“Somos os únicos da América Latina”

Alvaro Siviero

01 Julho 2012 | 23h18

“A única da América Latina”. É assim que o empresário Celio Bottura Junior referiu-se à única fábrica de pianos existente no Brasil, a Pianofatura Paulista S/A, quando de nosso encontro faz alguns dias. “A tecnologia atual permitiu a introdução de maquinário em alguns setores da produção, como o da pintura, o que gerou redução no quadro de funcionários e até maior praticidade operacional. Mas o trabalho continua sendo mesmo manual, artesanal”. Entre outras frases, é assim que esse homem inquieto pela busca da excelência procura reinventar o que é interessante para a sonoridade e solidez do instrumento que fabrica. E o brilho no olhar transmite o entusiasmo.

Foi visitando esta fábrica, localizada em Pirituba, que tomei contato com os últimos exemplares fabricados da marca Fritz Dobbert, além de alguns pianos Kawai, cuja representação no Brasil está à cargo da Pianofatura. Os quase 70 funcionários produzem, aproximadamente, 1000 pianos por ano. Ao chegar ao portão de entrada, tive a sensação de estar entrando em uma espécie de túnel do tempo: por um lado um trabalho artesanal que cria no espectador a impressão de se estar diante de um trabalho de monges medievais e, por outro, a tecnologia que relembra o século 21. A descontraída conversa mantida com Celio Bottura evidenciava recato, e até certa timidez, na forma como a informação me era transmitida, desde as diversas feiras internacionais – Los Angeles, Japão, China, entre outras – onde a marca Fritz Dobbert já esteve marcando presença com o extenso trabalho de exportação dos pianos para os USA, América do Sul e Europa ocorrido após a década de 1980 até a preocupação em estar na vanguarda da informação. “ Reconheço que em algum momento, talvez movidos por uma certa precipitação na busca de aprimoramento da qualidade artística e sonora dos pianos, possamos ter gerado decisões que, de alguma forma, não corroboraram esse desejo de aprimoramento. Mas foi graças a esse esforço em arriscar que nos mantemos sólidos dentro do mercado competitivo, completamos 60 anos de existência em 2010 (leia reportagem VejaSP) e estamos procurando abrir cada vez mais frentes.”

O otimismo do entrevistado se plasmava na análise feita em relação ao interesse pela música. Mesmo com a toda competição dos jogos eletrônicos, internet e mundo globalizado, Celio Bottura enxerga na música uma porta de crescimento humano. “O mercado poder ter seus altos e baixos, mas o interesse pela música nunca desaparecerá”.

Enquanto a conversa discorria, pude experimentar alguns pianos Fritz Dobbert, 1/2 cauda, que é o maior que a fábrica hoje produz. Arrisquei a entrada do Concerto n.1 de Liszt. O piano correspondeu.  Arrisquei algumas outras obras, com resultado igualmente satisfatório. Eu tinha clara consciência de estar diante da fábrica que é exemplar único no Brasil, desde que sua concorrente, a pianos Essenfelder, abriu falência em 1996 por má administração. A atitude de muitos de nós, brasileiros, de sempre valorizar o que é estrangeiro, deveria ser repensada. Preconceito esse que é originado por desconhecimento (a grande maioria)  ou até mesmo por um “rigor puritano acadêmico”, compreensível, mas onde somente existem olhos para marcas “a la Steinway”. Profundo engano.

Um piano é como uma pessoa. Cada um é cada um. Há Yamaha, Bosendorfer, Kawai, Steinway, Fazioli (considerado hoje o último grito da moda), Bechstein, Grotrian Steinweg, Pleyel, … Lembro-me agora de um inesquecível recital que realizei em um Bluthner… enfim… as possibilidades são infinitas. Cada um é cada um. Mesmo em pianos “famosos”, a Música pode não acontecer se não há empatia com o intérprete, que acaba também sendo invadido por um forte sentimento de frustração e desconforto após a performance (assista ao minuto 1:30 do vídeo abaixo). E como qualquer ser humano que possui limitações, maiores ou menores, em um piano pode ocorrer exatamente o mesmo: seja a tábua de ressonância, seja a madeira utilizada, seja o ajuste dos martelos, etc. Obviamente, o tamanho da cauda é um dos grandes diferenciais na qualidade sonora.

 

Durante meu retorno, após aquela prazerosa visita, verifiquei que muitas vezes estamos excessivamente ligados a brands, a grifes e pode acabar ocorrendo conosco o que afirma o ditado de que quem vê cara não vê coração. E me perguntei: porque a Pianofatura não se embrenha em lançar seu piano cauda inteira? Fica o desafio.