Um convite ao assombramento

Um convite ao assombramento

Alvaro Siviero

01 Julho 2016 | 11h18

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Diante dos fatos que envolvem a corrupção diária e generalizada que toma conta do Brasil, de políticos deitando e rolando com o dinheiro público, de atentados terroristas, da elevação do custo de vida, mortes, desempregos e um sem fim de outros problemas criados pelo próprio homem, é compreensível que o ser humano se endureça pela desesperança. Um sentimento de impotência. Inadvertidamente, à força deste show de horrores, o homem pode se azedar pela acidez de seus comentários e modo de ser. Mais do que agir, começamos a reagir. E é aqui que mora o perigo. Posturas desequilibradas no trânsito, relacionamentos desalmados e muita falta de educação são alguns dos ingredientes que tem marcado o nosso dia a dia. É isso o que, infelizmente, se vê. Descendo-se um degrau (ou vários), o terreno fica preparado para a vinda de safadões e poderosas, onde conceitos básicos facilmente perdem seu genuíno valor: amizades entendidas como interesse, a beleza da mulher (ou homem) sendo identificados e reduzidos a mera sensualidade barata, o certo vira errado, e o errado vira certo.

Quando o homem se esquece que é homem ou, ainda pior, esquece o que é o homem, não é de se estranhar que a desumanização torne-se a pauta dos noticiários do dia a dia. Quando a alma se embrutece, o homem se desumaniza. O feio pode até fazer barulho, mas não convence. Pelo contrário, entorpece. A Beleza, por outro lado, com força indestrutível, resgata aqueles que animalizaram o homem rebaixando-o a sexo, ventre e grana. Talvez seja este o motivo que explique, em grande parte, a busca do homem pelo que é Belo: puro detox. Caravanas de turistas embarcam para a Europa em busca de exposições de obras de arte em museus famosos, filas e filas de curiosos querendo ver de perto o Juízo Final de Michelangelo ou as pirâmides do Egito, excursionistas que buscam o melhor ângulo de um por do sol em montanhas cinematográficas. A Beleza arrasta. E arrasta até mesmo aqueles atrapalhados que, por nivelaram-se por baixo através de uma visão plana e limitada da vida e do homem, acabam sofrendo as consequências da enxurrada de confusão afetiva e estética de suas errôneas opções de vida.

A necessidade de assombrar-se com a Beleza é uma constatação do próprio homem. Já os gregos afirmavam que é o contato com a Beleza (o Pulchrum) o que dá ao homem o ingrediente necessário para o real conhecimento da realidade, da vida e de seus desdobramentos. Mais do que isso: é precisamente a capacidade de comoção, de contemplação e de transcendência que diferencia os seres humanos do restante da natureza. Quem nunca sentiu o calafrio do encantamento, em Viena, ao observar o quadrilátero formado pelo Palácio Imperial, Staatoper, Catedral de Santo Estevão e o Palácio Belvedere? Quem não se lembra de Sheherazade que, já estando condenada à morte, reverte sua pena com a beleza das estórias que, ao anoitecer, contava ao sultão? Quem não se lembra da guerra de Troia, desencadeada pela beleza de Helena? Quem nunca experimentou a maravilha de ter quem amamos por perto? Quem nunca sentiu – por contraposição – a dor da traição?

Diante da Beleza, não cabe a indiferença. “É difícil julgar a Beleza; a Beleza é um enigma”, afirmou o escritor russo Fiódor Dostoievsky. O mesmo afirmou que “a Beleza redimirá o mundo”. De fato, a Beleza transforma. E é este enigma no assombramento que desperta no ser humano o sentido do mistério do próprio ser, de sua transcendência, afetando toda a pessoa humana. Quando a Beleza se revela, o Bem toma conta de nós. Sim, o Bem é sempre atrativo.

Este sentimento, que vivencio em grandes concertos musicais, tomou conta de mim ao receber os vídeos abaixo, especialmente o da pequena Yulia Lipnitskaia ao som da trilha sonora do filme A Lista de Schindler. Olhar para a Beleza e para o Bem – humanizar-se – torna-nos melhores. O filtro das escolhas depende de cada um. Depende só de você.

 

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