ela era a regra dominante. Agora, à medida que a poeira vai baixando, percebemos que isso foi instrumentalizado de forma muito eficiente para um assalto ao poder, para uma neutralização e até reversão das políticas de inclusão social. Esse vai ser o preço.

Mas não se trata de uma coisa só brasileira. Você nota essa tensão na Espanha, Portugal, Inglaterra. Minha impressão é que existe uma força meio metafísica, como se fosse o capital financeiro, que não tem cara. Uma força que quer destruir todas as garantias trabalhistas que se acumularam na época do capitalismo industrial: a jornada de 8 horas, as férias remuneradas, o contrato de trabalho. Uma política para eles não só dispensável, mas um empecilho. No Brasil isso assumiu esse colorido ligado à corrupção, à hipocrisia do PT, mas, na verdade, a essência do fenômeno é esse terremoto do capital especulativo. As pessoas não interessam mais.


Jornalismo X literatura

“Eu escrevia muito bem matéria jornalística, mas fazer literatura era uma coisa muito diferente. Senti uma certa deficiência e acho que hoje estou escrevendo muito melhor que quando fiz o K. Mas achei muito gostoso ser escritor. Não preciso me sustentar com isso. Estou aposentado, meus filhos estão criados, tenho uma renda mínima que dá para viver razoavelmente bem. Seu eu fosse um sujeito de 30 anos e quisesse ser escritor seria muito sofrido. Comigo não. Escrevo na hora que quero, tomando meu vinhozinho à noite. Escrevo, vou ao cinema, escrevo mais. E por ter começado tão tarde é como se fosse uma sobrevida.”


Luto

“O desaparecimento tem um componente de maldade e crueldade. Você não enterra o corpo, não faz o luto, não dá por encerrado. Vai mudando a forma da dor, mas aquilo fica sempre.”


Arrependimento

“Adotei, no K., a seguinte decisão: dos torturadores, dos filhos da puta, dei o nome. Se quiserem briga, eles que venham brigar. Os personagens que podem aparecer sob uma luz negativa e que não são centrais, dei uma disfarçada. Crio atributos que não permitem identificá-los. Mas tive problemas com um personagem a quem chamo de Mané. Ele me procurou muito chateado. E eu fiquei muito chateado. Ele tinha razão. Eu não precisava. Acho que fui descuidado, mas saiu daquele jeito. Foi isso o que eu disse para ele.” Neste caso, o personagem que, sob tortura, entregou alguns companheiros, aparece com algumas credenciais que o identificam.


Dica de filme
Botão de Pérola:

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