Uma desilusão amorosa em forma de música: o Concerto n.2 para piano de Liszt

Uma desilusão amorosa em forma de música: o Concerto n.2 para piano de Liszt

Alvaro Siviero

29 de maio de 2019 | 16h34

Franz Liszt escreveu seu Concerto n.2 para piano e orquestra em lá maior S.125, em 1839, aos 28 anos de idade, no mesmo ano em que chegava ao fim sua relação amorosa com a Condessa D’Agoult, que havia durado quatro anos, bastante atribulada e que havia gerado muito falatório. Ela, uma nobre, casada e que havia arriscado sua estabilidade familiar para uma aventura que deu no que deu, foi uma das muitas mulheres que disputou o carisma e a beleza do compositor e pianista teuto-húngaro. Liszt era o carisma musical e estético em forma de pessoa. Não à toa era conhecido como Don Juan. Mas, como na vida de tantas outras beldades, um dia a juventude se esvai, a forma física decai, rugas e alguns quilos arranham o que era para ser pura beleza e, no final das contas, o que realmente fica são as qualidades da alma, os valores e a beleza de um coração repleto de verdadeiro amor.

Como todo final de relação, um mix de lembranças, remorsos, ressentimentos e nostalgia certamente pairavam sobre a alma do compositor quando iniciou os esboços deste capolavoro. A obra, revisada algumas vezes,  foi definitivamente publicada em 1861. Seu início, espacial e um tanto sem rumo, revela a confusão que se apoderava do coração de Liszt, musicalmente representado por arpejos que se transformam e se alteram sem parar, como em um turbilhão, a cada segundo, e tudo em questão de segundos: lá maior, fá maior, si maior, mi maior, fá sustenido menor (1:45 a 2:30). A entrada agressiva do piano em 2:40 mostra um pouco do conflito, mais do que lirismo, que pairava como resultado dessa relação. Após esse desabafo, a dúvida conflitante retorna (2:55 a 4:00). Um dos momentos mais líricos da obra, em minha opinião, em que alguma lembrança de algum bom momento ocorre – se é que podem ser chamados de bons, dado seu teor melancólico e ressentido –  encontra-se entre 11:00 e 12:15.

Com a participação da Filarmônica UFRN, sob regência do maestro canadense Jean-François Rivest, tive a alegria de recriar esta obra no último final de semana para uma plateia entusiasmada e ávida de boa música. As duas apresentações ocorreram no auditório da Escola de Música da UFRN, em Natal. Após uma breve abertura realizada pelo diretor artístico da orquestra, o maestro André Muniz que, diga-se de passagem, tem realizado através desta orquestra um profundo trabalho de resgate no Nordeste brasileiro, os primeiros acordes começaram a soar para uma plateia atenta. Sim, muita música e muita coisa está acontecendo em regiões distantes do eixo São Paulo – Rio de Janeiro – Minas Gerais, objetos frequentes de cobertura de uma mídia um tanto tradicionalista e parcial. Os verdadeiros heróis da resistência musical não se encontram em ambientes fechados e protegidos. Encontram-se no fazer musical por esse Brasil imenso.

Como em toda relação, a obra – finalizada no ano seguinte, em 1840 – mostra em seu final o esperado: que toda a avalanche de paixões confusas havia se tornado passado. Vida que segue. Fica somente a lembrança.

Abaixo, o vídeo deste momento. Espero que desfrutem.

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