O bom e velho Will Shakespeare, mas em russo

O bom e velho Will Shakespeare, mas em russo

João Wady Cury

04 Outubro 2018 | 14h45

Peça montada pelo Cheek by Jowl, “Meaasure by Measure”. Foto de Johan Persson

 

Ânimos em polvorosa em Washington e Nova York com a estreia da nova montagem da companhia Cheek by Jowl de Medida por Medida (Measure by Measure), do bom e velho Will Shakespeare. Visualmente impactante, a peça é falada em russo. Não é para qualquer um. Os diretores britânicos da companhia, Declan Donnellan e Nick Ormerod, levaram a Londres, há seis meses, a peça Péricles, Príncipe de Tiro, do bardo, em francês – e sacolejaram os alicerces britânicos. Medida por Medida fica semana que vem em cartaz, de 10 a 13, em Washington, no Kennedy Center. Depois segue para NY, onde é apresentada no Brooklyn Academy of Music, de 16 a 21 de outubro. Não acabou. Tem muito mais de onde saiu isso.

PARIS NÃO ESCAPA

A sanha da dupla britânica não para por aí. Está na mira, com estreia prevista para 16 de janeiro, no teatro Les Gémeaux, em Paris, a montagem de The Knight of the Burning Pestle, do britânico Francis Beaumont (1585-1616). Desista, não será em inglês, nem em francês. Repeteco em russo. Abril, o destino é Madri.

TALVEZ NÃO ESCAPEMOS

Mas por que toda essa relevância sobre uma companhia britânica que monta peças em inglês, francês, russo e sabe-se lá qual idioma mais? Simples, quase banal. A língua não pode ser uma barreira enquanto a discussão de mérito se impuser. E no caso de Beaumont, também dramaturgo e contemporâneo de Will – mas ceifado do bem-bom aos 30 -, a coisa pega em outro lugar. O Cavaleiro do Pilão Ardente, em tradução livre, leve e solta, traz questionamentos capazes de arrepiar progressistas e conservadores sobre a função da arte e a quem se destina. Sim, afinal, para que serve a arte? Tem uma função? Ou melhor, usemos o resfolegante tutano: quem disse que a arte precisa ter função? Segundo a dupla de Cheek by Jowl, a peça já era um incômodo latente há 500 anos, quando chegou aos palcos, em 1607, momento crítico da sociedade inglesa e, de todo, da europeia. Como hoje, o teatro sofria na época um emparedamento popular e das autoridades, mais e mais hostis à arte e à cultura. Sim, sempre a sombra de censores e fanáticos religiosos. O que só prova que a estupidez humana é um bumerangue que sempre volta, impiedoso, e com o tempo não se perde pelo caminho. O horror, o horror.

 

A VIDA É MAIOR

Claro, o horror. Mas tudo passa. Passa por cima da gente, por vezes, noutras passa para o ostracismo e fica relegado ao passado. Ainda que demore. Temos alguns mortos-vivos que provam isso ainda hoje, esgueiram-se pelas sombras, mas nada são, nada deixaram, nada deixarão – a não ser risos nos outros. A arte, com isso, é fiel companheira, e sua irmã caçula e polêmica, chamada ficção, é a salvação para sonhar o invisível. Não é à toa que educação e cultura são a base de tudo. Daí quando você distrai, vem o homem e, em sua serenidade acachapante, articula uma ideia de desancar. “É uma brutalidade social fazer com que uma pessoa cresça e viva sem ter capacidade de ler Machado de Assis e Dostoievski. É uma privação, mutilação.” Viva Antônio Cândido, pobre dos mutilados.