Quarteto Borodin em noite memorável

Alvaro Siviero

03 de junho de 2013 | 12h00

A primeira apresentação do Quarteto Borodin, ontem, pela temporada do Cultura Artística, transformou o palco da Sala São Paulo em laboratório. Isso mesmo. A teoria virou prática. Tendo como testemunhas uma platéia atenta, os músicos transformaram em realidade aquele legítimo desejo de todo verdadeiro artista em desaparecer em fusão com seu instrumento. Em alguns momentos, até os próprios instrumentos pareciam desaparecer, onde somente sons puros eram fabricados por músicos sorridentes. O interessante é que – vale a pena fazer essa inserção – quando isso ocorre, não são somente os músicos intérpretes que estão sobre o cenário, mas também os compositores. E Brahms foi o primeiro a pisar no chão de madeira da sala. Um momento mágico.

A execução do Quarteto de Cordas n.3 em si bemol maior, Op.67, do compositor alemão ganhou especial destaque com a presença segura e extremamente musical do violista Igor Naidin. Para os não iniciados, a viola é um instrumento de difícil afinação, dado que seu timbre e escopo sonoro oscilam entre o dos violinos e do violoncelo. E é a viola quem deve unir essas duas partes. Igor Naidin revelou extrema maturidade e musicalidade. A afinação dos violinos de Ruben Aharonian e Sergey Lomovsky, segura, os transformava em um único instrumento. Em realidade, os quatro instrumentos eram apenas um, semeando a mãos cheias aos ouvidos de todos os presentes um conteúdo que dificilmente se pode esquecer. Tudo ágil. Tudo coerente. Tudo real. A vida, naquele momento, se chamava música.

Quando Tchaikovsky entrou em cena, com seu Quarteto de Cordas n.3 em mi bemol maior, Op.30, os intérpretes sabiam que estariam conversando sobre uma linguagem que lhes é conatural: a música russa. E foi aqui que mostraram o melhor que estava por vir. A presença de Vladimir Balshin, em seu cello bem timbrado, de sonoridade densa e altamente estética, estabeleceu conversa de gente grande com o restante do grupo.A presença do primeiro violino, Ruben Aharonian, fez-se mais presente, com fraseados, controle técnico e lirismo invejável (a umidade climática dificultou, durante a primeira parte do programa, uma maior projeção sonora em seu instrumento).

Para aqueles que se intimidaram diante da fria noite resta uma esperança: o quarteto faz mais uma última apresentação – a última – em SP na quarta-feira, dia 05.

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