Koffi Kouahoulé chega ao Brasil para falar sobre o personagem enquanto sonoridade no teatro

Koffi Kouahoulé chega ao Brasil para falar sobre o personagem enquanto sonoridade no teatro

João Wady Cury

31 de outubro de 2019 | 12h58

 

O escritor Koffi Kouahoulé, em retrato de Yazid Lakhouache

 

 

Nascido na Costa do Marfim, na África, mas vivendo na França há tempos, o dramaturgo Koffi Kouahoulé (também grafado como Kwahulé) traz a São Paulo, onde chegou esta semana, um teatro com mais de 30 peças escritas sempre fundamentado na oralidade, ponto forte na tradição africana. Fará uma oficina para dez sortudos, no fim de semana, no Sesc Belenzinho, onde está sendo exibida uma de suas peças, Big Shoot, com direção de Janaína Suaudeau. Abordará a personagem como sonoridade e não como arcabouço psicológico. Ele falou ao ESTADO pouco antes de embarcar.

 

. Como o senhor define seu teatro?

É difícil dar uma definição normativa do teatro porque, como arte baseada na vida, sua definição varia de acordo com as sociedades e os tempos. Por exemplo, na África, não esperamos um teatro como a Europa. Mas, para não dar a impressão de roubar sua pergunta, eu diria que meu teatro tenta propor uma cerimônia durante a qual uma comunidade, simbolizada pelo público, começa a compartilhar suas ansiedades de morte, mas também seus impulsos de vida.

 

. Seu teatro é baseado em uma das estruturas mais poderosas da dramaturgia: a oralidade. Poderosa que a oralidade une tradição e identidade. O que a oralidade nos dá que outras dramaturgias não têm?

Acredito que a oralidade nos leva de volta à raiz do teatro. O teatro, se nos referimos ao significado grego, é onde o vemos. Mas o que é dado para ver é a palavra. O instinto oral permite que a fala seja uma ação, um drama. Muitas vezes confundimos oralidade com os sinais do oral, como a narrativa, a linguagem popular, banalidades. Para que o discurso seja dramático, é aconselhável colocar o personagem em outro aqui e agora. Enfim, é definido como “oralidade” no teatro. O que importa é o que acontece com o personagem (o comediante falante) aqui e agora fora da narrativa focal. É essa presença urgente que torna possível falar e faz do teatro o lugar onde vemos mais a palavra do que a ouvimos. Sem essa oralidade, a palavra permanece, na melhor das hipóteses, um puro virtuosismo decorativo.

 

. É sua estreia no Brasil, um país povoado pelos índios antes da invasão portuguesa. Eles também eram, se assim posso dizer, especialistas em oralidade. Há planos de visitar alguma vila indígena no país?

Não tenho intenção de visitar uma vila. Quando eu morava na África, achei obsceno que as pessoas viessem de ônibus para visitar as aldeias. Eu prefiro conhecer pessoas, interagir com elas do que visitar uma vila.

 

. Além de assistir suas peças, quais são seus projetos no país?

Vou ministrar uma oficina de redação teatral sobre o personagem como som, ou seja, não o abordarei como um tecido psicológico, mas como um dado sonoro, uma linguagem.

 

 

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