Um grito de Beethoven ao mundo

Um grito de Beethoven ao mundo

Alvaro Siviero

30 de outubro de 2014 | 10h15

O sofrimento, muitas vezes, não é o problema. O problema está no modo como o encaramos. Há aqueles que se deprimem, cheios de desmotivação. Há outros que se fortalecem, transformando-se em gigantes de liderança e decisão. Estes amadurecem. Aqueles azedam.

Beethoven é o segundo filho de uma família de sete irmãos. O primeiro deles, assim como o quinto, sexto e sétimo faleceram. Detalhe: antes que falecesse o último dos filhos, faleceu sua mãe. Nestas circunstâncias, aos dezesseis anos de idade, Ludwig van Beethoven transforma-se em arrimo de família, cuidando de seus dois irmãos menores sobreviventes, Kaspar e Nicolaus. O sonho de empreender sua carreira musical em Viena teve que ser postergado. O pai, um alcoólatra inveterado, criou com o passar dos anos uma espessa crosta de separação com os filhos. Como se já não bastasse, poucos anos após, para este grande compositor que deveria ter a audição como referência absoluta de perfeição, inesperadamente, vem a surdez. E é em Heiligenstadt, um subdistrito de Viena, belo e arborizado, que Beethoven encontra a solidão necessária para se esconder de todos, para absorver esse novo drama e, acima de tudo, para verter sua alma em uma de suas páginas mais emocionantes já escritas: o Testamento de Heiligenstadt.

Escrito em 06 de outubro de 1802 aos seus dois irmãos menores, esta carta ficou guardada em sua escrivaninha, nunca tendo sido enviada aos destinatários. Faz poucas semanas estive nesta casa, hoje um pequeno museu. E foi ali que, sentado em um banco, li com vagar esse desabafo dramático de um ser humano no limiar do desespero final. Após essa breve explanação, acredito eu, já existem elementos suficientes para nos colocarmos no lugar do autor, vivendo cada uma de suas palavras.

Atenho-me a um último detalhe, entre outros que omiti: o primeiro filho – o irmão mais velho de Beethoven, falecido – chamava-se também Ludwig, o que significou para Beethoven ter que carregar durante toda sua vida a lembrança de seu primeiro irmão. Tarefa nada fácil.

Mas Beethoven optou por se fortalecer e amadurecer, mesmo tendo todos os motivos humanos para desistir de sua vocação musical. Copiemos o exemplo. Nós também podemos compor uma “Nona Sinfonia” com a nossa vida: deixemos de olhar para o limão, e olhemos mais para a limonada.

Testamento de Heiligenstadt

“Ó homens que me tendes em conta de rancoroso, insociável e misantropo, como vos enganais. Não conheceis as secretas razões que me forçam a parecer deste modo. Meu coração e meu ânimo sentiam-se desde a infância inclinados para o terno sentimento de carinho e sempre estive disposto a realizar generosas acções; porém considerai que, de seis anos a esta parte, vivo sujeito a triste enfermidade, agravada pela ignorância dos médicos. Iludido constantemente, na esperança de uma melhora, fui forçado a enfrentar a realidade da rebeldia desse mal, cuja cura, se não for de todo impossível, durará talvez anos! Nascido com um temperamento vivo e ardente, sensível mesmo às diversões da sociedade, vi-me obrigado a isolar-me numa vida solitária. Por vezes, quis colocar-me acima de tudo, mas fui então duramente repelido, ao renovar a triste experiência da minha surdez!

Como confessar esse defeito de um sentido que devia ser, em mim, mais perfeito que nos outros, de um sentido que, em tempos atrás, foi tão perfeito como poucos homens dedicados à mesma arte possuíam! Não me era contudo possível dizer aos homens: “Falai mais alto, gritai, pois eu estou surdo”. Perdoai-me se me vedes afastar-me de vós! Minha desgraça é duplamente penosa, pois além do mais faz com que eu seja mal julgado. Para mim, já não há encanto na reunião dos homens, nem nas palestras elevadas, nem nos desabafos íntimos. Só a mais estrita necessidade me arrasta à sociedade. Devo viver como um exilado. Se me acerco de um grupo, sinto-me preso de uma pungente angústia, pelo receio que descubram meu triste estado. E assim vivi este meio ano em que passei no campo. Mas que humilhação quando ao meu lado alguém percebia o som longínquo de uma flauta e eu nada ouvia! Ou escutava o canto de um pastor e eu nada escutava!

Esses incidentes levaram-me quase ao desespero e pouco faltou para que, por minhas próprias mãos, eu pusesse fim à minha existência. Só a arte me amparou! Pareceu-me impossível deixar o mundo antes de haver produzido tudo o que eu sentia me haver sido confiado, e assim prolonguei esta vida infeliz. Paciência é só o que aspiro até que as parcas inclementes cortem o fio de minha triste vida. Melhorarei, talvez, e talvez não! Mas terei coragem. Na minha idade, já obrigado a filosofar, não é fácil, e mais penoso ainda se torna para o artista. Meu Deus, sobre mim deita o Teu olhar! Ó homens! Se vos cair isto um dia debaixo dos olhos, vereis que me julgaste mal! O infeliz consola-se quando encontra uma desgraça igual à sua. Tudo fiz para merecer um lugar entre os artistas e entre os homens de bem.

Peço-vos, meus irmãos assim que eu fechar os olhos, se o professor Schmidt ainda for vivo, fazer-lhe em meu nome o pedido de descrever a minha moléstia e juntai a isto que aqui escrevo para que o mundo, depois de minha morte, se reconcilie comigo. Declaro-vos ambos herdeiros de minha pequena fortuna. Reparti-a honestamente e ajudai-vos um ao outro. O que contra mim fizestes, há muito, bem sabeis, já vos perdoei. A ti, Karl, agradeço as provas que me deste ultimamente. Meu desejo é que seja a tua vida menos dura que a minha. Recomendai a vossos filhos a virtude. Só ela poderá dar a felicidade, não o dinheiro, digo-vos por experiência própria. Só a virtude me levantou de minha miséria. Só a ela e à minha arte devo não ter terminado em suicídio os meus pobres dias. Adeus e conservai-me vossa amizade.

Minha gratidão a todos os meus amigos. Sentir-me-ei feliz debaixo da terra se ainda vos puder valer. Recebo com felicidade a morte. Se ela vier antes que realize tudo o que me concede minha capacidade artística, apesar do meu destino, virá cedo demais e eu a desejaria mais tarde. Entretanto, sentir-me-ei contente pois ela me libertará de um tormento sem fim. Venha quando quiser, e eu corajosamente a enfrentarei.

Adeus e não vos esqueçais inteiramente de mim na eternidade. Bem o mereço de vós, pois muitas vezes, em vida, preocupei-me convosco, procurando dar-vos a felicidade.

Sede felizes!”

Heiligenstadt, 6 de outubro de 1802.
Ludwig van Beethoven.

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