Sinfonia Rotterdam, Instituto ABIHPEC e o resgate da Beleza

Sinfonia Rotterdam, Instituto ABIHPEC e o resgate da Beleza

Alvaro Siviero

14 Julho 2015 | 09h54

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Um agito só. É assim que resumo minhas últimas semanas. A indescritível experiência de atuar como solista à frente da excelente orquestra holandesa Sinfonia Rotterdam (pronuncia-se Sinfônia), em turnê no Brasil, uniu-se a uma nobre causa, que nos moveu a abraçar correrias em aeroportos, poucas horas de sono, dedicar tempo a pessoas que queriam dividir um pouco suas necessidades musicais, entrevistas (algumas agendadas, por falta de outra oportunidade, para os momentos de check-in  em aeroportos) e tantos outros desafios impossíveis de serem contabilizados. O motivo? Dedicar a renda integral (faço questão de destacar) das apresentações ao projeto de tratamento oncológico de pacientes De Bem com Você – a Beleza contra o Câncer desenvolvido pelo Instituto ABIHPEC – Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (fotos aqui)

O indiscutível êxito dos concertos  – para quem ainda não sabe, a alta qualidade artística imposta pelos músicos holandeses os fez possuir uma temporada fixa de concertos no Concertgebouw de Amsterdam, uma das maiores salas de concerto do mundo!) – atingiram cumes musicais nas apresentações em Curitiba (Teatro Guaíra), Rio de Janeiro (Sala Cecília Meireles) e São Paulo (Sala São Paulo). No entanto, duas apresentações extras transformaram-se no Everest da turnê: as destinadas exclusivamente a pacientes em tratamento oncológico, ocorridas no INCA – Instituto Nacional do Câncer (RJ) e no Conselho Regional de Química (SP). Lembrei-me imediatamente da obra O Pavilhão dos Cancerosos, que aconselho a leitura, do escritor russo vencedor do prêmio Nobel Alexander Solzhenitsyn. Enquanto o personagem Efrén Poduiev dá voltas sobre o pensamento da morte, trazendo-lhe toneladas de espanto, oprimindo-o lá no fundo do seu peito com essa depressão indefinida, existencial, resultante da falta de um sentido para a vida, dois outros doentes dialogam com profundidade assustadora – um deles mais sensato e outro repleto de teorias e ideologias em tentativa de justificar seu vazio vivencial. “Rusanov, você prega suas filosofias como se tivesse aprendido num panfleto, mas na hora em que a morte se aproxima, diga-me: para que servem as ideologias? Qual o sentido da sua vida?”. 

Verifiquei pessoas da platéia e até mesmo da orquestra (holandeses!) comovidos às lágrimas. Emocionei-me quando vi um rapaz, recém operado de um provável tumor cerebral, com a cabeça toda enfaixada, chorando de forma serena, mas ininterrupta. Não faço aqui melodrama. Falo de pessoas que estão 24 horas por dia dentro de um quarto, há meses sem poder olhar o sol de frente, em pleno Rio de Janeiro, e que também se questionam sobre o sentido de suas vidas, assim como nós deveríamos nos questionar.

Por falta de espaço os músicos tocaram de pé. Decidimos não ir vestidos como “artistas”, mas como “gente”: calça jeans e tênis. O auditório rapidamente lotou: corpo clínico, assistentes sociais, pacientes, enfermeiros, músicos… todos ali buscavam um lugar dentro do evento que marcaria a primeira vez que um concerto de música clássica seria oferecida dentro das instalações do INCA. Buscávamos ser uma única coisa: seres humanos que levam alegria e esperança (assista ao vídeo em 25:00). Afinal de contas, a Beleza verdadeira não é somente a do batom ou até da maquiagem, mas aquela que vem do coração e a da alma do homem. Naquele momento o conceito de Beleza se amplificava, com toda a carga de profundidade que merece.

Muitas pessoas me perguntaram o motivo da escolha do Concerto de Schumann para a turnê. A resposta é simples. A esposa do compositor alemão Robert Schumann, Clara, exímia pianista, dedicou-se por toda a vida, após a morte precoce do marido, a tocar esta obra pela memória do amado falecido. Mais do que isso: atrevo-me a dizer que a colossal obra de Schumann somente recebeu o reconhecimento devido por ter sido Clara a porta-voz deste tesouro musical. Puro altruísmo. Amor verdadeiro.  E era isso o que buscávamos.