Um momento de sufoco!

Alvaro Siviero

06 de novembro de 2011 | 21h41


Não faz muito tempo, após bem sucedido concerto com a Budapest Chamber Orchestra, em Florianópolis, a BCO e eu – solista da turnê – nos dirigimos ao aeroporto desta cidade rumo a Santiago, local de nossa próxima apresentação. Os organizadores, responsáveis pela emissão e escolha dos horários de vôos, já nos haviam comentado que o tempo seria exíguo durante a escala que faríamos no aeroporto de Guarulhos, rumo ao Chile. Confesso que quando olhei os bilhetes com os horários enviados dos vôos hesitei… exiguidade de tempo é uma coisa, impossibilidade é outra, mas nos disseram que, teoricamente, tudo daria certo: bastaria sermos ágeis no transfer.

Ainda de madrugada chegamos ao aeroporto de Florianópolis, obviamente cansados pelo concerto do dia anterior.  O entusiasmo pelo próximo concerto que faríamos naquele mesmo dia, em Santiago, às 19:30h, criava a energia que as poucas horas de sono haviam retido. No entanto, o atraso na saída do vôo em Florianópolis e o intenso tráfego aéreo em Guarulhos, entre outras variáveis, fizeram com que, na prática, acontecesse o que eu temia e que, de certa forma, já havia alertado: perdemos a conexão.

Como eu era o único que falava português, atendia em meu celular as chamadas inquietas e frequentes da organização central, que estava em Nova York e transmitia a informação às pessoas do balcão da empresa aérea. Eu tentava, simplesmente, ajudar. Esqueci-me de meu papel de solista convidado. Corri de um lado a outro do aeroporto de Guarulhos: Lan, Pluna, TAM, Aerolineas Argentinas, enfim, todas as companhias nos alertavam que seus vôos estavam encerrados. Já perto das 10h da manhã, compreendendo a gravidade de nossa situação, uma das companhias aéreas nos conseguiu a quantidade exata de lugares que precisávamos em um vôo que nos levaria a Santiago, mas com escala em Buenos Aires. De modo atabalhoado, embarcamos. Nossas malas e instrumentos musicais foram despachados. Obviamente, em Buenos Aires, ficamos todos ao lado do portão de embarque para Santiago, sem nos mover, talvez como um reflexo inconsciente ao drama que havíamos vivido poucas horas antes.

Por fim, chegamos a Santiago. Tudo era felicidade.  Tínhamos atingido o objetivo. Após diversos minutos diante da esteira, esperando nossas malas, tive a iniciativa de perguntar a um funcionário do aeroporto qual o porquê de tamanha demora. Ele me respondeu, com naturalidade: “Todas as malas deste vôo já foram entregues!”. Imediatamente tomei conhecimento de que algo grave havia ocorrido. Alguns dos músicos, que não entendiam uma palavra de castelhano, e que estavam ao meu lado,  ficaram assustados ao ver a expressão que fiz. Fiquei como que anestesiado. Inexplicavelmente, sem motivo para isso, minha reação foi a de dar uma sonora gargalhada, que acabou por contagiar os outros. Além disso, sem as malas,não tínhamos roupa apropriada para nos apresentar: teríamos que nos apresentar com a roupa do corpo. Muitos estavam de jeans, camiseta, tênis… E mais: como retornaríamos cada um ao seu país de origem se não sabíamos o que ocorreria com nossas malas?

Foi neste momento que decidi sair para a ala exterior do aeroporto buscando encontrar alguém da organização local que, pensava eu, já deveria estar nos aguardando com certa intraquilidade, dado o atraso que toda esta saga provocou. Não encontrei ninguém. Talvez a longa espera, pensei comigo, fez com que quem nos esperava tomasse a decisão de ir a algum outro local, com o intuito de nos encontrar. Foi nesse momento que também me dei conta de que se as malas não chegaram, os violoncelos também não: tudo estava perdido em algum vôo ou aeroporto deste mundo afora. Como faríamos o concerto sem os instrumentos? Eu me via cada vez mais imerso em um problema que não era meu! Dei-me conta também de que a organização chilena ainda não tinha conhecimento de nada, e faltavam menos de 2 horas para o concerto.

