Theatro Municipal de SP. E você, é ladrão?

Theatro Municipal de SP. E você, é ladrão?

Alvaro Siviero

18 de dezembro de 2015 | 11h45

ladrao-armado

Faz poucos dias, com certo estarrecimento, publiquei a condena sofrida pela célebre soprano Montserrat Caballe por fraudes fiscais (leia aqui). Surge, agora, uma nova surpresa: a divulgação das investigações do MP sobre José Luiz Herencia, homem de vasta experiência na política cultural nos âmbitos federal, estadual e municipal, ex-diretor geral da Fundação Theatro Municipal de São Paulo, acusado de um desvio de R$ 18.000.000,00. Herencia afirmou que se trata de uma vingança política. O maestro John Neschling, nas redes sociais, manifestou-se: “Tomei conhecimento pela imprensa das investigações do Ministério Público sobre o ex-Diretor Geral da Fundação Theatro Municipal, José Luiz Herencia, com quem trabalhei durante os últimos três anos. Estou estarrecido e entristecido de que a situação tenha tomado este rumo, mas seguro de que tudo será esclarecido com transparência e que a justiça prevalecerá. O projeto de revalorização do Theatro continuará em 2016 e a comunidade do Theatro Municipal pode seguir trabalhando com tranquilidade, segura de que juntos vamos superar essa fase difícil que nós e o País enfrentamos. Viva o Theatro Muncipal, viva o Palco de São Paulo!”. O fato, amplamente noticiado com enfoque na análise “serviço” (quem, quando, onde, o que, etc), com zoom de estardalhaços e temperos picantes, neste momento até compreensíveis, não me interessa tanto quanto poder debruçar-me sobre um outro tipo de análise, talvez mais profunda, de vertente comportamental.

As denúncias de corrupção, furtos, roubos, safadezas, cinismos, malandragens, mentiras, picaretagens, etc, etc, etc, são devastadoras. Invadiram os noticiários. Devastadoras por indicarem o patamar moral ao qual chegamos. Nos dias atuais, onde muitos se sentem no direito de dizer o que querem, exigindo goela abaixo que seus subjetivismos sejam admitidos como verdades definitivas, não é de se estranhar que a lista de malandrinhos aumente dia a dia. Quando grana, sucesso e poder tornam-se sinônimos de “vencer na vida” – não sejamos infantis – é inevitável a entrada de carrinho, com direito a chute no tornozelo, com a lei do vale tudo. Uma verdadeira diarreia moral. Não estou julgando nada, nem ninguém. Apenas observo os fatos gerados pela confusão mental  – maliciosa? – de comportamentos repletos de esvaziamento ético por parte dos espertinhos. Mas o rei está nú. E, um dia, a casa cai. E cai mesmo. É só uma questão de tempo.

Diz o ditado popular que a ocasião faz o ladrão. E o volume do roubo – para quem é ladrão –depende somente da ocasião, da circunstância. Não existe ladrão pequeno ou ladrão grande. Existe o ladrão. Alguns deles causam pena, até compaixão, por comprarem este título com atitudes tão pouco edificantes, diria imaturas. Rouba-se de muitas formas. Rouba-se a reputação alheia através da fofoca e da maledicência. Rouba-se com rasteiras em colegas em busca de maior poder e visibilidade. Há outros ladrões – falamos aqui de grana – que roubam através de desvios operados até mesmo por diretivos de instituições culturais que se autodenominam “sérias”, seja na contratação obscura através de representações ilícitas, seja por confundirem informalidade com ilegalidade. Sempre há uma justificativa. Outros – um mix de imaturidade e carência – conjugam sempre o verbo na primeira pessoa: a “minha” orquestra, a “minha” apresentação, o “meu” orgulho pelo trabalho desenvolvido pela “minha” pessoa, “eu” estou muito feliz com o trabalho desenvolvido pela “minha” orquestra, que é a melhor…. Tudo isso envergonha. Vergonha alheia. E envergonha pelo exercício bobo de autopromoção às custas da arte. Rouba-se da arte. Outros roubos – mais sutis, mas não menos verdadeiros – envolvem artistas menos qualificados que se submetem a serem promovidos artisticamente por investimentos econômicos questionáveis, empurrando carreiras de modo artificial. O que dizer – fica a pergunta – das omissões de informação da mídia cultural, provocadas por envolvimentos econômicos de profissionais que, mesmo com o dever de informar a verdade corretamente, subtraem aspectos relevantes precisamente por estarem envolvidos com quem deveriam denunciar, possuindo dupla identidade? Agora entendo melhor porque alguns jornalistas – que cresceram em meu respeito – não aceitam convites para trabalhos paralelos, almoços, festas, quando possíveis conflitos colocam em risco a credibilidade que lhes é devida. Os exemplos multiplicam-se…

A solução para isso – uma solução que pode até parecer simplória – é a mudança de comportamento, não pela mera mudança externa, fruto de quem não quer ser pego no flagra, mas por uma tomada de consciência de que viver assim não vale a pena. E não vale mesmo. É uma descoberta pessoal. Chega um momento em que entendemos que não gozaremos de maior reconhecimento por comprarmos uma BMW (essa compra não é sinônimo de prestígio, como alguns podem pensar), de que não ganharemos mais autoridade com autoritarismos do grito e do medo (puros reflexos de uma personalidade insegura) e de que não desfrutaremos de prestígio e reconhecimento profissional quando pessoas honestas ao nosso redor discordam dos meios que empregamos na busca de ascensão. A verdade pode tardar, mas nunca falha. E os fins nunca justificam os meios. Um artista – que trabalha com a transcendência da Beleza – deveria ser o primeiro a entender isso. Criticar é bom. Mas a autocrítica é sempre mais interessante.

Um ladrão – com sua triste e cômica habilidade– normalmente busca duas saídas: dizer que não sabia de nada ou partir para o ataque (de agressão, de explicações vazias ou justificativas, tanto faz). Essas duas atitudes – seja do tipo que for – são automáticas, impensadas, de fuga. O ladrão – se continua ladrão – não reconhece. Espero, caro leitor, que ao finalizar este texto, não tenha surgido dentro de você – de modo até inconsciente – justificativas aos erros que todos cometemos e que a consciência bem formada sempre se encarrega de nos mostrar. Trate esses fatos e erros com verdade, com transparência. Reconheça que errou. É tão bom! Quem não reconhece, não muda. E surgem outros roubos. Cuidado para que sua vida não seja uma roubada!