Um violoncelista inquieto

Um violoncelista inquieto

Alvaro Siviero

20 de novembro de 2015 | 20h19

Nederland, Den Haag, 3 juli 2011 Karel Bredenhorst Foto: Merlijn Doomernik

Nederland, Den Haag, 3 juli 2011
Karel Bredenhorst
Foto: Merlijn Doomernik

Os parâmetros mudaram. O artista dos dias de hoje vai à labuta. Aquele papo de ficar em casa esperando o telefone tocar não existe mais. O negócio é sair a combate, vender a própria arte (o que é muito diferente de auto vender-se) e criar, com toda dose de inventividade, possibilidades que agreguem valor cultural.  A regra vale para todos: desde o último músico contratado em uma orquestra até o maestro que já viu sua foto estampada nas páginas de um jornal. A figura do músico prima-dona desapareceu. Os tempos são outros.

Foi assim que deparei-me, quase que por acaso, com o violoncelista holandês Karel Bredenhorst. Começamos a conversar e surpreendi-me com tamanha efusão de ideias, pro-atividade e otimismo. Este gene combativo teve suas raízes, acredito eu, com seu pai, Wim Bredenhorst, fundador da orquestra juvenil Viotta Jevgdorkest situada em sua cidade natal Der Haag. Foi nesta orquestra que conheceu o violoncelo. Desde então, o som de seu instrumento tem se espalhado pelos 4 cantos do globo: Inglaterra, Estônia, Alemanha, Suíça, Áustria,Itália, USA, Ioguslávia, Espanha, Nepal, entre diversos outros países, seja como camerista, como solista, como professor de diversos festivais, como membro de seu Cello Octet ou como fundador e diretor artístico geral do Cervo Chamber Music (Itália). Além de suas atuações no exímio grupo Spira Mirabilis (um time de feras que tomou a decisão de apresentar-se sem a necessidade da figura de um maestro) dedica-se, em seus tempos livres, ao Quarteto Soltango, onde divide sua musicalidade em uma de suas maiores paixões: o tango.

Recentemente tive a oportunidade de dividir o palco com este inquieto e instigante músico, na cidade de São Paulo. “Na Europa, o artista é responsável por praticamente tudo, desde cuidar de seu próprio marketing, de sua administração e implementação no mercado. O contato direto com o artista é extremamente necessário. Hoje, através das redes sociais, todos falam com quem querem, transformando a figura do agente em algo pouco funcional. O artista dos dias atuais possui 2 trabalhos: ser músico e vender sua arte”, dispara Bredenhorst. “Em meu país as salas de concerto estão envelhecidas. Rejuvenescer o público é outra de nossas múltiplas missões. Quando um jovem entra em uma sala de concerto, por ser entusiasmado com coisas belas e com a novidade, fica cativado. A experiência mostra isso. E faz parte, também de nosso trabalho, encontrar formas de criar esse interesse.Temos que reverter esse quadro”, complementa Karel Bredenhorst. Com este intuito, Bredenhorst teve a iniciativa de tirar uma série de fotos que ele denomina flying pictures. “Um cartaz com fotos minhas neste formato já tirou o preconceito de muita gente que achava que, para se ouvir música de concerto, precisamos voltar para o século 18”.

Nederland, Amsterdam 7 augustus 2013 Karel Bredenhorst en de vliegende cello Foto: Merlijn Doomernik

Nederland, Amsterdam 7 augustus 2013
Karel Bredenhorst en de vliegende cello
Foto: Merlijn Doomernik

Durante os dias em que esteve no Brasil conversamos muito sobre o futuro da música de concerto. “O brasileiro é um povo aberto, de grande coração: as pessoas nas ruas sorriem, estão abertas a ajudar, conversam com você mesmo não te conhecendo muito bem (ou nada). Vejo como, aqui no Brasil, a música tem essa facilidade de comunicação: o povo brasileiro é comunicativo. Trata-se, em meu ponto de vista, de investir na criação de raízes que tragam a tradição que temos na Europa em maior quantidade, por estarmos em um continente mais antigo. Vale o esforço: Música é o meio mais direto de comunicar-se e conectar-se com as pessoas ao nosso redor”, finaliza.