Santa Cecília: a Padroeira Universal da Música.

Santa Cecília: a Padroeira Universal da Música.

Alvaro Siviero

22 de novembro de 2011 | 21h04

O escultor Stefano Maderno retratou a posição em que foi encontrada a nobre romana

Tive a sorte de conhecer o local exato onde Santa Cecília foi martirizada, em Roma, no bairro do Trastevere. Como em tantos outros monumentos romanos, o endereço onde a nobre romana residia – situado, hoje, a diversos metros abaixo da terra – alberga a solene Igreja de Santa Cecília. Vale muito a visita. Em São Paulo, virou nome de bairro. Como músico, estando em Roma, não poderia deixar de cumprir esta obrigação. O exato local do martírio – fechado durante o ano – é aberto em ocasiões especiais, como a do dia 22 de novembro. Fechei os olhos, ajoelhei-me no local onde a nobre romana foi decapitada e soltei a imaginação pensando na barbárie que ali havia ocorrido. Respeito e devoção. 

É provável que tenha sido martirizada entre 176 e 180, sob o império de Marco Aurélio. Segundo o relato, Cecília havia sido dada em casamento, por vontade dos pais e contra sua vontade, a um jovem chamado Valeriano. Tornava-se inútil qualquer resistência, mesmo tendo exposto aos pais os motivos que a levavam a não aceitar este contrato. A sós com o noivo, Cecília declarou seu desejo de dar-se a Deus, guardando alma e corpo. A firmeza e o desejo da noiva, incompreensível a um pagão, deixaram Valeriano tão vivamente impressionado que, respeitando as declarações de Cecília e sua virgindade, convertido, recebeu o Batismo naquela mesma noite. Tibúrcio, irmão de Valeriano, após tomar conhecimento do ocorrido, cativado pela atitude da bela jovem romana e pelo genuíno amor de seu irmão Valeriano, também abraça a fé. O fato chegou aos ouvidos de Turcius Almachius, prefeito de Roma, que sem espaços a quaisquer esclarecimentos, exigiu que abandonassem, sob pena de morte, a religião que tinham abraçado. Diante da recusa formal, determinou que fossem condenados à morte.

O caráter destemido e aberto de Cecília, que a levava a falar com tamanha convicção e firmeza sobre a beleza de sua opção, emocionou os soldados que a conduziam ao martírio e todos igualmente abraçaram a fé, abandonando o culto dos deuses. O prefeito, furioso e impotente, vendo-se frustrado em seu empenho, deu ordens a que Cecília fosse asfixiada em vapores d’água. Metida em um banho de água fervente, a jovem romana saiu ilesa. Foi então que, perplexo, o prefeito recorreu à pena capital: três golpes vibraram sobre o pescoço da jovem, mesmo não conseguindo separar a cabeça do tronco. Cecília, mortalmente ferida, caída por terra, ficou três dias nesta posição. Inerte, apontando um único dedo de sua mão esquerda e três dedos de sua mão direita, relembrou aos algozes a Unidade e Trindade de Deus – o mistério da Santíssima Trindade – magistralmente plasmados em finíssimo mármore, em tamanho natural, pelo escultor renascentista Stefano Maderno. Pediu, igualmente, que toda sua riqueza fosse entregue aos pobres e que sua casa fosse transformada em igreja. O corpo de Cecília, enterrado na Catacumba de São Calisto, ficou por muito tempo perdido, escondido, sem que se soubesse o exato local do jazigo. Em 817 achou-se o caixão de cipreste que guardava as relíquias da santa, cujo corpo foi encontrado intacto e na mesma posição em que tinha sido enterrado. A seu lado repousavam os corpos de Valeriano e Tibúrcio.

Relatos históricos afirmam que Cecília, nos festejos do casamento, embalada ao som de instrumentos musicais, cantava e elevava seu coração a Deus, pedindo-Lhe que seu corpo e alma fossem guardados. Desde o século XV, Santa Cecília é considerada Padroeira da Música, com festa celebrada no dia 22 de novembro, Dia da Música e dos Músicos.

A intolerância diante das convicções da nobre romana, no mínimo, surpreende e encontra, nos dias atuais, um sem número de seguidores. São os que proíbem mas não querem ser proibidos. São os mesmos que seguem a lógica do “a minha opinião é liberdade de expressão, mas a tua opinião é intolerância”. Confundem e chamam de preconceito qualquer coisa, inclusive conceitos legítimos. Nesta triste situação,  abortam o diálogo e o substituem por força bruta, cuja agressividade é tanto maior quanto maior for o incômodo gerado pela coerência alheia. Sim, há valores absolutos que incomodam. E é mais fácil atacar do que mudar a própria vida.

Esbarrei, dias atrás, em uma senhora recém operada.  Ama cirurgia ao qual se submetera, estética, havia sido um tanto dolorosa, daquelas que geram hematomas. Esta mesma senhora era aquela que criticava e se escandalizava comentando a atitude de outra pessoa que, por um ideal transcendente, realizava um sacrifício. Pois é. A história da nobre romana é muito atual. Infelizmente.

Perdeu-se uma vida – a de Cecília – com este martírio, mas ganhou-se um exemplo: o daqueles que não abrem mão de convicções por ibope ou aceitação. Hoje o mundo a reverencia. A verdade prevalece. E prevalece pela sua força, que é a própria verdade. Fica para nós, músicos, o exemplo desta mulher revolucionária em seu tempo, repleta de contestação aos padrões pagãos da época. Para mim, fica um exemplo a ser seguido.

Feliz dia de Santa Cecília a todos!

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