Talento e Virtude: o que fazer?

Alvaro Siviero

29 de maio de 2013 | 12h41

Talento não é virtude. Talento é presente, um dom, uma capacidade inata, uma facilidade que aleatoriamente recai sobre certas pessoas. Há alguns que nasceram com maior inteligência, outros com maior capacidade de comunicação, outros com maior aptidão para o futebol, outros para a vida artística. Tudo aleatório. Não há mérito. A virtude é algo bem diferente (do latim, virtus = força, determinação, empenho). Mais do que uma simples característica ou aptidão, a virtude revela a têmpera de um homem em seu esforço por transformar ações isoladas em qualidades estáveis. Dar uma esmola não é o mesmo que ser generoso. Chegar a um encontro na hora marcada não é necessariamente ser um homem pontual. A virtude, de fato, é o que revela o caráter de uma pessoa. Houve quem dissesse que caráter, virtude, é o que você faz quando ninguém está te observando. Enquanto isso, o talento continua sendo somente um talento.

Uma pessoa esforçada poderá ser um músico de destaque? Não! A arte que encanta, que emociona, não é proveniente somente de um esforço, mas também de um talento artístico. A genialidade de um Pelé, ou de um Garrincha, não são provenientes somente de horas de treino. Há quem treine sem nunca chegar lá. O mesmo na arte. Há insights, inspirações, luzes interpretativas que aparecem on the spur of the moment ao Artista, e que nunca aparecerão a um profissional, mesmo que extremamente esforçado.  A facilidade psico-motora para um determinado instrumento, o tal do “ouvido absoluto” que alguns músicos afirmam possuir, entre outros, são características tão aleatórias quanto uma pinta no rosto (e olhe que uma pinta, bem utilizada, também pode ter suas vantagens…)

A dicotomia Talento x Virtude joga luz em duas situações perigosas:

1. O perigo daqueles que se prevalecem pelo talento que possuem, esquecendo-se que a posse desse talento é mera casualidade. Sempre me chamou a atenção uma situação, um tanto comum, de sala de aula: aqueles dois alunos – um de inteligência prodigiosa e outro de inteligência mediana – que, mesmo tirando a mesma nota máxima em uma prova, são alvo de análise falseada. Para o aluno de inteligência avantajada, que muito pouco estudou, muitos afirmam, com admiração: “Como é inteligente! Nota máxima sem estudo!”, enquanto que para o segundo, com desdém, afirmam: “Ah, estudando qualquer um!”. Essa conclusão enganosa não percebe que o aluno de valor, merecedor de reconhecimento, é o segundo. E fica a pergunta: o que seria do segundo aluno se possuísse o talento do primeiro?

2.  O perigo dos artistas deslumbrados, que encaram o talento como mérito pessoal. Essa visão míope não tarda em se manifestar em atitudes altivas, presença de palco egocentrada e uma certa complacência nas capacidades pessoais, encaradas como próprias. Neste trajeto que acaba em valeta, não é difícil que outros artistas – verdadeiros artífices do Belo – sejam encarados como ameaça. Como resolver a questão? Olhar para dentro e, com auto-crítica, repensar no que pretendo com minha arte.

O mundo necessita da Beleza. O mundo espera pessoas amadurecidas que sejam capazes de transmitir a Beleza.

Tudo o que sabemos sobre:

virtude talento

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.