A arte do ensaio por dois ilusionistas
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A arte do ensaio por dois ilusionistas

Maria Fernanda Rodrigues

07 de julho de 2013 | 18h20

Paulo Roberto Pires, Geoff Dyer e John Jeremiah Sullivan (Foto: Felip Rau/Estadão)

Antonio Gonçalves Filho
ENVIADO ESPECIAL / PARATY

A arte do ensaio moderno tem pouca relação com a forma tradicional do gênero. De Montaigne ao norte-americano John Jeremiah Sullivan e o inglês Goeff Dyer existe não só um abismo de séculos, mas de conceitos. Os dois participaram ontem da penúltima mesa de debates da 11º Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que teve como mediador Paulo Roberto Pires, editor da revista Serrote. Os dois concordaram que o ensaio é o gênero que mais funciona entre amadores, justamente por exigir do autor um compromisso menor com o rigor acadêmico e permitir a ele maior liberdade criativa.

Dyer, por exemplo, acaba de lançar pela Companhia das Letras, mesma editora de Sullivan, o livro Todo Aquele Jazz, em que recria a vida de grandes músicos como Lester Young, romantizando um pouco sua dramática trajetória, que acabou num hotel barato. Já Sullivan, que também escreve no livro Pulp Head sobre um músico, o pop Michael Jackson, entre outros temas, o faz menos como um romancista e mais como jornalista, embora tenha dito que se sente confortável nesse espaço entre ensaio e ficção.
Tipicamente, observou Dyer, os melhores ensaios (e ele não está falando de gente como Susan Sontag e Gore Vidal) “partem da ignorância total sobre o assunto para a descoberta, um processo epistemológico em que ela ajuda mais que o saber tudo a respeito do tema, caso de eruditos como Gore Vidal e Christopher Hitchens”. Dyer, cujo modelo assumido de ensaísta é John Berger, admite que seu Todo Aquele Jazz foi produzido como um improviso, de forma experimental. Ele comparou-o ao teste que mineiros fazem com canários para ver se sobrevivem ao gás subterrâneo, antes de entrar nas minas.

Essa história de mineiros levou a discussão para o território da política, fazendo com que Dyer evocasse o nome de George Orwell, que se assumia como panfletário. Já Dyer disse não ter “nada político” para exprimir em ensaios. Tampouco Sullivan que, mesmo tendo escrito sobre o Tea Party, não vê a possibilidade de se alinhar a Orwell e Hitchens. É mais certo que ele se assuma como ficcionista no futuro.

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