Shostakovich: quando a política interfere a cultura

Alvaro Siviero

28 de abril de 2013 | 19h22

A próxima turnê que farei pela Holanda, em novembro, trouxe-me um mix de alegria e surpresa. Alegria, dado que ela se encerrará, em Amsterdam, no célebre Concertgebouw, um santuário da música clássica universal. A surpresa? Farei o desafiante Concerto n.1 para piano e orquestra, de Shostakovich, compositor russo raramente interpretado no Brasil. Sua obra foi mais executada a partir dos anos 90, sobretudo pela OSESP, na época de Neschling. O Lauro Machado Coelho lançou, no Brasil, uma biografia pela editora Perspectiva: Shostakovitch: Vida, Música, Tempo.

A vida e obra deste compositor sempre me trouxeram um aperto na boca do estômago. Uma confusão entre cultura e política. Alguns fatos, permeados de contradição:

  1. No Conservatório de Petrogrado foi reprovado em exame de metodologia marxista, por sua aparente falta de zelo político.
  2. Devido ao seu excessivo “controle emocional”, mesmo possuindo “impulso rítmico fascinante”, recebeu somente uma mera menção honrosa na primeira edição da Competição Internacional de piano Frederic Chopin (1927), realizada a cada 4 anos na cidade de Varsóvia, o que fez com que o compositor tomasse a decisão de se devotar mais à composição.
  3. O ano de 1936 se iniciou com uma série de ataques contra o músico no Pravda, em particular, com um artigo intitulado Confusão ao Invés de Música, onde suas obras foram duramente criticadas, o que provocou uma diminuição drástica na encomenda para novos trabalhos, fazendo com que seus rendimentos econômicos caíssem a 20% do que lhe era habitual. No mesmo ano, em dezembro, o clima político tornou impossível a execução de sua Sinfonia n.4, estreada somente em 1961. Contra tudo e contra todos, o compositor nunca repudiou a obra, mantendo-a com a sua designação de Quarta Sinfonia.
  4. Em 1939, antes das forças soviéticas invadirem a Finlândia, o Secretário do Partido em Leningrado curiosamente encomendou-lhe uma peça comemorativa, intitulada Suíte sobre Temas Finlandeses, a ser tocada durante o desfile da vitória do Exército Vermelho sobre a capital finlandesa, Helsinki. Shostakovich nunca reivindicou a autoria dessa obra.
  5. A luta ideológica Stalinismo-Trotskysmo fez com que, em 1948, o compositor fosse novamente censurado. A maioria dos seus trabalhos foram banidos, sendo ele forçado a retratar-se publicamente. Sua família teve seus privilégios retirados. A morte de Stalin, no entanto, em 1953, foi o maior passo em direção à reabilitação oficial do autor. Nesse ano, muitos dos seus trabalhos que estavam na “gaveta”, foram apresentados.
  6. Em 1960, Shostakovich ingressa no Partido Comunista da União Soviética, fato interpretado, por muitos, como uma demonstração de compromisso. Outros o interpretaram como marca de covardia, ou resultado de uma pressão política ou, até mesmo, como livre decisão. Seu filho lembrou-se que o evento levou Shostakovich às lágrimas e, posteriormente,  o próprio compositor teria dito à esposa, Irina, que havia sido chantageado.

Ao final da vida, afetado por diversos problemas de saúde crônicos, uma doença debilitante afetou sua mão direita forçando-o a parar de tocar piano. Sofria também de poliomielite. Sofreu diversos ataques cardíacos e chegou a quebrar as duas pernas em diversas quedas que sofreu. Faleceu de câncer, em 1975, e seu sepultamento ocorreu em Moscou.  O obituário oficial não apareceu no Pravda até três dias depois de sua morte: o texto necessitava prévia aprovação por parte do alto escalão, por Brezhnev e restantes membros do Politburo.

Na Holanda, viverei esse momento musical – e quaisquer outros momentos musicais que eu viva, onde quer que eu esteja neste mundo globalizado – com uma clara determinação: política cultural, sim! Interferência política na cultura, não!

Aos interessados, uma excelente versão do Concerto n.1, com a pianista Martha Argerich. Um concerto ágil, repleto de contestação e com direito a um final eletrizante (com participação especial do trompete!)

 

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