Um gigante não só do piano

Alvaro Siviero

30 de junho de 2013 | 15h39

Solista convidado a se apresentar nas apresentações sul-americanas comemorativas aos 125 anos da Orquestra Real do Concertgebouw,  Denis Matsuev é um homem direto, apaixonado, pró-ativo e extremamente divertido. Sua intensa e impecável performance da Rapsódia sobre um tema de Paganini, de Rachmaninov, e do bis Rossini-Ginzburg da área Largo al Factotum, da ópera O Barbeiro de Sevilha, endossou a crítica mundial: Matsuev é um dos maiores pianistas da atualidade. Conversamos extensamente, em um final de manhã, em São Paulo. Falamos de tudo. Demos risada. Tiramos fotos. Havia a sensação mútua de que nos conhecíamos há mais tempo. Denis é um homem aberto, direto, alegre, de temperamento apaixonado e proativo. Um homem descomplicado. Respostas francas, sem jogos de xadrez, sem mutismos. Aquela técnica de que o importante é falar pouco para não se expor não tem espaço neste respeitado profissional. Com 270 concertos por ano, agenda praticamente fechada até 2016 e dirigindo artisticamente mais de 10 festivais pelo mundo, os 38 anos de Matsuev o fizeram também atual presidente da Rachmaninov Foundation assim como de instituições caritativas russas que buscam novos talentos para a música, como a fundação “New Names”, sediada em Moscou, da qual Matsuev participou quando jovem.

 

 

Transcrevo, abaixo, em grandes traços, o conteúdo de nossa conversa.

1. Sobre sucesso, fama, reconhecimento
Nasci em uma família de músicos: meus pais são pianistas. Meu pai, além disso, é compositor e excelente jazzista (risos). Minhas principais paixões sempre foram o futebol e o hóquei sobre gelo. O piano esteve em segundo plano, mesmo quando aos 3 anos eu reproduzia ao piano músicas que escutava no rádio. Valorizo minhas amizades. Sofri quando, por causa do piano, tive que transladar, aos 15 anos de idade, para Moscou: o que aconteceria com meus amigos? E o time de futebol de minha cidade natal da qual eu fazia parte? Reconheço o sacrifício de meus pais neste investimento, mas eu não buscava isso. Fui uma wunderkind (criança prodígio), mas isso não importa. Não quero ser daqueles que se esforçam por brilhar. Quero fazer música. Para mim o palco é minha droga (risos). Nos dias em que tenho concerto fico mais feliz: pisar no palco me igniciona, me  entusiasma. A mera sensação de estar tecendo uma estória musical é fantástica. Torço para que os presentes desfrutem disso. E nada mais.

2. Sobre família
Eles sempre viajam comigo. Mas para esta turnê não vieram (risos, novamente). Após um concerto, um dos momentos mais reconfortantes é poder entrar no camarim e estar com eles e ouvir as palavras apropriadas naquele momento de completa confiança mútua. Foi com meu pai que também desenvolvi o amor pelo jazz e pela improvisação. O fato de trabalhar com música clássica não é impeditivo para trabalhar com outras vertentes. Trabalho, assim penso, com música.

3. Sobre o sentido da vida
O tempo de vida é curto para se perder em preocupações desnecessárias. A quantidade de trabalho que tenho também me impede de entrar em terrenos tortuosos. Sou um cara normal. Tenho como meta desenvolver, cada vez mais, a normalidade (chamou-me a atenção de que seu celular, ao tocar, ficasse em um segundo plano para dar continuidade à nossa conversa). Sou aquele típico “siberiano que gosta de tomar uma cerveja com os amigos”, que desfruta da companhia dos amigos (neste momento refere-se a nomes como Yuri Bashmet, Valery Gergiev – descrito como “um irmão mais velho”, Pletnev, entre outros). Minha casa natal, em Irkutsk, é um de meus locais de refúgio predileto, onde tudo está exatamente como era no dia em que me mudei para Moscou. Quando lá estou volto no tempo. E são esses momentos que prezo.

4. Sobre Música
Entendo Música como algo conatural. Ao piano conto algo que é meu, que se relaciona comigo. Por isso, a obra que mais me atrai é aquela que vou interpretar. Há compositores com as quais me identifico plenamente. Outros não. Quais compositores você não se identifica totalmente? Chopin, por exemplo. Não me refiro a uma dificuldade técnica – eu toco os dois concertos de Chopin para piano, estão nos dedos – mas a uma empatia necessária para que você consiga, com certa propriedade, acrescentar algo ao que o autor da obra propõe.

A conversa discorria solta, tranquila, quando os dois percebemos que já havia passado um bocado de tempo. Trocamos endereços. Conversamos sobre o Concerto n.2 de Brahms que Matsuev interpreta na próxima semana em Nova York. E enquanto nos despedíamos, de modo direto, por detrás das espessas lentes de seus óculos, ele me olha e diz: “Alvaro, do not forget: be natural!”.

Tudo o que sabemos sobre:

Denis Matsuev

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.