Corri a um terminal de internet, busquei o telefone da sala de concertos e telefonei ao teatro avisando o que acontecia. Já eram 17:30h. Estávamos ainda no aeroporto, sem malas e sem instrumentos. Ao retornar ao saguão principal de desembarque, encontrei-me com alguns dos músicos que, com certo desespero, me requisitavam urgentemente a “reentrar” na ala interna do aeroporto, pois a Polícia Federal havia, além disso, barrado dois músicos da orquestra.  Eu lhes dizia que isso seria impossível, dado que eu já havia saído para a ala externa. Disseram-me que esses músicos, inadvertidamente, tinham levado algumas frutas em suas bagagens de mão e a vigilância sanitária local havia apreendido seus passaportes. Os músicos não sabiam se comunicar em castelhano e os funcionários do aeroporto, por sua vez, não entendiam o inglês… e muito menos o alemão ou o húngaro! Tentei fazer o meu melhor e, quando tudo se resolveu, eram 18:35h. Chegamos todos ao hotel 50 minutos antes do início do concerto. Na região central de Santiago, corri a uma farmácia para comprar shampoo, sabonete, creme de barbear, creme dental, entre outros. Enfim, a vida como ela é.

Quinze minutos antes do início do concerto saímos em direção ao teatro. Obviamente não haveria tempo para nenhum ensaio no local e nem sequer para conhecer o piano onde, dentro de poucos minutos, eu estaria solando em importante temporada internacional de concertos da cidade. Cansaço, poucas horas de sono, stress de toda a situação e tensão pelos violoncelos que haviam sido alugados mas que não chegavam… essa era a perspectiva. Recordo-me de um funcionário do teatro oferecendo-me seu paletó para que eu o utilizasse. Aceitei. Por sorte, eu estava viajando em trajes mais clássicos, o que ajudou. Mas não sabia qual seria a reação da elegante platéia chilena, que lotava o teatro, ao ver algumas das pessoas da orquestra entrando de jeans, tênis e camiseta no palco, e outros com camisa de flanela e chinelo…

A organização do evento dirigiu-se ao microfone e explicou, no que foi possível, a situação, comunicando que nos apresentaríamos em trajes informais. A platéia, em uníssono, iniciou um estrondoso e caloroso aplauso manifestando sua adesão e compreensão com toda a situação. Paradoxalmente, atrevo-me a dizer que, de todos os concertos da turnê, esse foi o melhor, sem sombra de dúvida. Arrisco a dizer que foi, musicalmente, um dos melhores concertos que já fiz.

Durante todo aquele desespero, pude observar diversas atitudes.Convenci-me de que o temor acaba criando aquilo que se teme, e que a visão triste e pessimista de alguns – até compreensível – inibiu a capacidade de decisão dessas pessoas, diminuiu a sua coragem e embotou a visão para que pudessem ser capazes de analisar os fatos com maior isenção. O pé-frio existe. Mas existe também o pé-quente, pessoas com uma disposição aberta para a vitória. Qual foi a lição mais importante de todas? De que a importância de uma fato – grave ou menos grave, para o bem ou para mal – depende mais da reação que temos diante dele do que dele em si. Os fatos ganham a dimensão que damos a eles. Somos nós quem valoramos – e muitas vezes de forma errada – a importância relativa dos acontecimentos. Vi com meus próprios olhos que a mesma dificuldade que afundava e deprimia algumas pessoas transformava outros em líderes. O desafio, portanto, está em nós, e não no obstáculo em si.

Ah, e quando retornamos ao hotel todas as malas já haviam chegado…

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