Ravel, a perda de um braço e o jazz

Alvaro Siviero

03 de dezembro de 2012 | 11h11

O nome Ravel (1875-1937), para muitos, é instantaneamente associado a uma de suas obras mais conhecidas, o Bolero,  que o imortalizou pelo qualificado manuseio de diversos timbres e instrumentos musicais inseridos em uma melodia marcante.  Não tão popularizados quanto seu célebre Bolero, mas igualmente pertencentes à elite da literatura musical, estão seus dois concertos para piano, onde o  “swing jazz”  que dominava o continente americano no início dos anos 30, se encontra a tradição clássica. É assim mesmo. Durante os anos 1930 e 1931  – ano em que os dois concertos foram escritos – desconhecer nomes como  Duke Ellington ou Glen Miller era sinônimo de alienação. E foi na França de Ravel que o jazz, com o Quintette du Hot Club de France,  ganhou contornos precisos no continente europeu. Ravel não era indiferente a tudo isso. E com ousadia, a título de exemplo, insere o saxofone como instrumento sinfônico em seu Bolero e, em seus dois concertos para piano, indiscutivelmente, o elemento jazzístico ganha vida.

Um desses concertos (em ré maior), foi escrito para ser executado somente pela mão esquerda do pianista e dedicado a Paul Wittgenstein, pianista e amigo, que tivera o braço direito amputado durante a Primeira Guerra Mundial. O que espanta nessa obra, de clima tenso, altamente dramático e denso, é a impressão de se estar ouvindo uma obra sendo executada por ambas as mãos do solista. O seu outro concerto (em sol maior), de caráter mais lúdico, explora o lado jazzístico com incisos de tirar o fôlego, altamente percussivos.

Os videos abaixo falam por si. Interpretados por dois grandes pianistas da atualidade – a argentina Martha Argerich e o polonês Krystian Zimerman -,  cada uma dessas obras, nas mãos dos intérpretes, ganha ambientação musical própria. O primeiro deles, com Argerich  interpretando o célebre Concerto em sol maior, na íntegra, o recado é vigoroso, decidido e puro. A entrada da obra (com a exposição de seu tema principal) desenvolve-se  para momentos de pura adrenalina, como o retratado em 03:15. O contraste criado entre o piano romântico e lírico de 07:23, que se transforma em piano-tambor em 07:48, merece igual destaque. O final do primeiro movimento, em 08:51, se dá de modo lúdico e preciso. A seguir, em 08:53, inicia-se o segundo movimento, um tema central repleto de pureza e transcendência. O sorriso da pianista em 17:33, de satisfação, é o de quem também descobre a fugacidade desta vida diante de momentos como esse. Em 17:55 vem o ataque final, arrebatador.

 

O Concerto para a Mão Esquerda está, propositalmente,  inserido no primeiro vídeo abaixo somente em áudio, com a intenção de mostrar a você, leitor, como uma única mão ao piano é capaz de criar tantas sonoridades. Observem a entrada retumbante do solista em 2:02, em total domínio.

 

Para matar a curiosidade dos interessados, abaixo se encontra um trecho do Concerto para Mão Esquerda, com o “inusitado” de se ver o solista com sua mão direita o tempo inteiro parada. A interpretação é do pianista francês Pierre-Laurent Aimanrt.

Para os que se lembram do Bolero, observem a evidente alusão rítmica em 1:56. Tudo, ao mesmo tempo, muito jazzístico!

 

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