Será que Lang Lang fará resenha crítica da platéia?

Alvaro Siviero

24 de maio de 2012 | 12h02

Em assuntos opináveis, como afirmou Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra. É muito boa a diversidade da vida humana que desemboca, necessariamente, em divergências de opiniões. O contrário é lavagem cerebral. E o valor do ser humano mede-se, em grande parte, por sua abertura e respeito ao que é alheio.

Lang Lang, com seu approach musical revolucionário, provoca celeuma, quebra paradigmas do politicamente (musicalmente) correto e cria uma legião de contestatários. Mas inova. Já o taxaram de produto comercial, descontrolado musical, manifestaram-lhe ojeriza e, curiosamente, o crescimento de sua popularidade somente acirra os ânimos daqueles que não lhe devotam afeição. Tudo meio inconsciente (ou não), mas real.  No último concerto de Lang Lang em São Paulo, deparei-me com alguns desses contestatários que, mesmo antes do início do espetáculo, já manifestavam comentários dúbios e irônicos. Foi neste momento que transformei-me em tábua rasa, aberto ao que viesse. Como pianista que já havia trabalhado extensamente no repertório a ser interpretado, decidi simplesmente ouvir, esquecendo tudo e todos.

Com uma técnica colossal, Lang Lang decidiu fazer um passeio pegando pela mão cada um dos presentes ao mesmo tempo que jogava luz em inúmeras vozes melódicas internas da obra. Tudo estava ali, renovado, com clareza meridiana. Seu Bach – com contrastes dinâmicos recheados de pianíssimos e sutilezas sonoras – meio que me derrubaram naqueles momentos iniciais. A Giga final, interpretada com leveza e enfoque dançante, funcionou como um arauto ao que ainda estava por vir.

A Sonata n.23, em si bemol maior D.960, de Schubert, composta em 1828, é considerada um verdadeiro capolavoro, um dos grandes trabalhos para piano do autor. A leitura era de dor, de uma dor serena, com direito a rompantes de revolta, refletindo a simbiose de quem já prevê seu fim próximo (Schubert faleceu meses depois, aos 31 anos) e que, ao mesmo tempo, sente o desprezo de verificar que suas obras são negligenciadas por serem consideradas, dramática e estruturalmente, inferiores às sonatas de Beethoven. Mas o andamento do tema principal, no primeiro movimento, e o Andante Sostenuto poderiam ter sido mais fluidos: a opção por andamentos mais lentos unido a uma suavidade incomum de toque, quando extensamente prolongados, provocam a perda da contextualização estrutural da obra e possível desinteresse do ouvinte, principalmente do ouvido despreparado.

Os Estudos Op.25 de Chopin arrebataram a platéia. Não me refiro a estripulias cênicas, refiro-me a música de altíssima voltagem. Tive a oportunidade de conhecer dezenas de interpretações desses Estudos, por diversos pianistas, ao vivo e em longas sessões em minha discoteca. O que vi marcou. Como toda obra de estilo romântico dá ao intérprete maior liberdade de ação, em alguns momentos Lang Lang tomava a liberdade de levemente alterar a partitura – um andamento Vivace transformado em Moderato (Estudo n.5), pausas inexistentes e notas dobradas que ganham vida (Estudo n.9), pianíssimos isolados transformados em fortíssimos (Estudo n.1) – como quem propunha uma leitura inovadora da obra. Via claramente que o sinal vermelho estava, em alguns momentos, sendo atravessado. Mas a resolução musical da nova proposta se fechava. E convencia. Especial atenção à avalanche de notas magistralmente acionadas nos Estudos n.3, n.4, n.6, n.10, n.11 e n.12. Ao meu lado observava pessoas emocionadas. Lágrimas. Não era farsa. Ao final do recital eu mesmo, em reação incontida, me encontrava de pé.

Decepcionante foi a platéia. Um grupo de, aproximadamente, 50 retardatários entraram na Sala São Paulo após a finalização da primeira obra, a Partita n.1, de Bach. Até aí tudo bem. O pianista, em silêncio, aguardava o silêncio para o início da sonata de Schubert. Foi aí que apareceu, com total falta de semancol, um dos senhores que, melhor teria sido se estivesse vestido de pavão, foi até sua cadeira reservada, a poucos metros do pianista, e pediu para que toda a fila se levantasse para se sentar, mesmo havendo outras cadeiras vazias em locais mais distantes. Foi um constrangimento só. O detalhe é que, antes de se sentar, o dito cujo fez questão de observar, de modo calmo e solene, toda a sala (inclusive olhando para trás) que, lotada, sentia vergonha alheia. Eu senti. Una-se ao fato a chuva de tosses e pigarros enrustidos. Cheguei a pensar que meu ingresso mais valia para uma sinfonia para pulmão e garganta, com fundo musical de piano. Para não faltar a percussão na nova obra criada por pulmões, veio a percussão: uma pilha de papéis caiu ao chão. Falo sério. Era evidente o despreparo de muitos dos presentes que, desnecessário dizer, comprometeu muitas das sutilezas sonoras do recital. Celulares? Ao me lado dispararam sete! A produção do evento, em tentativa elegante de controle segundos antes do início da segunda parte, com a luz de cena já acionada, fez novamente soar a mensagem gravada para que os presentes desligassem seus celulares. Mas muitos, de pé, ainda batiam papo quando Lang Lang entrou.

Ao término do recital muitos saíram da sala, às pressas, como quem tira o pai da forca. Já tinham visto o brinquedinho chinês e agora podiam ir embora. Ainda bem. Foi então que, com uma Sala São Paulo pela metade – esse deveria ter sido o verdadeiro público presente desde o início -, Lang Lang deu seu karatê final presenteando os que ali estávamos com um Liszt impecável, incluindo uma vertiginosa versão de  La Campanella.

E tenho dito.

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