Sensibilidade e suscetibilidade artística

Alvaro Siviero

25 de maio de 2013 | 22h56

Kátia é uma enfermeira no Rio de Janeiro. O grave estado de saúde de sua mãe fê-la abandonar uma semana inteira de trabalho em seu hospital para estar ao lado de Dona Júlia, que morava em Petrópolis. Generosa, Kátia sofreu muito ao seu lado. Ao regressar, angustiada, esperando do marido uma palavra de aconchego – ele nem havia telefonado para saber como se encontrava a sogra – encontrou um panorama desolador: louças sujas, cinzeiros cheios, camas desarrumadas, uma bagunça generalizada. Quando chegou à sala, o marido, sem tirar os olhos da TV, disse-lhe: “Ainda bem que você voltou, pois este lugar está parecendo um depósito de lixo”. Não é difícil compreender como se sentiu a Kátia: como o próprio pano de chão. O fato – tão real e verdadeiro quanto a falta de sensibilidade do marido – surpreende. Qualquer um é capaz de enxergar a falta de tato – grossura! – do Roberto. Menos ele. É assim que funciona o egocentrado, que tem olhos somente para seus próprios interesses, incapaz de olhar para os outros sem passar algum tipo de fatura.

Sensibilidade – ou sua falta – não é problema de educação ou de cumprimento de regras de etiqueta. É problema da alma. As reais e enormes diferenças psicológicas, somáticas, emocionais e físicas entre o sexo masculino e feminino não nos faz concluir que sensibilidade é coisa de mulheres: já vi mulheres grosseiras, bem como homens refinados e generosos. O problema, de fato, é anímico. Embora o choque de interesses e de indiferenças seja doloroso à pessoa sensível, pior e mais doloroso é o isolamento e a incapacidade de relações verdadeiras e altruístas que recai sobre a pessoa self-centered, consequências naturais da frieza semeada. O sensível – incluída aqui a dose de esforço pessoal – chega sempre mais longe, talvez por saber escolher pessoas ao invés de coisas.

No entanto, a tendência de um homem ou de uma mulher a girar em torno de si mesmo, a converter o próprio ego no centro dos pensamentos e no ponto de referência de todas as ações – o egocentrismo – é o principal aliado de muitos ressentimentos que, em pouco tempo, são capazes de transformar suas vítimas em seres extremamente vulneráveis, que reagem com intensidade desproporcionada a ofensas ou afrontas que, alimentadas pela imaginação, se agigantam de forma gratuita, como o de alguém que pensa que o outro não quis cumprimentá-lo, quando este, na realidade, nem chegou a dar-se conta da sua presença. E os sintomas, muitas vezes motivados por carências afetivas, se multiplicam: vitimismos, hipersensibilidades, que não me consideram, que se esqueceram de mim, que não me convidaram, que não… Enrique Rojas, celebrado psiquiatra, adverte: “uma das coisas que mais entristece o homem é a egolatria, origem de sofrimentos inúteis, produzidos por uma excessiva preocupação por tudo o que é pessoal”.

Que nós artistas nunca nos esqueçamos disso. E que todos nós lembremos que, como diz o ditado, felicidade é uma porta que se abre para fora.

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