Você é um músico feliz?

Você é um músico feliz?

Alvaro Siviero

29 de janeiro de 2019 | 15h02

Katelyn Ohashi é uma estrela da ginástica artística americana. Ainda muito criança já fazia seus saltos mortais de causar vertigem, em treinos intermináveis, na mais pura alegria. Um mix de talento e determinação, um convite a integrar o “golden team” de elite dos USA, a sagração como campeã no American Cup (destronando o atual fenômeno Simone Biles), entre outros, fizeram dela um símbolo nacional. “Eu era imbatível. Eu estava no topo do mundo”.  Até que tudo ruiu.

A fratura nos ombros e outra nas costas foram o álibi para tomar uma séria decisão: largar a ginástica. O fator decisivo, no entanto, foi bem diferente: um mix de perda de sentido diante de tantas pressões, críticas invejosas e olho gordo de muitos. “Ninguém sabia o que realmente ocorria dentro de mim. Eu estava feliz por estar machucada. Alguns chegaram a afirmar que havia sido constrangedor o quão longe eu havia chegado. Muitos criticavam até mesmo a comida que eu gostava. Chamavam-me de gorda. Houve um momento em que não fui mais”. E desabafa: “Aquela garota que você pensa que tem tudo, com todas aquelas medalhas no quarto, os pódios alcançados … na realidade não tinha nada”.

Anós após, na Universidade, decidiu resgatar aquele prazer que a dominava quando criança, e que havia perdido. Em que lugar? Na própria ginástica. Foi essa mudança de paradigmas (sempre consequência de reflexões mais profundas) que a ajustou. Ainda hoje há quem a chame de gorda ou que a técnica que possui não é perfeita,  mas sua motivação encontrou raízes mais sólidas, com o inegável resultado de ter se encontrado como pessoa e de estar arrastando uma legião de amigos que a consagram a cada dia, que torcem por ela. Hoje, Katelyn é pura alegria, seus vídeos com suas performances solares viralizam nas redes sociais, canais de televisão não se cansam de chamá-la para entrevistas e suas “concorrentes” alegram-se ao vê-la tão feliz. Como apaixonado pela ginástica artística que sou – pratiquei por muitos anos – senti-me especialmente tocado ao conhecer esse relato.

Como em tudo na vida, os desafios do mundo musical não são diferentes. Muitos incautos e desavisados, em busca de um lugar ao sol e sucesso (o que é sucesso?), apelam aos mais questionáveis recursos, arriscam o sentido da própria vida e deixam escapar tantas possibilidades por deixarem-se levar por este jogo de interesse e pseudo-sucesso. Lembro-me de uma divertida situação (hoje divertida, no momento chocante) em que, faz poucos anos, em importante sala de concerto, assistindo a um pianista brasileiro que se apresentava, fui indagado por uma pessoa sentada ao meu lado: “Alvaro, o que você faz aqui? Você veio aplaudir seu concorrente?”. Fiquei calado e não respondi, somente sorri. Outras vezes, uma carência de tipo afetiva – entenda-se imaturidade –  conduz a situações de busca de spot de luz, como ocorreu recentemente com a aniversariante que, em sua rede social, escreveu: “Hoje é meu aniversário e pediria a gentileza de separarem alguns breves minutos para me parabenizar”. Seria cômico se não fosse trágico.

A máquina que constrói os vitoriosos do meio musical é a mesma que os destrói em muito pouco tempo. E a hecatombe pode ocorrer quando, por despreparo pessoal, depositamos o sentido do nosso trabalho artístico nos outros. Há diversos nomes de diversos músicos extremamente qualificados com quem travo uma relação de verdadeira amizade (muitos deles solistas das mais importantes orquestras internacionais) e que são bastante desconhecidos (ou totalmente) do público brasileiro. Não fazem “sucesso” por aqui dado que sucesso é resultado, em grande parte, de lobby. Felicidade e alegria não são resultados de um reconhecimento externo, mas de um encontro íntimo com o que, de fato, nos preenche. Recursos de auto-promoção das redes sociais, a busca de bajulação (muitas vezes encontrada naqueles que não entendem nada -ou quase nada- de música), planos de êxito e uma certa obstinação em querer ver o próprio nome em páginas de jornal ou revistas “especializadas” é o que revela a razão da real ausência de alegria: a falta de um ajuste íntimo. Não somos músicos para provar nada a ninguém, somos músicos pois a música nos faz feliz.

Deparei-me com pessoas dotadas de talento evidente e que afirmam não querer se dedicar à música dada as dificuldades do mercado e da competição feroz. Para essas pessoas digo de peito aberto: se você tem talento e determinação, persiga o seu sonho e viva a sua vida. Espaço há para todos aqueles que querem ser felizes. Basta querer. Não faça muitos planos, pois a vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos. E a felicidade verdadeira é uma porta que somente pode ser aberta por dentro: a porta do coração.

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