Tom Jobim, o Corcovado e um avião: o tempo parou.

Alvaro Siviero

06 de abril de 2012 | 17h48

Pergunta: algum de vocês já passou por situações onde, seja pelo inusitado ou pelo excesso de encantamento, queremos que o tempo pare? Refiro-me aqui às situações onde fotografamos cada segundo em nossa memória e cada emoção no nosso DNA. Queremos que o tempo pare para que o planeta inteiro experimente aquilo que vivenciamos. Isso não acontece por simplesmente estarmos diante de algum desses monumento de tirar o fôlego, em viagens inesquecíveis ou diante de pessoas por quem sentimos profunda empatia. Depende também de um ajuste íntimo, uma espécie de componente interno que entra em sincronia (e sintonia) com o que está acontecendo lá fora. Pois bem, foi exatamente isso o que ocorreu em meu último recital realizado no topo do Corcovado, aos pés do monumento do Cristo Redentor. Um fato inédito.

Logo após os primeiros acordes, olhando ao meu redor, um sentimento de impotência crescia dentro de mim. Eu era um grão de areia no deserto do Saara. A cada momento que meu olhar se deparava diretamente com o gigantesco rosto do monumento que me observava, eu entendia melhor que, de fato, a música é maior que o intérprete. Sempre. Além disso, a causa do evento era mais que nobre: o Dia Mundial de Conscientização do Autismo (e até São Pedro demonstrou o quanto ele também havia abraçado a causa pelo dia ensolarado que tomava conta do Rio de Janeiro). A cor do autismo encontrou apoio até mesmo na natureza, onde céu e mar acolheram tudo e todos em enorme abraço azul. Ao final, o Cristo, vibrando na mesma frequência, também ficou azul, reflexo do sangue nobre que corre pelas veias de quem preside de braços abertos aquele maravilhoso cenário. A cada acorde que eu finalizava, ou a cada nota mais tranquila que tinha que interpretar eu levantava meu olhar, como sempre costumo fazer. Mas o susto era contínuo, pois o que eu via acima de mim era algo que nun-ca em minha vida pensei ver daquela forma. (fotos)

As obras interpretadas refletiam o momento: o Noturno n.3 “Sonho de Amor” (desnecessária qualquer explicação) e a célebre transcrição para piano da Ave Maria (composta originalmente por Schubert) prestaram homenagem a Liszt. A presença de diversas mães com seus filhos autistas levou-me a atacar, como quem está em um campo de batalha, a célebre Polonaise Op.53 de Chopin, também conhecida como “Heróica”.  Confesso que por alguns momentos, senti-me parte da natureza.  Diversos helicópteros rondavam o monumento durante o recital enquanto eu interpretava a Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro, de Gottschalk.

Mas Rio de Janeiro é Rio de Janeiro. E Tom Jobim recebeu também a devida homenagem. Foi aí que, em clima repleto de alegria e descontração, encarei o seu Samba do Avião. Tenho a certeza de que Céu e Terra estavam de mãos dadas naquele momento. E o tempo, obedecendo aos meus desejos, parou.

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