Um cego ao piano, cegueiras e uma reflexão

Um cego ao piano, cegueiras e uma reflexão

Alvaro Siviero

22 de março de 2014 | 23h29

O vídeo do pianista japonês Nobuyuki Tsujii interpretando a difícil obra La Campanella, de Liszt, com grande maestria, surpreende. Aconteceu durante o Proms, em 2013. Ele é cego, de nascença. O pianista chegou à semifinal do Concurso Chopin, em Varsóvia, e ganhou a medalha de ouro em outro célebre concurso: o Van Cliburn Piano Competition. O próprio Van Cliburn – pianista americano cuja vitória no Concurso Tchaikovsky, em Moscou, provocou desconforto político na época da Guerra Fria – declarou: “Tenho a maior admiração por Nobuyuki. Deus tomou seus olhos, dando-lhe o dom físico e mental para o piano. Ele tocou o concerto de Chopin com tal doçura, mansidão e sinceridade que eu não conseguia parar de chorar quando saí da sala”. O presidente do júri, John Giordano, também se posicionou: “Ele é incrível. Ao fechar nossos olhos é difícil conter as lágrimas. Nobuyuki tocou a Sonata Hammerklavier, sem problemas. Para qualquer pessoa isso é extraordinário. Mas, para alguém que aprendeu de ouvido, é incrível”. Como pode?

 

 

Como livre pensador, soltei a imaginação:

1. O pior cego é o que não quer ver.

2. As verdadeiras cegueiras – as que paralisam – são anímicas, não físicas. Há gente que é cega para as necessidades dos outros: justificam que todo mundo é assim. Há gente que é cega para os desvios da própria conduta: alegam que o correto é relativo. Há os cegos de vida dupla – deslealdades, infidelidades, mentiras –, que se consideram modernos: tabu é coisa do passado. Há cegos que criam filosofias zen e teorias existenciais em esforço férreo para que não entre luz na consciência que já se encontra ética e moralmente obscurecida. Esses cegos, quando questionados, apresentam-se agressivos.

3. Deficiências físicas não são sinônimo de fracasso. Tenho em minha família portadores de deficiências que, após finalizarem o curso superior, gozam de prestígio e respeito em seu ambiente de trabalho. Gente feliz, realizada, querida, e que se contrapõe àqueles que, sentados em um sofá e com os braços cruzados, reclamam de seus problemas, lamentam a vida e transferem a culpa do fracasso pessoal aos outros, ao mundo, ao clima, à política. Tudo isso cega.  

4. A raiz de tudo isso é sempre o velho orgulho, um amor próprio mal entendido, que impede que nos vejamos como somos, sem paliativos, sem maquiagens. Diz-se de uma senhora que, em consulta ao psicólogo por sentir-se complexada por sua baixa estatura, escutou: “A senhora não tem motivo para ser complexada. A senhora é baixinha mesmo!” E o complexo se resolveu. E surgem algumas perguntas: porque há quem, por terem talento e desempenho musical inferiores ao do pianista cego acima, sente-se diminuído? Porque, em busca de crescimento profissional, há quem propositalmente prefira deixar outros para trás? Porque há gente que elogia para ser elogiado?  A metástase do orgulho, da cegueira, pode crescer em várias outras direções, descontrolada: invejas, ciúmes, comparações, fofocas para autopromoção, vaidades sem sentido, desejo de aplauso, imaturidade nas palavras (há cada post no facebook!), nos gestos e em susceptibilidades com palavras e ações que de modo algum significam um agravo. “A maioria dos conflitos em que se debate a vida de muita gente é fabricada pela imaginação: é que disseram… é que podem pensar… é que não me consideram… E essa pobre alma sofre com suspeitas que não são reais. Nessa aventura infeliz, a sua amargura é contínua”, afirma o literato espanhol.

5. O barulho e a agitação do homem moderno anestesia a necessidade de silêncio e interiorização para podermos olhar para dentro de si. Neste espaço de discussão democrática, afirmei diversas vezes que o silêncio é a porta de entrada da Música de Concerto, capaz de criar este ambiente de reflexão e exame tão necessários para conhecermos nossas reais motivações. Quem se examina, sem medo da verdade, acaba enxergando a retidão das suas intenções. Ou a ausência delas. Cada um de nós sabe o que realmente nos move. Só então as escamas da própria cegueira se desfarão.

O vídeo abaixo, tecido pelo próprio Nobuyuki Tsujii poderá, quem sabe, ser a tela de fundo onde cada um responda uma das questões mais existenciais e importantes da vida: Sou cego?

 

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