Rachmaninov: querer é poder.

Rachmaninov: querer é poder.

Alvaro Siviero

25 de maio de 2014 | 19h23

No próximo dia 31 de maio, às 21h, Sala São Paulo, interpretarei o Concerto n.3 para piano e orquestra de Rachmaninov, sob a batuta de Claudio Cohen, com a presença da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro (Brasília). A renda será integralmente revertida para a ONG Autismo&Realidade (www.autismoerealidade.org)

Muitos dos presentes estarão movidos pelo desejo de testemunhar a execução desta obra, raramente interpretada devido a seu elevado nível de dificuldade técnica e musical. Um dos maiores monumentos musicais e, sem dúvida, a maior contribuição de Rachmaninov à literatura pianística. Só isso, aliado à causa beneficente, já seria o suficiente. Mais do que suficiente. No entanto, a razão íntima para a inclusão desta obra vai além (vide vídeo abaixo). Nela, Rachmaninov abre o coração e, musicalmente, escancara as razões que o levaram a querer abandonar completamente a música após um período de profunda desmotivação. É a estória de um desencanto, de um passado que teria tudo para ser mal resolvido mas que, após uma tomada de decisão, consegue olhar para os fatos com olhos de aprendiz e desafiar positivamente o futuro. Uma decisão acertada, segredo da extremamente bem sucedida tríplice carreira do autor como pianista, compositor e regente. Um homem intimamente ajustado que gera um profissional bem sucedido. E assim é a vida.

No campo das realizações humanas, genialidade é fruto de paciência prolongada, de esforço repetido e melhorado. O sábio repete seus cálculos e renova suas experiências até acertar com o resultado de sua pesquisa. O escritor retoca incansavelmente sua obra. O escultor quebra um após outro todos os moldes até conseguir expressar sua criação interior. Um perpétuo recomeçar. Um fracasso, muitas vezes inesperado, gera progresso: são cara e coroa da mesma moeda. Este existe quando, diante daquele,  reagimos com decisão, com olhos de futuro e, acima de tudo, com a necessária humildade para reconhecer, refletir, absorver os fatos… e mudar de atitude. O raciocínio vale, inclusive, para muitos outros âmbitos vitais, como a vida de relação, pessoal ou mesmo amorosa: a verdade do amor não se mede tanto pelos êxitos que julgamos ter alcançado quanto pela nossa capacidade de recomeçar, de renovar compromissos assumidos, de renovar-se. E o passado, mesmo que decorado de más lembranças, torna-nos ainda mais seguros e experientes diante do que não valeu a pena. Passado não foi feito para esquecer, até mesmo porque as más experiências do passado não se esquecem. Passado se enfrenta. Só assim crescemos, como os músculos, à base de exercícios e desafios. Maior o desafio? Maior o crescimento. Aqui a decisão é pessoal. Neste âmbito, querer é poder.

A gênese de uma superação resume a estória desse concerto. Uma estória que vale a pena ser lembrada. No dia 31 quero tocá-lo como quem se entrega, como se fosse a última vez. Só assim vale a pena.

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